Segunda-feira, 1 de Outubro de 2018

CADERNOS DO SUBTERRÂNEO (5)

O PRÉMIO CAMÕES 2018

 

(DOZE AUTORES EM FÚRIA)

 

        Lídia Jorge, Mário Cláudio, Vasco Pulido Valente, Clara Ferreira Alves, João de Melo, Miguel Sousa Tavares, Maria Teresa Horta, Mário de Carvalho, Inês Pedrosa, Gonçalo M. Tavares, Walter Hugo Mãe e Pedro Mexia, entre outros, ainda não foram contemplados com o Prémio Camões. Distinguir, com o mesmo galardão, Germano Almeida, um contador de anedotas crioulas, que fala e escreve mal o idioma luso, ignorando qualquer um dos referidos doze grandes autores portugueses, é uma injustiça de bradar aos céus. E o resto são mornas, coladeiras e funanás.

 

 

QUE DEVO OU NÃO DEVO LER?

      Hoje mais do que nunca, a sobrepopulação de livros (e de autores), provocada pela extensão e complexidade dos registos da história do mundo, está no centro dos dilemas canónicos. "Que devo eu ler" já não é a pergunta certa, uma vez que tão poucos lêem hoje em dia, na era da televisão e do cinema. A pergunta prática veio a ser esta: "Que não devo eu dar-me ao trabalho de ler?" 

     Harold Bloom, in O CÂNONE OCIDENTAL , pgs. 511, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 1ª. edição, Fev. de 2011, tradução, introdução e notas de Manuel Frias Martins.

 

 

TEN NOVELS AND THEIR AUTHORS   

       Corria o ano de 1945 quando W. Somerset Maugham (1874/1965) publicou na revista norte-americana REDBOOK uma lista do que ele considerava ser os dez melhores romances do mundo. Com o título TEN NOVELS AND THEIR AUTHORS, a mesma lista foi publicada em forma de livro, em 1954, pela WILLIAM HEINEMANN LTD e, mais tarde, em 1963, pela Mercury Books, mas já acompanhada de estudos sobre cada um dos escritores seleccionados e, bem assim, acerca dos romances por ele escolhidos, além de uma extensa e bem documentada introdução, intitulada The Art of Fiction. Uma vez que a citada obra do autor de Servidão Humana não está traduzida em Portugal, o que se lamenta, o livro de que nos servimos para esta divulgação é a edição da Mercury Books (London), de 1963. Vejamos pois a lista de Somerset Maugham dos seus dez melhores romances do mundo: 

 

1 Henry Fielding e Tom Jones 

2 Jane Austen e Orgulho e Preconceito

3 Stendhal e O Vermelho e o Negro  

4 Honoré de Balzac e O Pai Goriot

5 Charles Dickens e David Copperfield

6 Gustave Flaubert e Madame Bovary

7 Herman Melville e Moby Dick

8 Emily Brontë e O Monte dos Vendavais

9 Fiodor Dostoievski e Os Irmãos Karamazov

10 Leon Tolstoi e Guerra e Paz

 

 

TEN GREAT WRITERS OF THE MODERN WORLD

 

    Em 1988, a Independent Television (ITV) produziu e exibiu um documentário, em dez episódios, intitulado TEN GREAT WRITERS OF THE MODERN WORLD. Segue-se a transcrição dessa lista, indicando a obra, ou as obras, representativas de cada autor estudado na mesma mini-série do referido canal inglês:

 

1 James Joyce (Ulisses)

2 Joseph Conrad (O Agente Secreto)

3 Fiodor Dostoievski (Crime e Castigo)

4 Marcel Proust (Em Busca do Tempo Perdido)

5 Thomas Mann (A Montanha Mágica)

6 Henrik Ibsen (Hedda Gabler, Casa de Bonecas, Espectros, etc.)

7 Virginia Woolf (Mrs. Dolloway)

8 Luigi Pirandello (Seis Personagens à Procura de Um Autor, O Falecido Matias Pascal, etc.)

9 T. S. Eliot (Terra Devastada)

10 Franz Kafka (O Processo)  

 

 

DUAS CARTAS DE JAMES JOYCE (1882-1941) A NORA BARNACLE

 

29 de Agosto de 1904

60 Shelbourn Road

 

      Minha querida Nora,

     Terminei agora mesmo a minha refeição da meia-noite, que comi sem apetite nenhum. Quando ia meio, descobri que estava a comer com as mãos. Sinto-me tão mal como ontem. Estou muito angustiado. Desculpa esta pena horrenda e o papel medonho.

     Talvez te tenha afligido ontem, com as coisas que disse, mas julgo que será preferível saberes o que eu penso, não? O meu espírito rejeita o cristianismo e toda a ordem social presente - o lar conjugal, as virtudes instituídas, as classes sociais e as doutrinas religiosas. Como é que a ideia de lar me podia atrair? O meu lar foi simplesmente uma coisa de classe média, arruinada por costumes esbanjadores, que eu próprio herdei. Penso que a minha mãe foi destruída lentamente pelos maus tratos do meu pai, por anos e anos de dificuldades, e pela cínica franqueza da minha conduta. Quando a vi deitada no caixão, com o rosto acinzentado e consumido pelo cancro, compreendi que estava a olhar para a cara de uma vítima e amaldiçoei o sistema que a transformou em vítima. Éramos dezassete na família. Os meus irmãos e irmãs não representam nada para mim. Só um dos meus irmãos é capaz de me compreender.

      Há seis anos abandonei, com um ódio fervoroso, a Igreja Católica. Percebi que me era impossível permanecer no seu seio, devido aos impulsos da minha natureza. Quando era estudante, movi contra ela uma guerra secreta e recusei as posições que me oferecia. Ao fazer isto, tornei-me um mendigo, mas conservei o meu orgulho. Actualmente, faço-lhe uma guerra aberta com as coisas que escrevo, digo e faço. Na ordem social, só posso ingressar como vagabundo. Iniciei por três vezes estudos de medicina, uma de direito, e outra de música. Na semana passada fiz planos para partir numa digressão como actor ambulante. Se não consegui pôr grande energia nesse projecto, foi porque tu me puxavas na direcção contrária. Neste momento passo por dificuldades incríveis, mas desprezo-as.

    Quando nos despedimos, hoje à noite, fui passear para Grafton Street, onde fiquei muito tempo encostado a um candeeiro, a fumar. A rua estuava de vida, uma vida à qual dediquei parte da minha juventude. Enquanto ali estava, lembrei-me dumas frases que escrevi há alguns anos, quando vivi em Paris. As frases são estas: "Passam aos pares ou em grupos de três pela animação da avenida, passeando como quem dispõe de ócios, num lugar iluminado para elas. Conversam nas confeitarias, enquanto trituram pequenos pastéis, ou sentam-se em silêncio nas esplanadas dos cafés, ou descem de carruagens num frufru de vestidos tão suave como a voz do adúltero. Passam num aroma de perfumes. Sob os perfumes, os seus corpos têm um odor húmido e quente."

     Enquanto repetia estas frases para mim mesmo, eu sentia que aquela vida estava ainda à minha espera, se eu a desejasse. Decerto já não me poderia proporcionar a embriaguez de outros tempos, mas continuava ali , e agora que sou mais sensato e disciplinado, tonava-se inofensiva. Não me faria perguntas, não esperaria de mim senão alguns momentos, deixando livre o resto, e prometendo-me em troca alguns prazeres. Depois de reflectir sobre isto, recusei-a sem pena. Era inútil para mim, essa vida; não me poderia dar o que eu desejava.

