Segunda-feira, 1 de Outubro de 2018

CADERNOS DO SUBTERRÂNEO (5)

O PRÉMIO CAMÕES 2018

 

(DOZE AUTORES EM FÚRIA)

 

        Lídia Jorge, Mário Cláudio, Vasco Pulido Valente, Clara Ferreira Alves, João de Melo, Miguel Sousa Tavares, Maria Teresa Horta, Mário de Carvalho, Inês Pedrosa, Gonçalo M. Tavares, Walter Hugo Mãe e Pedro Mexia, entre outros, ainda não foram contemplados com o Prémio Camões. Distinguir, com o mesmo galardão, Germano Almeida, um contador de anedotas crioulas, que fala e escreve mal o idioma luso, ignorando qualquer um dos referidos doze grandes autores portugueses, é uma injustiça de bradar aos céus. E o resto são mornas, coladeiras e funanás.

 

 

QUE DEVO OU NÃO DEVO LER?

      Hoje mais do que nunca, a sobrepopulação de livros (e de autores), provocada pela extensão e complexidade dos registos da história do mundo, está no centro dos dilemas canónicos. "Que devo eu ler" já não é a pergunta certa, uma vez que tão poucos lêem hoje em dia, na era da televisão e do cinema. A pergunta prática veio a ser esta: "Que não devo eu dar-me ao trabalho de ler?" 

     Harold Bloom, in O CÂNONE OCIDENTAL , pgs. 511, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 1ª. edição, Fev. de 2011, tradução, introdução e notas de Manuel Frias Martins.

 

 

TEN NOVELS AND THEIR AUTHORS   

       Corria o ano de 1945 quando W. Somerset Maugham (1874/1965) publicou na revista norte-americana REDBOOK uma lista do que ele considerava ser os dez melhores romances do mundo. Com o título TEN NOVELS AND THEIR AUTHORS, a mesma lista foi publicada em forma de livro, em 1954, pela WILLIAM HEINEMANN LTD e, mais tarde, em 1963, pela Mercury Books, mas já acompanhada de estudos sobre cada um dos escritores seleccionados e, bem assim, acerca dos romances por ele escolhidos, além de uma extensa e bem documentada introdução, intitulada The Art of Fiction. Uma vez que a citada obra do autor de Servidão Humana não está traduzida em Portugal, o que se lamenta, o livro de que nos servimos para esta divulgação é a edição da Mercury Books (London), de 1963. Vejamos pois a lista de Somerset Maugham dos seus dez melhores romances do mundo: 

 

1 Henry Fielding e Tom Jones 

2 Jane Austen e Orgulho e Preconceito

3 Stendhal e O Vermelho e o Negro  

4 Honoré de Balzac e O Pai Goriot

5 Charles Dickens e David Copperfield

6 Gustave Flaubert e Madame Bovary

7 Herman Melville e Moby Dick

8 Emily Brontë e O Monte dos Vendavais

9 Fiodor Dostoievski e Os Irmãos Karamazov

10 Leon Tolstoi e Guerra e Paz

 

 

TEN GREAT WRITERS OF THE MODERN WORLD

 

    Em 1988, a Independent Television (ITV) produziu e exibiu um documentário, em dez episódios, intitulado TEN GREAT WRITERS OF THE MODERN WORLD. Segue-se a transcrição dessa lista, indicando a obra, ou as obras, representativas de cada autor estudado na mesma mini-série do referido canal inglês:

 

1 James Joyce (Ulisses)

2 Joseph Conrad (O Agente Secreto)

3 Fiodor Dostoievski (Crime e Castigo)

4 Marcel Proust (Em Busca do Tempo Perdido)

5 Thomas Mann (A Montanha Mágica)

6 Henrik Ibsen (Hedda Gabler, Casa de Bonecas, Espectros, etc.)

7 Virginia Woolf (Mrs. Dolloway)

8 Luigi Pirandello (Seis Personagens à Procura de Um Autor, O Falecido Matias Pascal, etc.)

9 T. S. Eliot (Terra Devastada)

10 Franz Kafka (O Processo)  

 

 

DUAS CARTAS DE JAMES JOYCE (1882-1941) A NORA BARNACLE

 

29 de Agosto de 1904

60 Shelbourn Road

 

      Minha querida Nora,

     Terminei agora mesmo a minha refeição da meia-noite, que comi sem apetite nenhum. Quando ia meio, descobri que estava a comer com as mãos. Sinto-me tão mal como ontem. Estou muito angustiado. Desculpa esta pena horrenda e o papel medonho.

     Talvez te tenha afligido ontem, com as coisas que disse, mas julgo que será preferível saberes o que eu penso, não? O meu espírito rejeita o cristianismo e toda a ordem social presente - o lar conjugal, as virtudes instituídas, as classes sociais e as doutrinas religiosas. Como é que a ideia de lar me podia atrair? O meu lar foi simplesmente uma coisa de classe média, arruinada por costumes esbanjadores, que eu próprio herdei. Penso que a minha mãe foi destruída lentamente pelos maus tratos do meu pai, por anos e anos de dificuldades, e pela cínica franqueza da minha conduta. Quando a vi deitada no caixão, com o rosto acinzentado e consumido pelo cancro, compreendi que estava a olhar para a cara de uma vítima e amaldiçoei o sistema que a transformou em vítima. Éramos dezassete na família. Os meus irmãos e irmãs não representam nada para mim. Só um dos meus irmãos é capaz de me compreender.

