Domingo, 11 de Novembro de 2018

CADERNOS DO SUBTERRÂNEO (6)

A VERDADEIRA HISTÓRIA DE MARIA LUÍSA BLANQUI

 

(SEGREDO(S) DE UM CORAÇÃO CULPADO)

 

(2ª. EDIÇÃO, REVISTA, CORRIGIDA E AUMENTADA)

 

       Não, não vamos começar esta história pelo princípio. Nem vamos começar esta história pelo fim. Vamos antes começar esta história pelo meio. Sim, pelo meio. Esta história tem início em Outubro de 1958. Foi quando Maria Luísa  Blanqui, vinda de Lisboa, desembarcou (sim, literalmente, desembarcou, uma vez que as viagens aéreas regulares para Cabo Verde ainda não existiam) na sua terra natal, a sonolenta e pacata cidade da Praia, capital da então colónia portuguesa de Cabo Verde. Quem viu o magnifíco filme francês (na verdade, franco-italiano), O Salário do Medo, de 1953, da autoria de Henry-Georges Clouzot, e mais exactamente, se lembra do seu prelúdio, passado numa aldeola empobrecida e situada algures na América do Sul, pode ficar com uma representação clara e precisa do que era a cidade da Praia, nos anos cinquenta do século passado.  Nessa vilória da película e também na cidade da Praia, todos pareciam estar à espera de Godot. O que se segue é a transcrição de um excerto do diálogo (beckttiano) entre Mario (Yves Montand) e Jo (Charles Vanel), dois dos protagonistas do filme:    

 Mario: Aqui não há um único que tenha emprego! Há esquemas, e, de vez em quando, lá nos safamos. E é tudo.

Jo: Porque é que não se vão embora?

Mario: Vontade não falta. Não há grades, há muito espaço. Isso é que mata. É demasiado grande. Para se sair daqui é difícil.

Jo: Então e o comboio?

Mario: Não há caminho-de-ferro.

Jo: E a estrada?

Mario: Só vai até ao poço de petróleo.

Jo: E o avião?

Mario: Já viste as tarifas? Caracas é perto de mais. Estamos perdidos neste canto. É tudo para cima de 200 ou 300. Tens esse dinheiro?

Jo: não.

Mario: Eu também não. E o visto? É preciso visto.

Jo: Isso arranja-se.

Mario: Sim, mas um verdadeiro.

Jo: Também se arranja.

Mario: Só é preciso dinheiro. E para o teres, precisas de um emprego. E emprego é coisa que não há. Começaram este prédio há dois anos e depois pararam.

Jo: Com este sol, compreende-se.

Mario: Isto é como a prisão. Para entrar é só facilidades. Mas para sair, é o sais! E se não sais daqui, morres.

Jo: Pois eu não pretendo morrer. 

Mario: Ninguém quer. 

        De volta à chegada de Maria Luísa à cidade da Praia, importa salientar que ela levava pela mão a filha única de quinze anos, que, tal como a mãe, também dava pelo nome de Maria Luísa, mas tratada familiarmente por Lisita. O que ia fazer Maria Luísa, uma mulher madura de trinta e sete anos de idade e acompanhada de uma descendente menor, a Cabo Verde em 1958? Em princípio ia trabalhar como professora (de Francês e Português) na recém-inaugurada secção do liceu Gil Eanes da Praia. (Secção, porque a sede do mesmo estabelecimento de ensino estava no Mindelo, a segunda cidade da colónia, na ilha de São Vicente, mas isto é um pormenor irrelevante).  Maria Luísa ia partir da estaca zero, numa idade em que ninguém inicia uma carreira. Numa idade em que já se começa a pensar na reforma. Numa idade em que se está a meio da ponte e é quase impossível regressar ao ponto de partida. Numa idade em que, em suma, já se começa a fazer o balanço de uma vida. E ela, há que dizê-lo sem rebuço, tinha já muito para balançar (como adiante se verá), pois vivera mais de vinte anos em Lisboa.