      Parece-me que compreendeste mal certas passagens de uma carta que te escrevi, e senti uma certa reserva na tua atitude, como se a recordação dessa noite te perturbasse. No entanto, eu considero-a uma espécie de sacramento, e a sua recordação enche-me de uma alegria tingida de assombroso. Talvez não compreendas imediatamente porque é que te respeito tanto por causa dessa noite, mas isso é porque não me conheces bem. Ao mesmo tempo, foi um sacramento que deixou em mim um travo de pena e desapreço -- pena porque vi em ti uma extraordinária ternura melancólica que aceitou esse sacramento como um compromisso, e desapreço porque percebi que aos teus olhos eu não cumpria certas convenções da sociedade actual.

       Hoje exprimi-me em termos satíricos, mas estava a falar do mundo, não de ti. Eu sou um inimigo da baixeza e do servilismo das pessoas, não de ti. Não vês a simplicidade que existe por trás de todos os meus disfarces? Todos nós usamos máscaras. Certas pessoas que nos têm visto juntos insultam-me amiúde com o que dizem de ti. Eu ouço-as calmamente, sem me dar ao trabalho de lhes responder, mas as palavras delas sacodem-me o coração como um pássaro na tempestade.

        Não me agrada ir agora deitar-me com a recordação do teu último olhar -- um olhar de cansaço e indiferença -- e a pungente recordação da tua voz no outro dia. Nunca um ser humano esteve tão próximo da minha alma como tu, aparentemente, estás. E no entanto és capaz de encarar as minhas palavras com uma rudeza dolorosa ("O que tu queres sei eu", disseste). Quando era mais novo tive um amigo a quem me entreguei inteiramente, em certo sentido mais do que a ti, noutros sentidos menos. Era irlandês, o mesmo é dizer, atraiçoou-me.

       Não disse um quarto do que te queria dizer, mas é difícil escrever com esta maldita pena. Não sei o que irás pensar desta carta. Por favor,  escreve-me, sim? Acredita, minha querida, que te respeito muito, mas quero mais do que as tuas carícias. Deixaste-me de novo numa dúvida angustiante.

JAJ

 

 

27 de Outubro de 1909

44 Fontenoy Street, Dublin

 

MInha querida,

       Hoje a velha febre do amor começou a despertar de novo em mim. Sou um arremedo de homem: deixei a alma em Trieste. Só tu me conheces e amas. Fui ao teatro com o meu pai e a minha rmã -- uma porcaria de peça, um público asqueroso. Sinto-me (como sempre) estrangeiro no meu país. Se ao menos estivesses ao teu (sic) lado, eu podia ter-te sussurrado ao ouvido todo o ódio e escárnio que me ardiam no coração. Talvez me repreendesses, mas também me terias compreendido. Orgulha-me pensar que o meu filho -- o nosso filho, o querido e adorável menino que me deste, Nora -- será sempre um estranho na Irlanda, um homem educado noutra língua e tradição.

      Detesto a Irlanda e os irlandeses. Eles próprios ficam a olhar para mim na rua, apesar de eu ter nascido entre eles. Talvez leiam nos meus olhos o desprezo que sinto. Por toda a parte, não vejo senão a imagem do padre adúltero e os seus servos, e de mulheres pérfidas e manhosas. Não me faz bem vir aqui ou estar aqui. Talvez se estivesses comigo me custasse menos. Mas às vezes, quando me vem à lembrança aquele horrível episódio da tua adolescência, passa-me pela cabeça que tu também estás secretamente contra mim. Uns dias antes de sair de Trieste, eu estava a passear contigo na Via Stadion (foi no dia em que comprámos o jarro para a compota), um padre passou por nós e eu perguntei-te: "Não sentes uma espécie de repulsa ou de nojo ao ver um homem destes?" E tu respondeste secamente: "Não, não sinto." Como vês, guardo na memória estas coisinhas todas. A tua resposta magoou-me e eu não disse mais nada. Essa e outras semelhantes ficam-me na memória durante muito tempo. Apoias-me, Nora, ou estás secretamente contra mim?

     Eu sou um homem ciumento, solitário, insatisfeito, orgulhoso. Porque é que não és mais paciente e mais gentil comigo? Na noite em que fomos ver Madame Butterfly, tu trataste-me de forma mais grosseira. Eu só desejava ouvir aquela bela e delicada música na tua companhia. Queria sentir a tua alma a suspirar languidamente, como a minha, quando ela canta, no segunda acto, a área da sua esperança "Un bel di" : "Um belo dia, um belo dia, veremos uma espiral de fumo erguer-se ao longe no mar, e então o barco dele aparecerá". Estou um pouco decepcionado contigo. Depois, noutra noite, fui ter contigo à cama, vindo do café, e comecei a falar-te de tudo o que esperava fazer e escrever no futuro, e daquelas desmesuradas ambições que verdadeiramente são a força condutora da minha vida. Mas tu não quiseste ouvir-me. Eu sei que era muito tarde e que estavas cansada. Mas um homem cujo cérebro arde de esperança e confiança em si próprio precisa de dizer a alguém o que sente. E a quem o hei-de eu dizer senão a ti?

      Eu amo-te profunda e verdadeiramente, Nora. Hoje sinto que sou digno de ti. Não há uma partícula do meu amor que não te pertença. Apesar de estas coisas me disporem contra ti, eu vejo-te sempre no teu melhor. Se me deixasses, falar-te-ia de tudo o que tenho na mente, mas às vezes imagino, pelo teu olhar, que só te iria aborrecer. Seja como for, amo-te, Nora. Não posso viver sem ti. Gostava de te transmitir tudo o que tenho, tudo o que sei (embora seja pouco), todas as emoções que sinto ou senti, todos os meus gostos ou antipatias, todas as minhas esperanças ou remorsos. Gostava de atravessar a vida a teu lado, contando-te cada vez mais coisas, até que fôssemos um só, até chegar a hora da nossa morte. Mesmo agora, enquanto te escrevo estas palavras, sobem-me as lágrimas aos olhos e sufocam-me os soluços. Nora, nós não temos mais do que uma breve vida para amarmos. Oh, querida, sê um pouco mais gentil comigo, tem um pouco mais de paciência, mesmo que eu te pareça pouco atencioso e insuportável, e acredita que seremos muito felizes juntos. Deixa-me amar-te à minha maneira. Faz com que o teu coração esteja sempre perto do meu, para que eu possa escutar cada pulsação da minha vida, cada dor, cada alegria.

      Lembras-te duma noite em que, depois de termos ido ouvir Werther, estávamos deitados na cama, com o eco daquela música tão triste e fúnebre a ressoar ainda dentro de nós? Eu tentei recitar-te uma canção de que gosto muito, chamada "Connacht Love Song", que começa assim:

Estou tão longe, mas tão longe,

De onde estás, em Connemara.

 Lembras-te de que não consegui terminar estes versos? A profunda emoção que a minha voz traía ao recitá-los, decorrente da terna veneração que sinto por ti, foi de mais para mim. O meu amor por ti é de facto uma espécie de adoração.