      Há seis anos abandonei, com um ódio fervoroso, a Igreja Católica. Percebi que me era impossível permanecer no seu seio, devido aos impulsos da minha natureza. Quando era estudante, movi contra ela uma guerra secreta e recusei as posições que me oferecia. Ao fazer isto, tornei-me um mendigo, mas conservei o meu orgulho. Actualmente, faço-lhe uma guerra aberta com as coisas que escrevo, digo e faço. Na ordem social, só posso ingressar como vagabundo. Iniciei por três vezes estudos de medicina, uma de direito, e outra de música. Na semana passada fiz planos para partir numa digressão como actor ambulante. Se não consegui pôr grande energia nesse projecto, foi porque tu me puxavas na direcção contrária. Neste momento passo por dificuldades incríveis, mas desprezo-as.

    Quando nos despedimos, hoje à noite, fui passear para Grafton Street, onde fiquei muito tempo encostado a um candeeiro, a fumar. A rua estuava de vida, uma vida à qual dediquei parte da minha juventude. Enquanto ali estava, lembrei-me dumas frases que escrevi há alguns anos, quando vivi em Paris. As frases são estas: "Passam aos pares ou em grupos de três pela animação da avenida, passeando como quem dispõe de ócios, num lugar iluminado para elas. Conversam nas confeitarias, enquanto trituram pequenos pastéis, ou sentam-se em silêncio nas esplanadas dos cafés, ou descem de carruagens num frufru de vestidos tão suave como a voz do adúltero. Passam num aroma de perfumes. Sob os perfumes, os seus corpos têm um odor húmido e quente."

     Enquanto repetia estas frases para mim mesmo, eu sentia que aquela vida estava ainda à minha espera, se eu a desejasse. Decerto já não me poderia proporcionar a embriaguez de outros tempos, mas continuava ali , e agora que sou mais sensato e disciplinado, tonava-se inofensiva. Não me faria perguntas, não esperaria de mim senão alguns momentos, deixando livre o resto, e prometendo-me em troca alguns prazeres. Depois de reflectir sobre isto, recusei-a sem pena. Era inútil para mim, essa vida; não me poderia dar o que eu desejava.

      Parece-me que compreendeste mal certas passagens de uma carta que te escrevi, e senti uma certa reserva na tua atitude, como se a recordação dessa noite te perturbasse. No entanto, eu considero-a uma espécie de sacramento, e a sua recordação enche-me de uma alegria tingida de assombroso. Talvez não compreendas imediatamente porque é que te respeito tanto por causa dessa noite, mas isso é porque não me conheces bem. Ao mesmo tempo, foi um sacramento que deixou em mim um travo de pena e desapreço -- pena porque vi em ti uma extraordinária ternura melancólica que aceitou esse sacramento como um compromisso, e desapreço porque percebi que aos teus olhos eu não cumpria certas convenções da sociedade actual.

       Hoje exprimi-me em termos satíricos, mas estava a falar do mundo, não de ti. Eu sou um inimigo da baixeza e do servilismo das pessoas, não de ti. Não vês a simplicidade que existe por trás de todos os meus disfarces? Todos nós usamos máscaras. Certas pessoas que nos têm visto juntos insultam-me amiúde com o que dizem de ti. Eu ouço-as calmamente, sem me dar ao trabalho de lhes responder, mas as palavras delas sacodem-me o coração como um pássaro na tempestade.

        Não me agrada ir agora deitar-me com a recordação do teu último olhar -- um olhar de cansaço e indiferença -- e a pungente recordação da tua voz no outro dia. Nunca um ser humano esteve tão próximo da minha alma como tu, aparentemente, estás. E no entanto és capaz de encarar as minhas palavras com uma rudeza dolorosa ("O que tu queres sei eu", disseste). Quando era mais novo tive um amigo a quem me entreguei inteiramente, em certo sentido mais do que a ti, noutros sentidos menos. Era irlandês, o mesmo é dizer, atraiçoou-me.

       Não disse um quarto do que te queria dizer, mas é difícil escrever com esta maldita pena. Não sei o que irás pensar desta carta. Por favor,  escreve-me, sim? Acredita, minha querida, que te respeito muito, mas quero mais do que as tuas carícias. Deixaste-me de novo numa dúvida angustiante.

JAJ

 

 

27 de Outubro de 1909

44 Fontenoy Street, Dublin

 

MInha querida,

       Hoje a velha febre do amor começou a despertar de novo em mim. Sou um arremedo de homem: deixei a alma em Trieste. Só tu me conheces e amas. Fui ao teatro com o meu pai e a minha rmã -- uma porcaria de peça, um público asqueroso. Sinto-me (como sempre) estrangeiro no meu país. Se ao menos estivesses ao teu (sic) lado, eu podia ter-te sussurrado ao ouvido todo o ódio e escárnio que me ardiam no coração. Talvez me repreendesses, mas também me terias compreendido. Orgulha-me pensar que o meu filho -- o nosso filho, o querido e adorável menino que me deste, Nora -- será sempre um estranho na Irlanda, um homem educado noutra língua e tradição.