       O lugar de professora, que a esperava, não lhe oferecia um salário muito tentador. Era um ordenado aceitável tendo em conta o baixo nível de vida da cidade e a modesta média salarial da colónia. O que de certo modo poderia compor o orçamento de Maria Luísa, e isso deve ter influído bastante na decisão de ir trabalhar em Cabo Verde, era o seguinte factor: Não teria qualquer encargo com a habitação (e talvez nem com a alimentação e outras mordomias) visto que ela e a filha iriam aboletar-se em casa da irmã mais velha, Maria da Luz (também conhecida por Lina). A casa (a bem dizer, uma vivenda), além de espaçosa, era quase nova e de boa qualidade, e fora atribuída, pouco tempo antes, ao cunhado e conterrâneo, Casimiro Antunes da Rosa, pelo facto de este ser, à época, Conservador  do Registo Civil, de nomeação, e Juiz de Direito, em funções, da Comarca da Praia. A dita moradia estava (e ainda está) localizada num bairro chique da cidade, acabado de construir pelo Estado, e popularmente designado de Bairro Azul. (Mais à frente voltaremos a este assunto relacionado com o alojamento de Maria Luísa e filha.)

     Logo que a presença de Maria Luísa, na cidade da Praia, foi conhecida, as notícias a seu respeito correram céleres e vertiginosas. Passou-se a saber, no imediato, inter alia, que ela vinha de Lisboa e que, além de licenciada em Filologia Românica, era viúva de um italiano e daí o seu apelido Blanqui. Apelido dela e o da filha. Também se ficou a saber que o marido perdera a vida num acidente de automóvel, ocorrido no seu país de origem, a Itália, em data não especificada. 

      A recepção de Maria Luísa na cidade não podia ser melhor. Todos falavam dela. Todos a cumprimentavam. Todos queriam ser-lhe apresentados. Todos a elogiavam por uma razão ou por outra. Todos a queriam convidar para folguedos e festejos. A entrada de Maria Luísa na cidade da Praia foi triunfal. Foi uma entrada à Júlio César: Veni, vidi, vici. E depois da sua chegada à cidade da Praia, ocorreu às entidades oficiais que a até então doméstica, anónima e apagada irmã, Maria da Luz, (cujas habilitações literárias e profissionais ninguém conhecia) também podia ser professora liceal de qualquer coisa como, por exemplo, de Canto Coral. E assim aconteceu. Não há dúvida: as duas irmãs estavam na moda.

       Mas, de repente e menos de dois anos depois, Maria Luísa foi-se embora. Foi-se embora de forma atabalhoada. De forma precipitada, como que a fugir de qualquer coisa. Como que a fugir de uma qualquer falta grave. Como que a fugir de um qualquer escândalo. A pressa em fugir era tal que ela nem chegou sequer a concluir o segundo ano lectivo (1959/1960) da sua curta e meteórica carreira académica na capital de Cabo Verde.  

      E, no entanto, tudo parecia correr de feição a Maria Luísa. As suas aulas e os seus contactos sociais eram apreciados da melhor maneira por toda a gente e sobretudo pelos seus alunos. Estes só viam virtudes nessa mulher. Virtudes de ordem pessoal, pedagógica, intelectual, cultural e política. Ela até teve tempo e disponibilidade para organizar uma (única) sessão de teatro com a participação no elenco (chamemos-lhe assim)  de parte dos seus pupilos, e isso ficou na memória dos jovens que a tiveram como professora.

       E foi este doce e idílico retrato de Maria Luísa que passou para o imaginário de muitos cabo-verdianos e que ainda agora ressoa na notícia atrás transcrita do jornal online A Semana. 

      Contudo, retrato errado, apressado e destituído de qualquer fundamento. E porquê? Vejamos, e vamos começar pela sua alegada condição de viúva de um italiano. Uma falsidade. Maria Luísa era com efeito viúva, mas não de um italiano. Ela era viúva de um português. Sim, de um português, de seu nome Luís Augusto da Silva Blanqui Teixeira. Repetimos: Luís Augusto da Silva Blanqui Teixeira. Conforme reza a certidão do Registo de Casamento (nº. 157, folhas 158, livro nº. 90, da Segunda Conservatória de Lisboa), Fernando Luís e Maria Luísa consorciaram-se em 28 de Fevereiro de 1943. Ele era um humilde funcionário público, de 23 anos de idade, e ela, estudante de 21 anos. O casamento civil foi celebrado na morada de Maria Luísa, sita na Rua Carvalho Araújo, nº. 210, primeiro andar, lado direito, em Lisboa, mais especificamente no popular Bairro de Arroios, à Praça do Chile. Há que precisar que esta casa foi arrendada pelos pais de Maria Luísa, quando, dez anos antes, vieram de Cabo Verde fixar residência na capital portuguesa, acompanhados das duas filhas adolescentes. Nela viviam, à data do casamento, além da mãe (o pai já tinha falecido) e Maria Luísa, também a irmã Maria da Luz e o marido Casimiro Antunes da Rosa, futuro Conservador do Registo Civil e Juiz substituto da Comarca da Praia, ao qual já fizemos referência. O nome que ela passou a usar, depois do matrimónio, foi o de Maria Luísa Tavares e Sousa Blanqui Teixeira. Sim, Blanqui Teixeira. Mas isto só sucedeu até à sua chegada à cidade da Praia. A partir daqui, e para encenar com toda a conveniência a sua qualidade de suposta viúva de um italiano, ela omitiu deliberadamente o último apelido, Teixeira, ficando apenas com Blanqui no fim do seu nome.