    Ora, querida, eu quero que sejamos felizes. Tenta melhorar a tua saúde na minha ausência e por favor obedece às pequenas coisas que te peço. Primeiro, que comas tanto quanto possível, para que pareças mais uma mulher, e não a adorável rapariga magrinha e de ar desajeitado que actualmente pareces. Se o cacau tiver acabado, diz ao Stannie para encomendar mais; custa 5 xelins e 6 dinheiros. Entretanto, toma do outro cacau, e chocolate. Paga parte da conta da modista. Hoje enviei-te umas amostras de tecido, para tu escolheres. No sábado enviei-te sete ou oito metros de tweed  para mandares fazer um vestido novo. Tenho andado a apreçar um conjunto de peles para ti, e se os meus negócios por cá correrem bem, vou cobrir-te de peles e vestidos e capotes de todos os tipos. Tenho em mente algumas peles muito bonitas para te oferecer.

    Escreve-me agora, querida, e diz-me que estás a fazer o que te peço. Diz-me que és feliz por veres que eu te amo e te sou fiel e penso em ti. Sou-te fiel, Nora, e penso em ti o dia todo.

     Boa noite, querida. Alegra-te durante esta nossa curta separação, e sempre que pensares em mim, dá por mim um beijo ao Georgie.

     Addio, mia cara Nora!    

 

In James Joyce, Cartas a Nora, edição da Relógio d'Água, Outubro de 2012, e com tradução de José Miguel Silva, a partir de Selected Letters of James Joyce (1975), edição de Richard Ellmann (Faber and Faber).          

 

 

 

Morre professora e activista política Maria Luísa Tavares Sousa e Blanqui

 

   Faleceu esta quinta-feira, 12, (sic) em Genebra, Suíça, aos 96 anos de idade, a professora Maria Luísa Tavares Sousa e Blanqui. Natural de Cabo Verde, Luísa Blanqui foi uma activista política influente mas discreta na luta pela Independência Nacional de Cabo Verde, que teve relações de trabalho com Amílcar Lopes Cabral, o fundador do PAIGC.

 

Em comunicado, a Fundação Amílcar Cabral (FAC) lamenta a sua morte, endereçando sentidas condolências à família enlutada. "É com profundo pesar que registamos o desparecimento físico desta ilustre professora cabo-verdiana e patriota convicta. Para a família enlutada vão as nossas mais sentidas condolências", diz o documento.

Referindo-se ao perfil multifacetado de Tavares Sousa e Blanqui, a FAC destaca a sua participação na luta pela libertação nacional e a sua relação com Amílcar Cabral. "Além de docente de qualidades excepcionais, a professora Luísa Blanqui foi também uma activista política influente mas discreta na luta pela Independência Nacional de Cabo Verde. Participou nas actividades da Casa dos Estudantes do Império em Lisboa e, durante o período da luta colonial, manteve relações de trabalho com Amílcar Cabral e vários activistas portugueses que, na clandestinidade, se associavam à luta contra o salazarismo".

Conforme o documento, Maria Luísa Tavares e Sousa Blanqui nasceu na cidade da Praia, em 25 de Agosto de 1921. Completou os estudos secundàrios em Lisboa e, em 1951, formou-se em Filologia Românica pela Universidade de Coimbra. Continuou a sua formação em várias instituições estrangeiras em Espanha, Itália e França, e leccionou em Portugal, em vários colégios.

Ainda segundo o comunicado da FAC, ela trabalhou em Cabo Verde de 1958 a 1960, leccionando a disciplina de Francês (sic) na Secção da Praia do Liceu Gil Eanes. "As medidas inovadoras introduzidas a nível da escola e o trabalho de consciencialização política realizada junto dos alunos causaram-lhe incompatibilidades com a Direcção do Liceu, que teriam chegado ao conhecimento da PIDE (Polícia Internacional da Defesa do Estado (sic)) . Assim, em 1960, a professora Maria Luísa Blanqui decidiu deixar o País (sic) e, a partir do mesmo ano passou a trabalhar na Universidade de Genebra, Suíça".

Mas permaneceu sempre em contacto com Cabo Verde. Desde 1975, Luísa Blanqui visitava Cabo Verde de cinco em cinco anos por altura das celebrações da Independência Nacional. Mas por razões de saúde, a sua última visita aconteceu em 1990. "Hoje, Luísa Blanqui é referenciada pelos seus ex-alunos como uma professora exemplar, cujos ensinamentos e atitude educadora tiveram um impacto fundamental no desenvolvimento de valores éticos e de cidadania que os têm acompanhado na sua trajectória de vida pessoal e profissional".

Para reconhecer o seu trabalho prestado como docente, em 2015, por ocasião do 40º. aniversário da Independência de Cabo Verde, foi homenageada por iniciativa do Presidente da República de Cabo Verde, Jorge Carlos de Almeida Fonseca com a Medalha de Mérito por serviços prestados no domínio da educação em Cabo Verde.

In o jornal online cabo-verdiano, A Semana, de 15 de Julho de 2018. 

 

    

     Podeis enganar toda a gente durante um certo tempo; podeis mesmo enganar algumas pessoas todo o tempo; mas não vos será possível enganar sempre toda a gente.

    Abraham Lincoln (1809/1865). CItado pelo jornal PÚBLICO, na sua edição de 18/09/2018. 

 

 

A VERDADEIRA HISTÓRIA DE MARIA LUÍSA BLANQUI

 

(SEGREDO(S) DE UM CORAÇÃO CULPADO) 

 

       Não, não vamos começar esta história pelo princípio. Nem vamos começar esta história pelo fim. Vamos começar esta história pelo meio. Sim, pelo meio. Esta história tem início em Outubro de 1958. Foi quando Maria Luísa Blanqui, vinda de Lisboa, desembarcou (sim, literalmente, desembarcou, uma vez que as viagens aéreas regulares para Cabo Verde ainda não existiam) na sua terra natal, a sonolenta e pacata cidade da Praia, capital da então colónia portuguesa de Cabo Verde. Quem viu o magnífico filme francês (na verdade, franco-italiano), O Salário do Medo, de 1953, da autoria de Henri-Georges Clouzot, e, com mais precisão, se lembra do seu prelúdio, passado numa aldeola empobrecida, situada algures na América do Sul, pode ficar com uma representação clara e exacta do que era a cidade da Praia, nos anos cinquenta de século passado. Nessa vilória da película e também na cidade da Praia, todos pareciam estar à espera de Godot. O que se segue é a transcrição de um excerto do diálogo (beckettiano) entre Mario (Yves Montand) e Jo (Charles Vanel), dois dos protagonistas do filme:

Mario: Aqui não há um único que tenha emprego! Há esquemas, e, de vez em quando, lá nos safamos. E é tudo.

Jo: Porque é que não se vão embora?

Mario: Vontade não falta. Não há grades, há muito espaço. Isso é que mata. É demasiado grande. Para se sair daqui é difícil.

Jo: Então e o comboio?

Mario: Não há caminho-de-ferro.

Jo: E a estrada?

Mario: Só vai até ao poço de petróleo.

Jo: E o avião?

Mario: Já viste as tarifas? Caracas é perto de mais. Estamos perdidos neste canto. É tudo para cima de 200 ou 300. Tens esse dinheiro?

Jo: Não.

Mario: Eu também não. E o visto? É preciso visto.