      Detesto a Irlanda e os irlandeses. Eles próprios ficam a olhar para mim na rua, apesar de eu ter nascido entre eles. Talvez leiam nos meus olhos o desprezo que sinto. Por toda a parte, não vejo senão a imagem do padre adúltero e os seus servos, e de mulheres pérfidas e manhosas. Não me faz bem vir aqui ou estar aqui. Talvez se estivesses comigo me custasse menos. Mas às vezes, quando me vem à lembrança aquele horrível episódio da tua adolescência, passa-me pela cabeça que tu também estás secretamente contra mim. Uns dias antes de sair de Trieste, eu estava a passear contigo na Via Stadion (foi no dia em que comprámos o jarro para a compota), um padre passou por nós e eu perguntei-te: "Não sentes uma espécie de repulsa ou de nojo ao ver um homem destes?" E tu respondeste secamente: "Não, não sinto." Como vês, guardo na memória estas coisinhas todas. A tua resposta magoou-me e eu não disse mais nada. Essa e outras semelhantes ficam-me na memória durante muito tempo. Apoias-me, Nora, ou estás secretamente contra mim?

     Eu sou um homem ciumento, solitário, insatisfeito, orgulhoso. Porque é que não és mais paciente e mais gentil comigo? Na noite em que fomos ver Madame Butterfly, tu trataste-me de forma mais grosseira. Eu só desejava ouvir aquela bela e delicada música na tua companhia. Queria sentir a tua alma a suspirar languidamente, como a minha, quando ela canta, no segunda acto, a área da sua esperança "Un bel di" : "Um belo dia, um belo dia, veremos uma espiral de fumo erguer-se ao longe no mar, e então o barco dele aparecerá". Estou um pouco decepcionado contigo. Depois, noutra noite, fui ter contigo à cama, vindo do café, e comecei a falar-te de tudo o que esperava fazer e escrever no futuro, e daquelas desmesuradas ambições que verdadeiramente são a força condutora da minha vida. Mas tu não quiseste ouvir-me. Eu sei que era muito tarde e que estavas cansada. Mas um homem cujo cérebro arde de esperança e confiança em si próprio precisa de dizer a alguém o que sente. E a quem o hei-de eu dizer senão a ti?

      Eu amo-te profunda e verdadeiramente, Nora. Hoje sinto que sou digno de ti. Não há uma partícula do meu amor que não te pertença. Apesar de estas coisas me disporem contra ti, eu vejo-te sempre no teu melhor. Se me deixasses, falar-te-ia de tudo o que tenho na mente, mas às vezes imagino, pelo teu olhar, que só te iria aborrecer. Seja como for, amo-te, Nora. Não posso viver sem ti. Gostava de te transmitir tudo o que tenho, tudo o que sei (embora seja pouco), todas as emoções que sinto ou senti, todos os meus gostos ou antipatias, todas as minhas esperanças ou remorsos. Gostava de atravessar a vida a teu lado, contando-te cada vez mais coisas, até que fôssemos um só, até chegar a hora da nossa morte. Mesmo agora, enquanto te escrevo estas palavras, sobem-me as lágrimas aos olhos e sufocam-me os soluços. Nora, nós não temos mais do que uma breve vida para amarmos. Oh, querida, sê um pouco mais gentil comigo, tem um pouco mais de paciência, mesmo que eu te pareça pouco atencioso e insuportável, e acredita que seremos muito felizes juntos. Deixa-me amar-te à minha maneira. Faz com que o teu coração esteja sempre perto do meu, para que eu possa escutar cada pulsação da minha vida, cada dor, cada alegria.

      Lembras-te duma noite em que, depois de termos ido ouvir Werther, estávamos deitados na cama, com o eco daquela música tão triste e fúnebre a ressoar ainda dentro de nós? Eu tentei recitar-te uma canção de que gosto muito, chamada "Connacht Love Song", que começa assim:

Estou tão longe, mas tão longe,

De onde estás, em Connemara.

 Lembras-te de que não consegui terminar estes versos? A profunda emoção que a minha voz traía ao recitá-los, decorrente da terna veneração que sinto por ti, foi de mais para mim. O meu amor por ti é de facto uma espécie de adoração.

    Ora, querida, eu quero que sejamos felizes. Tenta melhorar a tua saúde na minha ausência e por favor obedece às pequenas coisas que te peço. Primeiro, que comas tanto quanto possível, para que pareças mais uma mulher, e não a adorável rapariga magrinha e de ar desajeitado que actualmente pareces. Se o cacau tiver acabado, diz ao Stannie para encomendar mais; custa 5 xelins e 6 dinheiros. Entretanto, toma do outro cacau, e chocolate. Paga parte da conta da modista. Hoje enviei-te umas amostras de tecido, para tu escolheres. No sábado enviei-te sete ou oito metros de tweed  para mandares fazer um vestido novo. Tenho andado a apreçar um conjunto de peles para ti, e se os meus negócios por cá correrem bem, vou cobrir-te de peles e vestidos e capotes de todos os tipos. Tenho em mente algumas peles muito bonitas para te oferecer.

    Escreve-me agora, querida, e diz-me que estás a fazer o que te peço. Diz-me que és feliz por veres que eu te amo e te sou fiel e penso em ti. Sou-te fiel, Nora, e penso em ti o dia todo.

     Boa noite, querida. Alegra-te durante esta nossa curta separação, e sempre que pensares em mim, dá por mim um beijo ao Georgie.

     Addio, mia cara Nora!    