      Convirá dizer ainda mais qualquer coisa a respeito do marido, Luís Augusto da Silva Blanqui Teixeira. Este morreu precocemente, em 5 de Maio de 1944, aos 24 anos de idade, de tuberculose pulmonar (é o que diz a certidão de óbito), um ano e três meses depois do casamento, e seis meses após o nascimento da filha Maria Luísa (mais tarde tratada em família por Lisita). De notar que, aquando do falecimento de Luís Augusto, o casal tinha mudado de residência. A morada dos dois cônjuges constante da certidão de óbito (Registo nº. 628, de 05/05/1944, livro 105, da Segunda Conservatória de Lisboa) era agora a da família do mesmo Luís Augusto e onde este habitara até ao casamento, ou seja, Avenida Almirante Reis, nº. 217, rés-do-chão, em Lisboa, sendo certo que seis meses antes, isto é, na data do nascimento de Lisita (15 de Novembro de 1943), a filha de ambos, o domicílio do casal localizava-se no já mencionado endereço da Rua Carvalho Araújo, nº. 210, primeiro andar, lado direito, em Lisboa (Assento de Nascimento nº. 2550-M/1943, lavrado em 23/11/1943, na 8ª. Conservatória de Lisboa, e informatizado em 21/01/2016).

      Mas acerca de Luís Augusto ainda não dissemos tudo. Falta dar a conhecer o elemento talvez mais importante. Luís Augusto era irmão do futuro dirigente e funcionário do Partido Comunista Português, (PCP) Fernando Augusto da Silva Blanqui Teixeira (1922/2004). A adesão deste ao PCP iria ocorrer nesse mesmo ano de 1944, e pouco tempo depois Fernando Blanqui Teixeira (como era mais conhecido) entrava na clandestinidade e iria parar algumas vezes às prisões fascitas portuguesas. Ora na ocasião da chegada de Maria Luísa à cidade da Praia, Fernando Blanqui Teixeira era um alto quadro do PCP e estava detido no forte de Caxias. Para além de Maria Luísa dizer que era viúva de um português não ilustrar muito bem as suas pretensões nacionalistas cabo-verdianas, pretensões embora vagas e não isentas de contradições várias, apresentar-se como viúva de um cidadão italiano era mais romântico e também dava mais classe. Dava mais estilo. Dava mais charme. Dava mais panache. E, por outro lado, devido a preconceitos diversos, não conviria a Maria Luísa revelar nessa altura a sua ligação, mesmo que de forma indirecta, a um proeminente membro do Partido Comunista Português, ainda por cima, na cadeia. Daí a alteração (por omissão) do seu nome. Ela passou a ser Maria Luísa Blanqui, sem o Teixeira. 

        A deturpação da sua identidade foi o primeiro equívoco de Maria Luísa Tavares e Sousa Blanqui Teixeira, depois de ela ter chegado a Cabo Verde. Outros equívocos se seguiriam e, desde logo, as suas proclamadas qualidades pessoais, pedagógicas, intelectuais, culturais e políticas. Nada disto é verdade. Ponto final.

       Maria Luísa Tavares e Sousa Blanqui Teixeira era uma professora vulgar, indistinta e, como tal, situada ao nível dos restantes professores do liceu da Praia. Nem mais nem menos. A única coisa que ela fazia de forma diferente dos demais docentes era festejar com cantigas os aniversários dos seus discípulos. Sim, isso mesmo: festejar com cantigas os aniversários dos seus discípulos. E como esses festejos ocupavam o tempo todo das aulas, muitos alunos inventavam aniversários para que não houvesse...aulas.