Jo: Isso arranja-se.

Mario: Sim, mas um verdadeiro.

Jo: Também se arranja.

Mario: Só é preciso dinheiro. E para o teres precisas de um emprego. E emprego é coisa que não há. Começaram este prédio há dois anos e depois pararam.

Jo: Com este sol, compreende-se.

Mario: isto é como a prisão. Para entrar é só facilidades. Mas para sair, é o sais! E se não sais daqui, morres.

Jo: Pois eu não  pretendo morrer.

Mario: Ninguém quer.   

 

     Voltando à chegada de Maria Luísa à cidade da Praia, importa salientar que ela levava pela mão a filha única de quinze anos, que, tal como a mãe, também dava pelo nome de Maria Luísa, mas tratada familiarmente por Lisita. O que ia fazer Maria Luísa, uma mulher madura de 37 anos de idade, e acompanhada de uma descendente menor, a Cabo Verde em 1958? Em princípio ia trabalhar como professora (de Português e Francês) na recém-inaugurada secção do LIceu Gil Eanes da Praia. (Secção, porque a sede do mesmo estabelecimento de ensino estava no MIndelo, a segunda cidade da Colónia, na ilha de São Vicente, mas isto é um pormenor irrelevante.) Maria Luísa ia partir da estaca zero, numa idade em que ninguém inicia uma carreira. Numa idade em que já se começa a pensar na reforma. Numa idade em que se está a meio da ponte e é quase impossível regressar ao ponto de partida. Numa idade em que, em suma, já se começa a fazer o balanço de uma vida. E ela, há que dizê-lo sem rebuços, tinha já muito para balançar, (como adiante se verá), pois vivera mais de vinte anos em Lisboa.

     O lugar de professora, que a esperava, não lhe oferecia um salário muito tentador. Era um ordenado aceitável tendo em conta o baixo nível de vida da cidade e a modesta média salarial da colónia. O que de certo modo podia compor o orçamento mensal de Maria Luísa, e isso deve ter influído bastante na decisão de ir trabalhar em Cabo Verde, era o seguinte factor: nâo teria qualquer encargo com a habitação (e talvez nem com a alimentação e outras mordomias) visto que ela e a filha iriam aboletar-se em casa da irmã Maria da Luz (também conhecida por Lina). A casa (a bem dizer, uma vivenda), além de espaçosa, era quase nova e de boa qualidade, e fora atribuída, pouco tempo antes, ao cunhado e conterrâneo, Casimiro Antunes da Rosa, pelo facto de este ser, à época, Conservador do Registo Civil, de nomeação, e de Juiz de Direito substituto, em funções. A dita moradia estava (e ainda está) localizada num bairro chique da cidade, acabado de construir pelo Estado, e popularmente designado de Bairro Azul. (Mais à frente voltaremos a este assunto relacionado com o alojamento de Maria Luísa e filha).

     Logo que a presença de Maria Luísa, na cidade da Praia, foi conhecida, as notícias acerca dela correram céleres e vertiginosas. Passou-se a saber, no imediato, inter alia, que  ela vinha de Lisboa e que, além de licenciada em Filologia Românica, era viúva de um italiano e daí o seu apelido Blanqui. Apelido dela e o da filha. A recepção de Maria Luísa na cidade não podia ser melhor. Todos falavam dela. Todos queriam ser-lhe apresentados. Todos queriam convidá-la para folguedos e festejos. Todos a elogiavam por uma razão ou por outra. A entrada de Maria Luísa na cidade da Praia foi triunfal. Foi uma entrada à Júlio César: veni, vidi, vici. E depois da sua chegada à cidade da Praia, ocorreu às entidades oficiais que a até então doméstica, anónima e apagada irmã, Maria da Luz, também podia ser professora liceal de qualquer coisa como, por exemplo, de canto coral.  E assim aconteceu. Não há dúvida: as duas irmãs estavam na moda.

       Mas, de repente e menos de dois anos depois, Maria Luísa foi-se embora. Nem chegou sequer a completar o segundo ano lectivo (1959/1960) da sua curta e meteórica carreira académica na capital de Cabo Verde. E, no entanto, tudo parecia correr de feição a Maria Luísa. As suas aulas e os seus contactos sociais eram apreciados da melhor maneira por toda a gente e em especial pelos alunos. Estes só viam virtudes nessa mulher. Virtudes de ordem pessoal, pedagógica, intelectual, cultural e política. Ela até teve tempo e disponibilidade para organizar uma (única) sessão de teatro com a participação no elenco (chamemos-lhe assim) de parte dos seus pupilos, e tudo isso ficou na memória dos jovens que a tiveram como professora.  

     E foi este doce e idílico retrato de Maria Luísa que passou para o imaginário de muitos cabo-verdianos, e que ainda hoje ressoa na notícia atrás transcrita do jornal online A Semana.  

     Contudo, retrato apressado, errado e destituído de qualquer fundamento. Porquê? Vejamos, e começando pela alegada condição de viúva de um italiano. Uma falsidade. Maria Luísa era com efeito viúva, mas não de um italiano. Ela era viúva de um português. Sim, de um português, de seu nome Luís Augusto da Silva Blanqui Teixeira. Repetimos: Luís Augusto da Silva Blanqui Teixeira. Conforme reza a certidão do Registo de Casamento (nº. 157, livro nº. 90, da Segunda Conservatória de Lisboa) Luís Augusto e Maria Luísa consorciaram-se em 28 de Fevereiro de 1943. Ele era um humilde funcionário público, de 23 anos de idade, e ela, estudante de 21 anos. O casamento civil foi celebrado na residência de Maria Luísa, sita na Rua Carvalho Araújo, nº. 210, primeiro andar, lado direito, em Lisboa, mais exactamente no popular Bairro de Arroios, à Praça do Chile. Há que precisar que esta casa foi arrendada pelos pais de Maria Luísa quando, dez anos atrás, vieram de Cabo Verde fixar residência na capital portuguesa. Nela moravam, à data do casamento, além da mãe (o pai já tinha falecido) e Maria Luísa, também a irmã Maria da Luz e o marido Casimiro Antunes da Rosa, futuro Conservador e Juiz substituto da Comarca da Praia, em Cabo Verde, ao qual já fizemos referência. O nome que ela passou a usar, depois do matrimónio, foi o de Maria Luísa Tavares e Sousa Blanqui Teixeira. Sim, Blanqui Teixeira. Mas isto só sucedeu até à sua chegada à cidade da Praia. A partir daqui, e para encenar com toda a conveniência a sua qualidade de suposta viúva de um italiano, ela omitiu deliberadamente o último apelido, Teixeira, ficando apenas com Blanqui, no fim do seu nome.

     Convirá dizer ainda mais qualquer coisa acerca do marido, Luís Augusto da Silva Blanqui Teixeira. Este morreu precocemente, em 5 de Maio de 1944, aos 24 anos de idade, de tuberculose pulmonar (é o que diz a certidão de óbito), um ano e três meses depois do casamento, e seis meses após o nascimento da filha Maria Luísa (mais tarde tratada em família por Lisita). De notar que aquando do falecimento de Luís Augusto, o casal tinha mudado de residência. A morada dos dois cônjuges, constante da certidão de óbito (Registo nº. 628, 05/05/1944, livro 105, da Segunda Conservatória de Lisboa), era agora a da família do mesmo Luís Augusto e onde este residira até ao casamento, ou seja, Avenida Almirante Reis, nº. 217, rés-do-chão, em Lisboa, sendo certo que, seis meses antes, isto é, na data do nascimento de Lisita ,(15 de Novembro de 1943), a filha de ambos, o domicílio do casal localizava-se no já referido endereço da Rua Carvalho Araújo, nº. 210, primeiro andar, lado direito, em Lisboa (Assento de Nascimento nº. 2550-M/1943, lavrado em 23/11/1943, na 8ª. Conservatória de Lisboa, e informatizada em 21/01/2016). 