 

In James Joyce, Cartas a Nora, edição da Relógio d'Água, Outubro de 2012, e com tradução de José Miguel Silva, a partir de Selected Letters of James Joyce (1975), edição de Richard Ellmann (Faber and Faber).          

 

 

 

Morre professora e activista política Maria Luísa Tavares Sousa e Blanqui

 

   Faleceu esta quinta-feira, 12, (sic) em Genebra, Suíça, aos 96 anos de idade, a professora Maria Luísa Tavares Sousa e Blanqui. Natural de Cabo Verde, Luísa Blanqui foi uma activista política influente mas discreta na luta pela Independência Nacional de Cabo Verde, que teve relações de trabalho com Amílcar Lopes Cabral, o fundador do PAIGC.

 

Em comunicado, a Fundação Amílcar Cabral (FAC) lamenta a sua morte, endereçando sentidas condolências à família enlutada. "É com profundo pesar que registamos o desparecimento físico desta ilustre professora cabo-verdiana e patriota convicta. Para a família enlutada vão as nossas mais sentidas condolências", diz o documento.

Referindo-se ao perfil multifacetado de Tavares Sousa e Blanqui, a FAC destaca a sua participação na luta pela libertação nacional e a sua relação com Amílcar Cabral. "Além de docente de qualidades excepcionais, a professora Luísa Blanqui foi também uma activista política influente mas discreta na luta pela Independência Nacional de Cabo Verde. Participou nas actividades da Casa dos Estudantes do Império em Lisboa e, durante o período da luta colonial, manteve relações de trabalho com Amílcar Cabral e vários activistas portugueses que, na clandestinidade, se associavam à luta contra o salazarismo".

Conforme o documento, Maria Luísa Tavares e Sousa Blanqui nasceu na cidade da Praia, em 25 de Agosto de 1921. Completou os estudos secundàrios em Lisboa e, em 1951, formou-se em Filologia Românica pela Universidade de Coimbra. Continuou a sua formação em várias instituições estrangeiras em Espanha, Itália e França, e leccionou em Portugal, em vários colégios.

Ainda segundo o comunicado da FAC, ela trabalhou em Cabo Verde de 1958 a 1960, leccionando a disciplina de Francês (sic) na Secção da Praia do Liceu Gil Eanes. "As medidas inovadoras introduzidas a nível da escola e o trabalho de consciencialização política realizada junto dos alunos causaram-lhe incompatibilidades com a Direcção do Liceu, que teriam chegado ao conhecimento da PIDE (Polícia Internacional da Defesa do Estado (sic)) . Assim, em 1960, a professora Maria Luísa Blanqui decidiu deixar o País (sic) e, a partir do mesmo ano passou a trabalhar na Universidade de Genebra, Suíça".

Mas permaneceu sempre em contacto com Cabo Verde. Desde 1975, Luísa Blanqui visitava Cabo Verde de cinco em cinco anos por altura das celebrações da Independência Nacional. Mas por razões de saúde, a sua última visita aconteceu em 1990. "Hoje, Luísa Blanqui é referenciada pelos seus ex-alunos como uma professora exemplar, cujos ensinamentos e atitude educadora tiveram um impacto fundamental no desenvolvimento de valores éticos e de cidadania que os têm acompanhado na sua trajectória de vida pessoal e profissional".

Para reconhecer o seu trabalho prestado como docente, em 2015, por ocasião do 40º. aniversário da Independência de Cabo Verde, foi homenageada por iniciativa do Presidente da República de Cabo Verde, Jorge Carlos de Almeida Fonseca com a Medalha de Mérito por serviços prestados no domínio da educação em Cabo Verde.

In o jornal online cabo-verdiano, A Semana, de 15 de Julho de 2018. 

 

    

     Podeis enganar toda a gente durante um certo tempo; podeis mesmo enganar algumas pessoas todo o tempo; mas não vos será possível enganar sempre toda a gente.

    Abraham Lincoln (1809/1865). CItado pelo jornal PÚBLICO, na sua edição de 18/09/2018. 

 

 

A VERDADEIRA HISTÓRIA DE MARIA LUÍSA BLANQUI

 

(SEGREDO(S) DE UM CORAÇÃO CULPADO) 

 

       Não, não vamos começar esta história pelo princípio. Nem vamos começar esta história pelo fim. Vamos começar esta história pelo meio. Sim, pelo meio. Esta história tem início em Outubro de 1958. Foi quando Maria Luísa Blanqui, vinda de Lisboa, desembarcou (sim, literalmente, desembarcou, uma vez que as viagens aéreas regulares para Cabo Verde ainda não existiam) na sua terra natal, a sonolenta e pacata cidade da Praia, capital da então colónia portuguesa de Cabo Verde. Quem viu o magnífico filme francês (na verdade, franco-italiano), O Salário do Medo, de 1953, da autoria de Henri-Georges Clouzot, e, com mais precisão, se lembra do seu prelúdio, passado numa aldeola empobrecida, situada algures na América do Sul, pode ficar com uma representação clara e exacta do que era a cidade da Praia, nos anos cinquenta de século passado. Nessa vilória da película e também na cidade da Praia, todos pareciam estar à espera de Godot. O que se segue é a transcrição de um excerto do diálogo (beckettiano) entre Mario (Yves Montand) e Jo (Charles Vanel), dois dos protagonistas do filme:

Mario: Aqui não há um único que tenha emprego! Há esquemas, e, de vez em quando, lá nos safamos. E é tudo.