       E em termos de formação e experiência pedagógicas ela vinha em branco de todo. Ao contrário do que assevera o referido comunicado da Fundação Amílcar Cabral, Maria Luísa apenas trazia, como habilitações literárias, algumas cadeiras de Filologia Românica e, portanto, estava longe de possuir o curso universitário completo. Por esta razão, nem ela podia continuar a sua formação (que não tinha) em instituições estrangeiras, nem leccionou em Portugal em vários colégios. Para sobreviver e sustentar uma filha menor, Maria Luísa teve de se agarrar à única profissão que ela podia exercer: a de tradutora oficial ou ajuramentada. Atenção: não confundir com tradutora literária, para o que Maria Luísa não tinha qualquer formação académica nem experiência. Tratava-se de tradutora de documentos notariais ou judiciais, tais como certidões, declarações, contratos, procurações, sentenças, etc., e, para esse efeito, ela estava dependente do que lhe pediam (quando lhe pediam) advogados, solicitadores e outros tipos de eventuais interessados. 

       Mesmo que Maria Luísa fosse licenciada em Filologia Românica, e não era o caso, ela estaria sempre impedida de leccionar na antiga metrópole, quer no ensino público quer no ensino privado, dadas as suas ligações, ainda que por afinidade, a um importante dirigente do PCP e exibidas no seus dois últimos apelidos. Isto era aliás o que acontecia aos professores ou candidatos a professores, que, de uma forma ou de outra, não estavam de acordo com a situação política então vigente, ou mesmo que só aparentassem (como sucedia com Maria Luísa) não estar alinhados com o mesmo regime político. Para Oliveira Salazar, e seus sequazes, havia um princípio político sagrado e vertido nesta simples frase: Em política, o que parece é. Para Maria Luísa só haveria uma excepção: ensinar em Cabo Verde se ela ela assim o quisesse e desde que obviamente possuisse as pertinentes habilitações literárias, o que, como já se viu, não acontecia. Em breves palavras: um trabalho irregular, incerto e mal-remunerado e a impossibilidade de leccionar em Portugal, foram as razões que ditaram a decisão de Maria Luísa ir ensinar para Cabo Verde, onde ela chegou aos caídos. Restavam-lhe poucas alternativas no espaço português.

      Quanto às suas alegadas qualidades intelectuais e culturais, Maria Luísa era simplesmente um logro. Ela foi ao longo da sua longa vida uma mulher sobrevalorizada mormente em Cabo Verde, (e ela gostava disso e também gostava de acreditar na sua própria lenda). Criaram dela uma imagem que estava bem distante da realidade. E a realidade era a de uma mulher que nada tinha de especial. E a realidade era a de uma mulher banal, de cultura geral mediana e superficial. Não se lhe conhece uma teoria, por pequena que seja, uma linha de pensamento, um escrito, uma ideia, uma frase. Nada. Zero. Maria Luísa era um deserto em matéria de cariz intelectual e cultural. Enquanto seu aluno e conhecido, nao a ouvi citar um único grande romancista, português ou estrangeiro. Um poeta. Um filósofo, clássico ou moderno. Um pintor. Um músico. Um cineasta. Na casa onde ela e a filha se alojavam não vi sequer um livro, muito menos os canónicos, um desses dez escolhidos por Somerset Maugham ou pela ITV, atrás falados.  