     Mas acerca de Luís Augusto ainda não dissemos tudo. Falta conhecer o elemento talvez mais importante. Luís Augusto era irmão do futuro funcionário e dirigente do Partido Comunista Português (PCP), Fernando Augusto da Silva Blanqui Teixeira (1922/2004). A adesão deste ao PCP iria ocorrer em 1944 e, pouco tempo depois, entrava na clandestinidade e, mais tarde, iria parar algumas vezes às prisões fascistas portuguesas. Ora na ocasião da chegada de Maria Luísa à cidade da Praia, Fernando Blanqui Teixeira era um alto quadro do PCP e estava detido no forte de Caxias. Para além de Maria Luísa dizer que era viúva de um português não ilustrar muito bem as suas pretensões nacionalistas cabo-verdianas, pretensões embora vagas e não isentas de contradições várias, ser viúva de um italiano era mais romântico e também dava mais classe. Dava mais estilo. Daí a alteração (por omissão) do seu nome. Ela eliminou o Teixeira, e passou a ser, para todos os efeitos, Maria Luísa Blanqui.  

     A deturpação da sua identidade foi o primeiro equívoco de Maria Luísa Tavares e Sousa Blanqui Teixeira, depois da sua chegada a Cabo Verde. Outros equívocos se seguiriam, e, desde logo, as suas proclamadas qualidades pessoais, pedagógicas, intelectuais, culturais e políticas. Nada disto é verdade. Ponto final, parágrafo.

     Maria Luísa Tavares e Sousa Blanqui Teixeira era uma professora vulgar, indistinta e, como tal, situada ao nível dos restantes professores do liceu da Praia. Nem mais nem menos. A única coisa que ela fazia de forma diferente dos demais docentes era festejar com cantigas os aniversários dos seus discípulos. Sim, isso mesmo: festejar com cantigas os aniversários dos seus discípulo. E como esses festejos ocupavam o tempo todo das aulas, muitos alunos inventavam aniversários para que não houvesse...aulas.

       E em termos de formação e experiência pedagógicas, ela vinha em branco. Apenas trazia o canudo da formação universitária, em Filologia Românica, concluída sete anos antes, aos trinta anos de idade, e estranhamente na Universidade de Coimbra, quando ela residia desde sempre na cidade de Lisboa. Ao contrário do que assevera o comunicado da Fundação Amílcar Cabral, atrás mencionado, nem ela continuou a sua formação em instituições estrangeiras (além do mais, não tinha dinheiro para isso) nem ela leccionou em Portugal em vários colégios. Dadas as suas ligações, ainda que por afinidade, exibidas nos seus dois últimos apelidos, a um importante dirigente do PCP, Maria Luísa estava impedida de leccionar na antiga metrópole, quer no ensino público quer no ensino privado. Isto era aliás o que acontecia aos candidatos a professores que de uma forma ou de outra não estavam de acordo com a situação política então vigente, ou mesmo que só aparentassem (como era o caso de Maria Luísa) não estar alinhados com o mesmo regime político. Para Oliveira Salazar, e os seus sequazes, em política, o que parecia era. Para Maria Luísa só havia uma excepção: leccionar em Cabo Verde, se ela assim o quisesse. E esta foi uma das razões por que ela foi ensinar para Cabo Verde, onde chegou aos caídos. Não lhe restava nenhuma alternativa no espaço português.

   Quanto às suas alegadas qualidades intelectuais e culturais, Maria Luísa era simplesmente um logro. Ela foi ao longo da sua longa vida uma mulher sobrevalorizada, em particular em Cabo Verde. Criaram dela uma imagem que estava longe da realidade. E a realidade era a de uma mulher que nada tinha de especial. E a realidade era a de uma mulher banal, de cultura geral mediana e superficial. Não se lhe conhece uma teoria, uma linha de pensamento, uma ideia, uma frase. Nada. Zero. Maria Luísa era um deserto em matéria de cariz intelectual e cultural. Enquanto seu aluno e conhecido, não a ouvi citar um único grande romancista, português ou estrangeiro. Um poeta. Um filósofo, clássico ou moderno. Um pintor. Um músico. Um cineasta. Na casa, onde ela e a filha se alojavam, que visitei duas ou três vezes, não vi sequer um livro, muito menos os canónicos, um desses escolhidos por Somerset Maugham ou pela ITV, atrás falados.

     E o teatro que ela organizou? Mais um embuste. O que ela fez nada tinha a ver com o teatro sério ou o também chamado teatro declamado. Não, não era Gil Vicente (e um dos seus autos), ou Almeida Garrett (e o seu Frei Luís de Sousa) ou mesmo Júlio Dantas (e a sua Ceia dos Cardeais). Não. Nada disso. Ou, ainda menos, dramaturgos  estrangeiros como, por exemplo, Nikolai Gogol (e a sua peça O Inspector-Geral), ou Henrik Ibsen (e a sua peça Quando Nós, Os Mortos, Acordamos), ou Oscar Wilde (e a sua peça A Importância de Se Chamar Ernesto), ou Luigi Pirandello ( e a sua peça Seis Personagens à Procura de Um Autor).  O teatro que Maria Luísa encenou era o teatro fácil e ligeiro, que ela tinha frequentado, e que estava muito em voga nos palcos portugueses (leia-se: nos palcos lisboetas) nas décadas de quarenta e cinquenta do século passado. O teatro que Maria Luísa encenou era uma imitação barata do apelidado teatro de variedades, do teatro de revista à portuguesa. Ou, se se quiser, do teatro de boulevard. Com todos os seus ingredientes: cantorias, alguma rábula, anedotas, pequenas danças e imitações, no caso, de professores do liceu onde ela ensinava. Chamaram-lhe teatro porque o que ela apresentou tinha lugar num palco e porque o seu público era constituído por uns refinados ignorantes e, por conseguinte, tratava-se de um público que nada sabia de teatro, em geral, e das suas derivações bastardas, em particular. E também porque era grande a boa vontade para com Maria Luísa. Só isso.

      No que toca à sua actividade política, muito louvada na notícia do jornal online A Semana, é também uma grande treta. Maria Luísa não teve qualquer actividade política. Nem discretamente nem ostensivamente. Nem em Lisboa (a sua situação de viúva e mãe desempregada não lhe dava tempo e disposição para se preocupar com a política) nem em Cabo Verde. É rídiculo dizer que As medidas inovadoras introduzidas (por Maria Luísa, entenda-se) a nível da escola e o trabalho de consciencialização política realizada (sic) junto dos alunos causaram-lhe incompatibilidades com a Direcção do Liceu, que teriam chegado ao conhecimento da PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado). Assim, em 1960, a professora Maria Luísa Blanqui (sic) decidiu deixar o País (sic) e, a partir do mesmo ano, passou a trabalhar na Universidade de Genebra, na Suíça.  