Jo: Porque é que não se vão embora?

Mario: Vontade não falta. Não há grades, há muito espaço. Isso é que mata. É demasiado grande. Para se sair daqui é difícil.

Jo: Então e o comboio?

Mario: Não há caminho-de-ferro.

Jo: E a estrada?

Mario: Só vai até ao poço de petróleo.

Jo: E o avião?

Mario: Já viste as tarifas? Caracas é perto de mais. Estamos perdidos neste canto. É tudo para cima de 200 ou 300. Tens esse dinheiro?

Jo: Não.

Mario: Eu também não. E o visto? É preciso visto.

Jo: Isso arranja-se.

Mario: Sim, mas um verdadeiro.

Jo: Também se arranja.

Mario: Só é preciso dinheiro. E para o teres precisas de um emprego. E emprego é coisa que não há. Começaram este prédio há dois anos e depois pararam.

Jo: Com este sol, compreende-se.

Mario: isto é como a prisão. Para entrar é só facilidades. Mas para sair, é o sais! E se não sais daqui, morres.

Jo: Pois eu não  pretendo morrer.

Mario: Ninguém quer.   

 

     Voltando à chegada de Maria Luísa à cidade da Praia, importa salientar que ela levava pela mão a filha única de quinze anos, que, tal como a mãe, também dava pelo nome de Maria Luísa, mas tratada familiarmente por Lisita. O que ia fazer Maria Luísa, uma mulher madura de 37 anos de idade, e acompanhada de uma descendente menor, a Cabo Verde em 1958? Em princípio ia trabalhar como professora (de Português e Francês) na recém-inaugurada secção do LIceu Gil Eanes da Praia. (Secção, porque a sede do mesmo estabelecimento de ensino estava no MIndelo, a segunda cidade da Colónia, na ilha de São Vicente, mas isto é um pormenor irrelevante.) Maria Luísa ia partir da estaca zero, numa idade em que ninguém inicia uma carreira. Numa idade em que já se começa a pensar na reforma. Numa idade em que se está a meio da ponte e é quase impossível regressar ao ponto de partida. Numa idade em que, em suma, já se começa a fazer o balanço de uma vida. E ela, há que dizê-lo sem rebuços, tinha já muito para balançar, (como adiante se verá), pois vivera mais de vinte anos em Lisboa.

     O lugar de professora, que a esperava, não lhe oferecia um salário muito tentador. Era um ordenado aceitável tendo em conta o baixo nível de vida da cidade e a modesta média salarial da colónia. O que de certo modo podia compor o orçamento mensal de Maria Luísa, e isso deve ter influído bastante na decisão de ir trabalhar em Cabo Verde, era o seguinte factor: nâo teria qualquer encargo com a habitação (e talvez nem com a alimentação e outras mordomias) visto que ela e a filha iriam aboletar-se em casa da irmã Maria da Luz (também conhecida por Lina). A casa (a bem dizer, uma vivenda), além de espaçosa, era quase nova e de boa qualidade, e fora atribuída, pouco tempo antes, ao cunhado e conterrâneo, Casimiro Antunes da Rosa, pelo facto de este ser, à época, Conservador do Registo Civil, de nomeação, e de Juiz de Direito substituto, em funções. A dita moradia estava (e ainda está) localizada num bairro chique da cidade, acabado de construir pelo Estado, e popularmente designado de Bairro Azul. (Mais à frente voltaremos a este assunto relacionado com o alojamento de Maria Luísa e filha).

     Logo que a presença de Maria Luísa, na cidade da Praia, foi conhecida, as notícias acerca dela correram céleres e vertiginosas. Passou-se a saber, no imediato, inter alia, que  ela vinha de Lisboa e que, além de licenciada em Filologia Românica, era viúva de um italiano e daí o seu apelido Blanqui. Apelido dela e o da filha. A recepção de Maria Luísa na cidade não podia ser melhor. Todos falavam dela. Todos queriam ser-lhe apresentados. Todos queriam convidá-la para folguedos e festejos. Todos a elogiavam por uma razão ou por outra. A entrada de Maria Luísa na cidade da Praia foi triunfal. Foi uma entrada à Júlio César: veni, vidi, vici. E depois da sua chegada à cidade da Praia, ocorreu às entidades oficiais que a até então doméstica, anónima e apagada irmã, Maria da Luz, também podia ser professora liceal de qualquer coisa como, por exemplo, de canto coral.  E assim aconteceu. Não há dúvida: as duas irmãs estavam na moda.

       Mas, de repente e menos de dois anos depois, Maria Luísa foi-se embora. Nem chegou sequer a completar o segundo ano lectivo (1959/1960) da sua curta e meteórica carreira académica na capital de Cabo Verde. E, no entanto, tudo parecia correr de feição a Maria Luísa. As suas aulas e os seus contactos sociais eram apreciados da melhor maneira por toda a gente e em especial pelos alunos. Estes só viam virtudes nessa mulher. Virtudes de ordem pessoal, pedagógica, intelectual, cultural e política. Ela até teve tempo e disponibilidade para organizar uma (única) sessão de teatro com a participação no elenco (chamemos-lhe assim) de parte dos seus pupilos, e tudo isso ficou na memória dos jovens que a tiveram como professora.  

     E foi este doce e idílico retrato de Maria Luísa que passou para o imaginário de muitos cabo-verdianos, e que ainda hoje ressoa na notícia atrás transcrita do jornal online A Semana.  