      E o teatro que ela organizou? Mais um embuste. O que ela fez nada tinha a ver com o teatro sério ou com o também chamado teatro declamado. Não, não era Gil Vicente (e um dos seus autos) , ou Almeida Garrett (e o seu Frei Luís de Sousa) ou mesmo Júlio Dantas (e a sua A Ceia dos Cardeais). Não. Não era nada disso. E, menos ainda, dramaturgos estrangeiros, como, por exemplo, Nikolai Gogol (e a sua peça O Inspector-Geral), ou Henrik Ibsen (e a sua peça Quando Nós, Os Mortos, Acordamos), ou Oscar Wilde (e a sua peça A Importância de Se Chamar Ernesto), ou Luigi Pirandello (e a sua peça Seis Personagens à Procura de Um Autor). O teatro que Maria Luísa encenou  era o teatro fácil e ligeiro que ela tinha frequentado e que estava muito em voga nos palcos portugueses (leia-se: nos palcos lisboetas) nas décadas de quarenta e cinquenta do século passado. O teatro que Maria Luísa encenou era uma imitação barata do apelidado teatro de variedades ou do teatro de revista à portuguesa. Ou, se se quiser, do teatro de vaudeville. Com todos os seus ingredientes: cantorias, anedotas, alguma dança e imitações, no caso, de professores do liceu onde ela ensinava. Chamaram-lhe teatro porque o que ela apresentou tinha lugar num palco e porque o seu público era constituído por uns refinados ignorantes e, por causa disso, um público que nada sabia do teatro, em geral, nem das suas derivações bastardas, em particular. E também porque era grande a boa vontade para com Maria Luísa. Só isso.

        No que toca à sua actividade política, muito louvada na notícia do jornal online A Semana, é também uma grande treta. Maria Luísa não teve qualquer actividade política. Nem discretamente nem ostensivamente. Nem em Lisboa (a sua situação de viúva e mãe de uma menor, frequentes vezes desempregada ou precariamente empregada, não lhe dava nem tempo nem disposição para se preocupar com a política), nem em Cabo Verde. É ridículo dizer que As medidas inovadoras introduzidas (por Maria Luísa, entenda-se) a nível da escola e o trabalho de consciencialização política realizado junto dos alunos causaram-lhe incompatibilidades com a Direcção (sic) do Liceu, que teriam chegado ao conhecimento da PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado). Assim, em 1960, a professora Maria Luísa Blanqui (sic) decidiu  deixar o País (sic) e, a partir do mesmo ano, passou a trabalhar na Universidade de Genebra, na Suíça.

          Esta passagem do obituário do jornal online A Semana, tem muito que se lhe diga. Refira-se, desde já, que Maria Luísa e a PIDE não se cruzaram em Cabo Verde. Quando esta polícia política arribou a Cabo Verde em 1961, já Maria Luísa não se encontrava na colónia. Por isso é um absurdo afirmar que a PIDE teria tomado conhecimento das incompatibilidades de Maria Luísa com a Direcção do Liceu. Outrossim, e repetindo o que já dissemos acerca dela, Maria Luísa era uma mulher vulgar, quer como pessoa, quer como professora. Nada fez ou afirmou que a distinguisse dos seus colegas. Não houve da parte dela qualquer trabalho de consciencialização política junto dos seus alunos, e se ela teve algum problema com a Direcção do Liceu terá sido por motivações puramente disciplinares (as tais cantigas a propósito dos aniversários dos seus alunos) ou administrativas (a falta de licenciatura), e não por razões políticas. E, de resto, pergunta-se: o que é isso das incompatibilidades com a Direcção do Liceu que teriam chegado ao conhecimento da PIDE? Com que resultados de carácter político? Com que medidas tomadas contra ela? Sim, estamos a falar de uma Polícia de matriz essencialmente política e repressiva, e que, perante as actividades subversivas (como então se dizia) dos princípios políticos que norteavam o Estado Novo, ou prendia sem culpa formada, ou desterrava, ou  ainda mandava para o desemprego. Nada disto aconteceu a Maria Luísa Blanqui Teixeira, em Cabo Verde. Ela trabalhou livremente na colónia, e da lá saiu livremente e quando entendeu que era altura de o fazer. Saiu, não por factores de natureza política, mas por meras razões de ordem económica e prática. Os motivos que pesaram seriamente na decisão de Maria Luísa abandonar a então colónia portuguesa de Cabo Verde terão sido, não os mais românticos (como ela e os seus admiradores gostariam que tivessem sido), mas os mais prosaicos possíveis. E quais foram tais motivos? Em primeiro lugar, a falta de formação universitária cuja prova documental ela nunca fez, a despeito dos inúmeros e insistentes pedidos nesse sentido que lhe foram dirigidos pelas autoridades competentes.

       Em segundo lugar, o futuro da filha, seja do ponto de vista pessoal, seja do ponto de vista académico, e seja ainda do ponto de vista profissional. Na Suíça, Lisita não estudou muito mas não só fez, em 29 de Junho de 1964,  um casamento (com um cidadão suíço) que provavelmente não faria em Cabo Verde, como também, juntando-se à mãe, abraçou até hoje a profissão de tradutora oficial ou, como também se diz, de tradutora ajuramentada.