      Esta passagem do obituário do jornal online A Semana tem muito que se lhe diga. Refira-se, desde já, que Maria Luísa e a PIDE não se cruzaram em Cabo Verde. Quando esta política arribou a Cabo Verde em 1961, já Maria Luísa não se encontrava na colónia. Por isso é um absurdo afirmar que a PIDE teria tomado  conhecimento das incompatibilidades de Maria Luísa com a Direcção do Liceu. Por outro lado, e repetindo o que já dissemos acerca dela, Maria Luísa era uma mulher vulgar, quer como pessoa, quer como professora. Nada fez ou afirmou que a distinguisse dos outros professores. Não houve da parte dela qualquer trabalho de consciencialização política junto dos seus alunos, e se ela teve algum problema com a Direcção do Liceu terá sido por razões puramente disciplinares (as tais cantigas a propósito dos aniversários dos seus alunos) e não por razões políticas. E, de resto, pergunta-se: o que é isso das incompatibilidades com a Direcção do Liceu que teriam chegado ao conhecimento da PIDE? Com que resultados de natureza política? Com que medidas tomadas contra ela? Sim, estamos a falar de uma Polícia de matriz essencialmente política e repressiva, e que, perante as actividades subversivas (como então se dizia) dos princípios políticos que norteavam o Estado Novo, ou prendia sem culpa formada, ou desterrava, ou ainda mandava para o desemprego. Nada disto aconteceu a Maria Luísa Blanqui Teixeira, em Cabo Verde. Ela trabalhou livremente na colónia, e de lá saiu livremente e quando entendeu que era altura de o fazer. Saiu, não por motivações políticas, mas por meras razões de ordem económica e prática. Os factores que terão pesado seriamente na decisão de Maria Luísa abandonar a então colónia portuguesa de Cabo Verde terão sido, não os mais românticos (como ela e os seus admiradores gostariam que tivessem sido), mas os mais prosaicos possíveis. E quais foram tais factores? Em primeiro lugar, o futuro da filha, seja do ponto de vista pessoal, seja do ponto de vista académico, e seja ainda do ponto de vista profissional. Na Suiça, Lisita não estudou muito mas não só fez, em 29 de Junho de 1964, um casamento (com um suíço) que provavelmente não faria em Cabo Verde, como também, juntando-se à mãe, abraçou até hoje a profisssão de tradutora oficial ou juramentada.

       Em segundo lugar, a irmã Maria da Luz e o marido partiriam em breve de Cabo Verde para Angola (onde Casimiro Antunes da Rosa iria dar continuidade ao seu percurso de quadro superior ao serviço do colonialismo português), pelo que Maria Luísa deixaria de poder contar com alojamento (e talvez alimentação e outras mordomias) a custo zero, passando a depender apenas e só do seu relativamente magro vencimento de professora liceal.

     Nada das situações descritas, que afectavam Maria Luísa, aconselhava a sua permanência em Cabo Verde e, como se vê, tratava-se de situações que se podem colocar a qualquer candidato à emigração por razões de sobrevivência. Sim, o que Maria Luísa fez foi rigorosamente emigrar para a Suíça à imagem e semelhança do que já faziam os seus conterrâneos, embora em grande medida para outros destinos. Em resumo: Maria Luísa não se exilou nem foi forçada a exilar-se. Emigrou para a Suiça, em busca de melhores condições de vida para si e para a sua filha.

    De regresso ao comunicado da Fundação Amílcar Cabral, que o jornal online A Semana transcreveu, em jeito de oração fúnebre, é curioso constatar que ainda hoje Maria Luísa é idolatrada pelos seus patrícios, sendo tratada nessa peça jornalística recorrentemente por Maria Luísa Tavares e Sousa Blanqui (sem Teixeira) quando os próprios familiares já tinham desisitido dessa farça identitária. De facto, a propósito do falecimento de Maria Luísa, em 8 de Julho último, quase a completar os noventa e sete anos de idade, o jornal suíço Tribune de Geneve, de 10 de Julho de 2018, em notícia paga, publicou o Avis de décès respeitante a Madame Maria-Luísa Tavares e Sousa Blanqui Teixeira (sic). É motivo para dizer que os cabo-verdianos são neste caso mais papistas que o papa, perdão, corrijo: mais papistas que a papisa, Lisita, a filha de Maria Luísa, a qual, por sua vez, também passou a usar os apelidos completos, incluindo por conseguinte o Teixeira a seguir ao Blanqui.  

     Vamos terminar com mais umas considerações acerca da admiração sem reserva e, como atrás ficou demonstrado, também sem fundamento que os cabo-verdianos (a nível particular e, de igual modo, no plano oficial) tiveram e ainda têm por Maria Luísa Tavares e Sousa Blanqui Teixeira. Em 1990, numa das raras visitas que Maria Luísa fez a Cabo Verde, ela foi homenageada por uma dúzia de patetas, antigos alunos seus (de ambos os sexos), com um almoço num conhecido restaurante perto da capital. Entre esses patetas estava um poeta (uma espécie de celebridade local), o qual ficou desvanecido por Maria Luísa lhe ter dito que, enquanto vários dos seus colegas faziam muito dinheiro na vida profissional, ele (o poeta) ganhava pouco dinheiro mas, em compensação, produzia Arte. O mesmo poeta ainda hoje conta essa história, com alguma nostalgia, sempre que se lhe oferece uma oportunidade ou, às vezes, ainda que a despropósito. O narcisista, e também o cabotino, têm razões que a razão desconhece.

          Em 5 de Julho de 2015, repetimos, em 5 de Julho de 2015, um outro pateta, o presidente da República de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, condecorou Maria Luísa com a medalha de mérito (de segunda classe) por serviços prestados no domínio da educação em Cabo Verde, tratando-a por Maria Luísa Tavares e Sousa Blanqui (sem Teixeira). Mais comentários, para quê?                                

                            

              

       

 

                     

          ,

 

 

 

 

 

 

 

    

 

 

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Quarta-feira, 21 de Março de 2018

CADERNOS DO SUBTERRÂNEO (4)

- É o turismo, senhor, o turismo.

- Turismo em Janeiro?

 

António Costa to Alexis Tsipras:

- Thanks, Alexis; your country saves mine from the shame of being the last in Europe.

 

 

BRITÂNICOS DE OLHOS AZUIS E PELE ESCURA

     Estudos acabam de revelar recentemente que, há dez mil anos, os britânicos tinham olhos azuis e pele escura. Estas conclusões foram tiradas da análise ao ADN do mais antigo e completo esqueleto britânico conhecido. Chamam-lhe Cheddar Man - uma referência a Cheddar Gorge, onde o fóssil foi descoberto em 1903.