     Contudo, retrato apressado, errado e destituído de qualquer fundamento. Porquê? Vejamos, e começando pela alegada condição de viúva de um italiano. Uma falsidade. Maria Luísa era com efeito viúva, mas não de um italiano. Ela era viúva de um português. Sim, de um português, de seu nome Luís Augusto da Silva Blanqui Teixeira. Repetimos: Luís Augusto da Silva Blanqui Teixeira. Conforme reza a certidão do Registo de Casamento (nº. 157, livro nº. 90, da Segunda Conservatória de Lisboa) Luís Augusto e Maria Luísa consorciaram-se em 28 de Fevereiro de 1943. Ele era um humilde funcionário público, de 23 anos de idade, e ela, estudante de 21 anos. O casamento civil foi celebrado na residência de Maria Luísa, sita na Rua Carvalho Araújo, nº. 210, primeiro andar, lado direito, em Lisboa, mais exactamente no popular Bairro de Arroios, à Praça do Chile. Há que precisar que esta casa foi arrendada pelos pais de Maria Luísa quando, dez anos atrás, vieram de Cabo Verde fixar residência na capital portuguesa. Nela moravam, à data do casamento, além da mãe (o pai já tinha falecido) e Maria Luísa, também a irmã Maria da Luz e o marido Casimiro Antunes da Rosa, futuro Conservador e Juiz substituto da Comarca da Praia, em Cabo Verde, ao qual já fizemos referência. O nome que ela passou a usar, depois do matrimónio, foi o de Maria Luísa Tavares e Sousa Blanqui Teixeira. Sim, Blanqui Teixeira. Mas isto só sucedeu até à sua chegada à cidade da Praia. A partir daqui, e para encenar com toda a conveniência a sua qualidade de suposta viúva de um italiano, ela omitiu deliberadamente o último apelido, Teixeira, ficando apenas com Blanqui, no fim do seu nome.

     Convirá dizer ainda mais qualquer coisa acerca do marido, Luís Augusto da Silva Blanqui Teixeira. Este morreu precocemente, em 5 de Maio de 1944, aos 24 anos de idade, de tuberculose pulmonar (é o que diz a certidão de óbito), um ano e três meses depois do casamento, e seis meses após o nascimento da filha Maria Luísa (mais tarde tratada em família por Lisita). De notar que aquando do falecimento de Luís Augusto, o casal tinha mudado de residência. A morada dos dois cônjuges, constante da certidão de óbito (Registo nº. 628, 05/05/1944, livro 105, da Segunda Conservatória de Lisboa), era agora a da família do mesmo Luís Augusto e onde este residira até ao casamento, ou seja, Avenida Almirante Reis, nº. 217, rés-do-chão, em Lisboa, sendo certo que, seis meses antes, isto é, na data do nascimento de Lisita ,(15 de Novembro de 1943), a filha de ambos, o domicílio do casal localizava-se no já referido endereço da Rua Carvalho Araújo, nº. 210, primeiro andar, lado direito, em Lisboa (Assento de Nascimento nº. 2550-M/1943, lavrado em 23/11/1943, na 8ª. Conservatória de Lisboa, e informatizada em 21/01/2016). 

     Mas acerca de Luís Augusto ainda não dissemos tudo. Falta conhecer o elemento talvez mais importante. Luís Augusto era irmão do futuro funcionário e dirigente do Partido Comunista Português (PCP), Fernando Augusto da Silva Blanqui Teixeira (1922/2004). A adesão deste ao PCP iria ocorrer em 1944 e, pouco tempo depois, entrava na clandestinidade e, mais tarde, iria parar algumas vezes às prisões fascistas portuguesas. Ora na ocasião da chegada de Maria Luísa à cidade da Praia, Fernando Blanqui Teixeira era um alto quadro do PCP e estava detido no forte de Caxias. Para além de Maria Luísa dizer que era viúva de um português não ilustrar muito bem as suas pretensões nacionalistas cabo-verdianas, pretensões embora vagas e não isentas de contradições várias, ser viúva de um italiano era mais romântico e também dava mais classe. Dava mais estilo. Daí a alteração (por omissão) do seu nome. Ela eliminou o Teixeira, e passou a ser, para todos os efeitos, Maria Luísa Blanqui.  

     A deturpação da sua identidade foi o primeiro equívoco de Maria Luísa Tavares e Sousa Blanqui Teixeira, depois da sua chegada a Cabo Verde. Outros equívocos se seguiriam, e, desde logo, as suas proclamadas qualidades pessoais, pedagógicas, intelectuais, culturais e políticas. Nada disto é verdade. Ponto final, parágrafo.

     Maria Luísa Tavares e Sousa Blanqui Teixeira era uma professora vulgar, indistinta e, como tal, situada ao nível dos restantes professores do liceu da Praia. Nem mais nem menos. A única coisa que ela fazia de forma diferente dos demais docentes era festejar com cantigas os aniversários dos seus discípulos. Sim, isso mesmo: festejar com cantigas os aniversários dos seus discípulo. E como esses festejos ocupavam o tempo todo das aulas, muitos alunos inventavam aniversários para que não houvesse...aulas.