      Finalmente, a irmã Maria da Luz e o marido partiriam em breve de Cabo Verde para Angola (onde Casimiro Antunes da Rosa iria dar continuidade ao seu percurso de quadro superior ao serviço do colonialismo português em África), pelo que Maria Luísa deixaria de poder contar com o alojamento (e talvez com a alimentação e outras prerrogativas) a custo zero, passando a depender apenas e só do do seu relativamente magro vencimento de professora liceal.

      Nada das situações descritas, que afectavam Maria Luísa, aconselhava ou permitia a sua permanência em Cabo Verde e, como se vê, tratava-se de situações que se podiam, e ainda podem, colocar a qualquer candidato à emigração por razões de sobrevivência. Sim, o que Maria Luísa fez foi rigorosamente emigrar para a Suiça à imagem e semelhança do que já faziam os seus conterrâneos, embora em grande medida para outros destinos. Em resumo: Maria Luísa não se exilou nem foi forçada a exilar-se. Emigrou para a Suíça em busca de melhores condições de vida para si e para a sua filha. Não para ir ensinar na Universidade de Genebra, para o que lhe faltava tudo, em termos de requisitos académicos, mas, sim, para ir continuar a fazer o que já fazia em Lisboa e que ficou interrompido com a sua aventura cabo-verdiana: trabalhos de tradutora oficial ou ajuramentada. Como disse alguém sobre Mirabeau, o tribuno e oportunista da Revolução Francesa, Maria Luísa, para atingir os seus objectivos, era uma mulher capaz de tudo, até mesmo de uma boa acção. Mas adiante.

        De regresso ao comunicado da Fundação Amílcar Cabral, que o jornal online A Semana transcreveu, em jeito de oração fúnebre, é curioso constatar que ainda hoje Maria Luísa é idolatrada pelos seus patrícios, sendo tratada nessa peça jornalística recorrentemente por Maria Luísa Tavares Blanqui (sem Teixeira) quando os próprios familiares já tinham desistido dessa farsa identitária. De facto, a propósito do falecimento de Maria Luísa, em 8 de Julho último, quase a completar os noventa e sete anos de idade, o jornal suiço Tribune de Geneve, de 10 de Julho de 2018, em notícia paga, publicou o Avis de décès respeitante a Madame Maria-Luísa Tavares e Sousa Blanqui Teixeira (sic). É motivo para dizer que os cabo-verdianos são neste caso mais papistas que o papa, perdão, corrigimos: mais papistas que a papisa, Lisita, a filha de Maria Luísa, a qual, por sua vez, também passou a usar os apelidos completos do seu nome, incluindo em consequência, o Teixeira a seguir ao Blanqui.  

       Vamos terminar com mais umas considerações acerca da admiração sem reserva e, como atrás ficou demonstrado, também sem fundamento, que os cabo-verdianos (a nível particular e, de igual modo, no plano oficial) tiveram e ainda têm por Maria Luísa Tavares e Sousa Blanqui Teixeira. No Verão de 1990, numa das raras visitas que Maria Luísa fez a Cabo Verde, ela foi homenageada por uma dúzia de patetas, antigos alunos seus (de ambos os sexos) com um almoço num conhecido restaurante perto da capital. Entre esses patetas estava também um poeta (uma espécie de celebridade local), que ficou desvanecido por Maria Luísa lhe ter dito que, enquanto vários dos seus ex-colegas liceais faziam então muito dinheiro na vida profissional, ele (o poeta) ganhava pouco mas, em compensação, produzia Arte. O mesmo bardo ainda hoje conta essa história, com muito orgulho e alguma nostalgia, sempre que se lhe oferece uma oportunidade ou, às vezes, mesmo a despropósito. O narcisista, e também o cabotino, têm razões  que a razão desconhece.

        Em 5 de Julho de 2015, repetimos: em 5 de Julho de 2015, um outro pateta,  o presidente da República de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, condecorou Maria Luísa com a medalha de mérito (de segunda classe) por serviços prestados no domínio da educação em Cabo Verde, tratando-a por Maria Luísa Tavares e Sousa Blanqui (sem Teixeira). Mais comentários, para quê?        

                      

                                 

 

publicado por flagrantedeleite às 21:55
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