Fontes: jornais portugueses e estrangeiros 

 

 

A(S) RAÇA(S) HUMANA(S) E AS SUAS DIFERENÇAS

 

(O FARDO DO HOMEM BRANCO) 

 

   As teorias acerca das origens da(s) espécie(s) humana(s), e as suas diferenças, têm variado nas últimas décadas ao sabor das conveniências e dos ventos políticos ou ideológicos. Até ao final dos anos trinta do Século XX, de um modo geral a Antropologia punha a tónica nas diferenças entre as espécies humanas e falava abertamente em quatro raças - raça branca, negra, amarela e vermelha. Como se sabe, os Nazis levaram demasiado longe a teoria das raças, ao ponto de provocarem uma Guerra Mundial (a segunda) com as consequências que se conhecem. A derrota da Alemanha nazi conduziu ao fim de tal teoria e também das diferenças entre os humanos. Deu-se uma volta de cento e oitenta graus. Passou a ser tudo igual. Um só tronco. Uma só espécie. Uma só origem - a África. Mentiras. Enganos. Falsidades. Fraudes pseudocientíficas. Um dado inquestionável na Natureza é a diferença, a diversidade. Nos animais, nos vegetais (e nos próprios minerais).  Só de macacos, conhecem-se pelo menos quatrocentas espécies. De tubarões, outras tantas. De aves e répteis, milhentas. De insectos, idem aspas. De plantas e de frutos, nem vale a pena falar. Se a diversidade é a regra, na Natureza, porque é que só nos humanos é que haveria de existir a excepção de apenas uma espécie? A espécie humana única é uma falácia. Sim, uma falácia. Uma fantasia. Uma ficção. Uma mistificação. Uma invenção do politicamente correcto, obviamente ainda sem esta designação, surgida depois da Segunda Guerra Mundial e acentuada na década de sessenta do Século XX, (sempre essa década fatal).  Sim, há, com toda a certeza, diversas espécies ou raças humanas, e a velha divisão dos humanos em quatro raças diferentes (pelo menos) continua a ser tão pertinente como há oitenta anos.

    Dito isto, impõe-se aqui uma pergunta antecedida de algumas considerações: corre por aí, desde há três ou quatro décadas, uma narrativa segundo a qual os humanos nasceram em África e de lá vieram para a Europa, passando pela Ásia, há entre quarenta mil a duzentos mil anos (os números têm vindo a estar em frequentes variações para mais), evoluíram para os brancos europeus, de olhos azuis, lábios finos, cabelo loiro e liso, e deram origem aos actuais povos civilizados do denominado Velho Continente. (Pouco ou coisa nenhuma se diz acerca dos aborígenes da Austrália, e ilhas próximas, esses sim, indubitavelmente oriundos de África e que em nada se distinguem dos grupos humanos que permaneceram  no mesmo continente, quer no que toca ao estádio civilizacional rudimentar, aquando da descoberta desse continente-ilha, quer quanto aos traços anatómicos). Voltando ao conjunto de humanos, vindo de África e supostamente em expansão pelo Mundo, outros continuaram a sua marcha, através do Estreito de Bering, e povoaram todo o continente americano. É sabido que quando os Europeus, a partir dos finais do Século XV, chegaram ao chamado Novo Mundo (de norte a sul) só encontraram povos primitivos, quer dizer, povos que andavam de tanga (e muitos nem isso) viviam em tribos e eram caçadores-recolectores. Pois bem, admitindo, por mera hipótese de raciocínio, que essa narrativa da longa marcha da humanidade faz algum sentido, e dando de barato esse prodigioso milagre anatómico que consistiu na transformação de negros retintos, de olhos escuros, cabelo preto e crespo, lábios grossos e nariz achatado, em brancos de cabelo loiro e liso, lábios finos, nariz afilado e olhos azuis, eis a pergunta: porque é que os humanos que ficaram no continente europeu se tornaram evoluídos e civilizados e os que seguiram, se é que seguiram, para o continente americano permaneceram primitivos? A resposta correcta só pode ser a seguinte: eram espécies diferentes de raças humanas as que ficaram na Europa e as que se dirigiram para o continente americano, ou mesmo lá nasceram, e nunca espécies iguais. E não se argumente que a ligação dos humanos, nascidos em África, aos restantes grupos espalhados pelo mundo se prova pela comparação do ADN entre eles. E porquê? Porque a comparação do ADN dos humanos e o ADN dos chimpanzés provou serem semelhantes em mais de 99%. Ora se a semelhança entre humanos e chimpanzés é mais de 99%, é óbvio que, em termos de ADN, não há qualquer diferença entre grupos de humanos, mesmo tratando-se de grupos de humanos diferentes. Assim sendo, formula-se uma outra pergunta: onde residem então as diferenças entre as espécies humanas? Resposta: as diferenças encontram-se nas características morfológicas (todas, da cor da pele ao formato do nariz) e nas capacidades intelectuais e culturais dos diferentes grupos humanos.

      O politicamente correcto tem de ser revisto nestas (e noutras) matérias, sob pena de pôr em causa o próprio rigor científico. Os Nazis (e companhia) estavam (ou estão) errados ao fazerem das diferenças raciais uma forma de dominarem e tiranizarem as raças, intelectual e culturalmente, menos avançadas. Os seus opositores estão errados ao combaterem o racismo com a teoria errada de que somos todos iguais e viemos todos do mesmo tronco africano ou seja lá do que for. Nem somos todos iguais nem viemos todos de África. Nos três Reinos da Natureza (animal, vegetal e mineral) o que impera, e sempre imperou, é a diversidade e não a unicidade. E a espécie humana não é nem pode ser excepção a tal regra, por mais que queiram (e desejem) os apologistas do politicamente correcto.  

 

O EXCEPCIONAL SOM NASALADO DAS PALAVRAS PROFERIDAS PELOS FALANTES ORIGINÁRIOS DAS LÍNGUAS INDO-EUROPEIAS

 

    O Indo-europeu foi uma língua falada na Europa há cerca de cinco mil anos. É do Indo-europeu que derivam quase todos os actuais idiomas utilizados na Europa (com pequenas excepções), em partes da Ásia, nas ex-colónias de países europeus espalhadas pelo mundo e, antes deles, as línguas mortas como o Latim e o Grego antigo. (O Sânscrito é uma outra língua morta de origem indo-europeia e que existiu na ìndia). Estas línguas fazem parte do chamado grupo ou família das línguas indo-europeias.

    Uma vez que, durante a existência e utilização do Indo-europeu, a escrita ainda não fora inventada e, portanto, não restam registos documentais do Indo-europeu, como é que sabemos da sua existência? Sabemos dessa existência, por um lado, devido à semelhança entre diversas palavras das actuais línguas indo-europeias, tais como "mãe", "pai", etc., e, por outro, em razão da semelhança estrutural entre as letras dos referidos idiomas e também entre os seus próprios abecedários. Tais semelhanças sugerem um tronco comum às referidas línguas (indo-europeias).