       E em termos de formação e experiência pedagógicas, ela vinha em branco. Apenas trazia o canudo da formação universitária, em Filologia Românica, concluída sete anos antes, aos trinta anos de idade, e estranhamente na Universidade de Coimbra, quando ela residia desde sempre na cidade de Lisboa. Ao contrário do que assevera o comunicado da Fundação Amílcar Cabral, atrás mencionado, nem ela continuou a sua formação em instituições estrangeiras (além do mais, não tinha dinheiro para isso) nem ela leccionou em Portugal em vários colégios. Dadas as suas ligações, ainda que por afinidade, exibidas nos seus dois últimos apelidos, a um importante dirigente do PCP, Maria Luísa estava impedida de leccionar na antiga metrópole, quer no ensino público quer no ensino privado. Isto era aliás o que acontecia aos candidatos a professores que de uma forma ou de outra não estavam de acordo com a situação política então vigente, ou mesmo que só aparentassem (como era o caso de Maria Luísa) não estar alinhados com o mesmo regime político. Para Oliveira Salazar, e os seus sequazes, em política, o que parecia era. Para Maria Luísa só havia uma excepção: leccionar em Cabo Verde, se ela assim o quisesse. E esta foi uma das razões por que ela foi ensinar para Cabo Verde, onde chegou aos caídos. Não lhe restava nenhuma alternativa no espaço português.

   Quanto às suas alegadas qualidades intelectuais e culturais, Maria Luísa era simplesmente um logro. Ela foi ao longo da sua longa vida uma mulher sobrevalorizada, em particular em Cabo Verde. Criaram dela uma imagem que estava longe da realidade. E a realidade era a de uma mulher que nada tinha de especial. E a realidade era a de uma mulher banal, de cultura geral mediana e superficial. Não se lhe conhece uma teoria, uma linha de pensamento, uma ideia, uma frase. Nada. Zero. Maria Luísa era um deserto em matéria de cariz intelectual e cultural. Enquanto seu aluno e conhecido, não a ouvi citar um único grande romancista, português ou estrangeiro. Um poeta. Um filósofo, clássico ou moderno. Um pintor. Um músico. Um cineasta. Na casa, onde ela e a filha se alojavam, que visitei duas ou três vezes, não vi sequer um livro, muito menos os canónicos, um desses escolhidos por Somerset Maugham ou pela ITV, atrás falados.

     E o teatro que ela organizou? Mais um embuste. O que ela fez nada tinha a ver com o teatro sério ou o também chamado teatro declamado. Não, não era Gil Vicente (e um dos seus autos), ou Almeida Garrett (e o seu Frei Luís de Sousa) ou mesmo Júlio Dantas (e a sua Ceia dos Cardeais). Não. Nada disso. Ou, ainda menos, dramaturgos  estrangeiros como, por exemplo, Nikolai Gogol (e a sua peça O Inspector-Geral), ou Henrik Ibsen (e a sua peça Quando Nós, Os Mortos, Acordamos), ou Oscar Wilde (e a sua peça A Importância de Se Chamar Ernesto), ou Luigi Pirandello ( e a sua peça Seis Personagens à Procura de Um Autor).  O teatro que Maria Luísa encenou era o teatro fácil e ligeiro, que ela tinha frequentado, e que estava muito em voga nos palcos portugueses (leia-se: nos palcos lisboetas) nas décadas de quarenta e cinquenta do século passado. O teatro que Maria Luísa encenou era uma imitação barata do apelidado teatro de variedades, do teatro de revista à portuguesa. Ou, se se quiser, do teatro de boulevard. Com todos os seus ingredientes: cantorias, alguma rábula, anedotas, pequenas danças e imitações, no caso, de professores do liceu onde ela ensinava. Chamaram-lhe teatro porque o que ela apresentou tinha lugar num palco e porque o seu público era constituído por uns refinados ignorantes e, por conseguinte, tratava-se de um público que nada sabia de teatro, em geral, e das suas derivações bastardas, em particular. E também porque era grande a boa vontade para com Maria Luísa. Só isso.

      No que toca à sua actividade política, muito louvada na notícia do jornal online A Semana, é também uma grande treta. Maria Luísa não teve qualquer actividade política. Nem discretamente nem ostensivamente. Nem em Lisboa (a sua situação de viúva e mãe desempregada não lhe dava tempo e disposição para se preocupar com a política) nem em Cabo Verde. É rídiculo dizer que As medidas inovadoras introduzidas (por Maria Luísa, entenda-se) a nível da escola e o trabalho de consciencialização política realizada (sic) junto dos alunos causaram-lhe incompatibilidades com a Direcção do Liceu, que teriam chegado ao conhecimento da PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado). Assim, em 1960, a professora Maria Luísa Blanqui (sic) decidiu deixar o País (sic) e, a partir do mesmo ano, passou a trabalhar na Universidade de Genebra, na Suíça.  

      Esta passagem do obituário do jornal online A Semana tem muito que se lhe diga. Refira-se, desde já, que Maria Luísa e a PIDE não se cruzaram em Cabo Verde. Quando esta política arribou a Cabo Verde em 1961, já Maria Luísa não se encontrava na colónia. Por isso é um absurdo afirmar que a PIDE teria tomado  conhecimento das incompatibilidades de Maria Luísa com a Direcção do Liceu. Por outro lado, e repetindo o que já dissemos acerca dela, Maria Luísa era uma mulher vulgar, quer como pessoa, quer como professora. Nada fez ou afirmou que a distinguisse dos outros professores. Não houve da parte dela qualquer trabalho de consciencialização política junto dos seus alunos, e se ela teve algum problema com a Direcção do Liceu terá sido por razões puramente disciplinares (as tais cantigas a propósito dos aniversários dos seus alunos) e não por razões políticas. E, de resto, pergunta-se: o que é isso das incompatibilidades com a Direcção do Liceu que teriam chegado ao conhecimento da PIDE? Com que resultados de natureza política? Com que medidas tomadas contra ela? Sim, estamos a falar de uma Polícia de matriz essencialmente política e repressiva, e que, perante as actividades subversivas (como então se dizia) dos princípios políticos que norteavam o Estado Novo, ou prendia sem culpa formada, ou desterrava, ou ainda mandava para o desemprego. Nada disto aconteceu a Maria Luísa Blanqui Teixeira, em Cabo Verde. Ela trabalhou livremente na colónia, e de lá saiu livremente e quando entendeu que era altura de o fazer. Saiu, não por motivações políticas, mas por meras razões de ordem económica e prática. Os factores que terão pesado seriamente na decisão de Maria Luísa abandonar a então colónia portuguesa de Cabo Verde terão sido, não os mais românticos (como ela e os seus admiradores gostariam que tivessem sido), mas os mais prosaicos possíveis. E quais foram tais factores? Em primeiro lugar, o futuro da filha, seja do ponto de vista pessoal, seja do ponto de vista académico, e seja ainda do ponto de vista profissional. Na Suiça, Lisita não estudou muito mas não só fez, em 29 de Junho de 1964, um casamento (com um suíço) que provavelmente não faria em Cabo Verde, como também, juntando-se à mãe, abraçou até hoje a profisssão de tradutora oficial ou juramentada.

       Em segundo lugar, a irmã Maria da Luz e o marido partiriam em breve de Cabo Verde para Angola (onde Casimiro Antunes da Rosa iria dar continuidade ao seu percurso de quadro superior ao serviço do colonialismo português), pelo que Maria Luísa deixaria de poder contar com alojamento (e talvez alimentação e outras mordomias) a custo zero, passando a depender apenas e só do seu relativamente magro vencimento de professora liceal.

     Nada das situações descritas, que afectavam Maria Luísa, aconselhava a sua permanência em Cabo Verde e, como se vê, tratava-se de situações que se podem colocar a qualquer candidato à emigração por razões de sobrevivência. Sim, o que Maria Luísa fez foi rigorosamente emigrar para a Suíça à imagem e semelhança do que já faziam os seus conterrâneos, embora em grande medida para outros destinos. Em resumo: Maria Luísa não se exilou nem foi forçada a exilar-se. Emigrou para a Suiça, em busca de melhores condições de vida para si e para a sua filha.

    De regresso ao comunicado da Fundação Amílcar Cabral, que o jornal online A Semana transcreveu, em jeito de oração fúnebre, é curioso constatar que ainda hoje Maria Luísa é idolatrada pelos seus patrícios, sendo tratada nessa peça jornalística recorrentemente por Maria Luísa Tavares e Sousa Blanqui (sem Teixeira) quando os próprios familiares já tinham desisitido dessa farça identitária. De facto, a propósito do falecimento de Maria Luísa, em 8 de Julho último, quase a completar os noventa e sete anos de idade, o jornal suíço Tribune de Geneve, de 10 de Julho de 2018, em notícia paga, publicou o Avis de décès respeitante a Madame Maria-Luísa Tavares e Sousa Blanqui Teixeira (sic). É motivo para dizer que os cabo-verdianos são neste caso mais papistas que o papa, perdão, corrijo: mais papistas que a papisa, Lisita, a filha de Maria Luísa, a qual, por sua vez, também passou a usar os apelidos completos, incluindo por conseguinte o Teixeira a seguir ao Blanqui.  

     Vamos terminar com mais umas considerações acerca da admiração sem reserva e, como atrás ficou demonstrado, também sem fundamento que os cabo-verdianos (a nível particular e, de igual modo, no plano oficial) tiveram e ainda têm por Maria Luísa Tavares e Sousa Blanqui Teixeira. Em 1990, numa das raras visitas que Maria Luísa fez a Cabo Verde, ela foi homenageada por uma dúzia de patetas, antigos alunos seus (de ambos os sexos), com um almoço num conhecido restaurante perto da capital. Entre esses patetas estava um poeta (uma espécie de celebridade local), o qual ficou desvanecido por Maria Luísa lhe ter dito que, enquanto vários dos seus colegas faziam muito dinheiro na vida profissional, ele (o poeta) ganhava pouco dinheiro mas, em compensação, produzia Arte. O mesmo poeta ainda hoje conta essa história, com alguma nostalgia, sempre que se lhe oferece uma oportunidade ou, às vezes, ainda que a despropósito. O narcisista, e também o cabotino, têm razões que a razão desconhece.

          Em 5 de Julho de 2015, repetimos, em 5 de Julho de 2015, um outro pateta, o presidente da República de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, condecorou Maria Luísa com a medalha de mérito (de segunda classe) por serviços prestados no domínio da educação em Cabo Verde, tratando-a por Maria Luísa Tavares e Sousa Blanqui (sem Teixeira). Mais comentários, para quê?                                

                            

              

       

 

                     

          ,

 

 

 

 

 

 

 

    

 

 

publicado por flagrantedeleite às 10:23
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