     Mas há ainda mais uma semelhança muito importante entre as mencionadas línguas, semelhança essa que acaba por ter que ver com o objecto da reflexão que aqui se pretende fazer e que se encontra, de resto, resumida no título do presente artigo. Trata-se do som nasalado das palavras desses mesmos idiomas, quando tais palavras são proferidas pelos falantes originários das línguas indo-europeias. (Mais adiante explicaremos o sentido da expressão "falantes originários das línguas indo-europeias".) Diremos desde já que o som nasalado das palavras, pronunciadas pelos falantes originários das línguas indo-europeias, se deveu, na sua fase inicial de formação, essencialmente ao nariz afilado desses mesmos falantes (nariz afilado ou, com mais propriedade, nariz apertado, facto que como se sabe está na origem do som roufenho ou fanhoso das palavras). Esta característica das línguas indo-europeias (o som nasalado das palavras produzido pelos seus falantes originários) é uma excepção quando comparada com o que acontece com outras línguas ou com outros grupos de línguas à escala universal. Nestes últimos casos, dada a ausência do nariz afilado ou nariz apertado, o som das palavras é sempre oral e não nasalado. Ou seja, o som oral das palavras é a regra e o som nasalado a excepção. É preciso sublinhar que o som nasalado das palavras das línguas indo-europeias (no caso) adquire-se, independentemente de factores anatómicos, quando se nasce e/ou se cresce em países de línguas indo-europeias (por exemplo, na Europa) ou quando se nasce e também se cresce, embora fora dos mesmos países, no seio de famílias de falantes originários de línguas indo-europeias. É a estas categorias de falantes de línguas indo-europeias que apelidamos de "falantes originários" de línguas indo-europeias. Os falantes não originários das línguas indo-europeias são aqueles que utilizam essas línguas não só com pronúncias ou sotaques diferentes (por exemplo, falantes das ex-colónias de países europeus) mas também com o som oral das palavras e, por conseguinte, sem o som nasalado atrás referido. Tal só não sucede, por razões várias, com determinados falantes da língua inglesa. Nestes casos (Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia) a língua, muito embora com pronúncias ou sotaques diferentes, manteve o som nasalado das palavras e, no que respeita aos Estados Unidos, de forma bastante acentuada como aliás facilmente se constata.

     De regresso à aquisição do som nasalado das palavras, proferidas pelos falantes originários das línguas indo-europeias, convirá realçar que se trata de uma aquisição natural e espontânea e que acontece desde tenra idade. Essa aquisição não depende da aprendizagem ou apropriação consciente e muito menos pode ser mimetizada (a imitação do som nasalado das palavras soaria ridícula). E mais: ao contrário do que sucede com a pronúncia ou o sotaque, o som das palavras (quer o nasalado quer o oral) , uma vez adquirido, nunca se perde; perdura ao longo das vidas dos respectivos falantes sem ter em conta o lugar ou o ambiente onde estes vivam (ou passem a viver). Também ao invés do que acontece com a pronúncia ou o sotaque, que variam consoante as regiões (de uma mesma língua) e mesmo consoante as classes sociais, o som das palavras (quer o nasalado, no caso dos falantes originários de qualquer idioma indo-europeu, quer o oral no caso dos falantes dos restantes grupos línguísticos) é mais igual e democrático em todos os falantes, para lá das regiões ou classes sociais a que estes partençam. Porque assim é, o som das palavras (conforme os casos, nasalado ou oral) acaba por ser, em certa medida, um dos traços distintivos fundamentais de qualquer língua viva.                                                                                  

 

 

 

 

 

 

 

 

      

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Quinta-feira, 29 de Junho de 2017

CADERNOS DO SUBTERRÂNEO (3)

 

NO REINO DO LAMAÇAL (o romance que nunca existiu)

 

TERCEIRA E ÚLTIMA PARTE

 

    E assim foi o tempo passando e todos aguardando a publicação mais do que certa do romance prometido por Guilherme de Freitas. E, enquanto esse evento não ocorria, eram muitas as iniciativas levadas a cabo pelas pessoas mais próximas de Guilherme de Freitas a respeito do seu almejado livro. Desde simples conversas informais sobre o mesmo  assunto, entre os que sabiam de tal promessa, a debates alargados em que tomavam parte críticos e investigadores literários. A princípio em cafés, locais de trabalho e residências particulares; pouco a pouco nos meios académicos e em espaços cada vez mais públicos. Passou-se entretanto a escrever em jornais e revistas acerca de Guilherme de Freitas, inicialmente de forma tímida e depois abundantemente. Escrevia-se sobre Guilherme de Freitas e com certeza acerca do seu romance. Nos círculos oficiais foi decidido apoiar discretamente Guilherme de Freitas, em todas as circunstâncias em que isso fosse possível. No país e no estrangeiro. As chancelarias receberam instruções nessa conformidade. O Governo apoiou informalmente alguns conhecidos intelectuais e amigos de Guilherme de Freitas que se mostraram disponíveis para a promoção e divulgação do nosso escritor. De entre esses intelectuais salientava-se, pela sua reconhecida capacidade, Arnaldo Banza, um grande amigo de Guilherme de Freitas. Diga-se que Arnaldo Banza não poupou esforços nem tempo em prol da consagração de Guilherme de Freitas, enquanto homem da cultura e autor de um romance cuja publicação se aguardava a todo o instante. 

     No meio de toda esta azáfama, em que Guilherme de Freitas era o protagonista incontornável, a notícia da sua morte caiu que nem uma bomba.  O falecimento de Guilherme de Freitas apanhou tudo e todos de completa surpresa. Nada fazia prever tal ocorrência. E no imediato todos pensaram unanimemente no livro que Guilherme de Freitas estava a escrever. Todos. Os amigos, os conhecidos e também os membros do Governo, em particular o primeiro-ministro. Assim sendo, havia que recuperar sem delongas o original desse romance. Havia que salvar sem perder tempo a honra e a palavra de Guilherme de Freitas. Havia que ter em conta o empenho e a reputação do Governo e de respeitáveis homens da cultura na defesa e divulgação do nome e da obra de Guilherme de Freitas. Havia enfim que corresponder à enorme expectativa das pessoas em geral, criada em torno da publicação do já famoso romance de Guilherme de Freitas.

      E foi assim  que, sob a égide do primeiro-ministro, se formou um grupo de trabalho, cuja missão quase sagrada era a de resgatar o original dessa obra literária e dar-lhe estampa tão depressa quanto possível. 

       Como já foi dito, logo a seguir ao funeral de Guilherme de Freitas, os três homens das letras, que integravam o grupo de trabalho, deslocaram-se à que foi a última residência conhecida desse malogrado escritor, em busca do seu espólio literário e em particular do manuscrito do seu romance No Reino do Lamaçal. Levavam instruções rigorosas de darem conhecimento, em primeira mão, apenas e só ao primeiro-ministro, dos resultados das suas investigações, fossem quais fossem esses resultados. E assim foi. Contudo, poucas horas depois de terem entrado nessa habitação, dirigiram-se espavoridos ao gabinete do primeiro-ministro, que os recebeu de imediato. O governante, vendo-os de mãos vazias, perguntou cheio de curiosidade ao chefe da comissão Arnaldo Banza o que se estava a passar. Arnaldo Banza respondeu contristado: " Senhor primeiro-ministro, sou um homem esmagado pela desgraça!" 

      "Como assim?" - Quis saber o primeiro-ministro.

      "Não há romance nenhum, não há nada, senhor primeiro-ministro. Afinal de contas, Guilherme de Freitas era um fala-barato, um pantomineiro, um impostor, um trampolineiro, um parlapatão. Um homem que só tinha garganta. Em casa de Guilherme de Freitas, onde esperávamos encontrar uma arca cheia de manuscritos literários, o que encontrámos foram duas caixas de sapatos contendo papéis sem importância, tais como contas e facturas por pagar; notíficações judiciais para cobranças de dívidas, (que, diga-se de passagem, não eram poucas); cartas de amantes e de prostitutas a pedirem-lhe dinheiro. Cartas de mulheres da vida. Coisas assim. Ah, é verdade, já me ia esquecendo: havia também revistas e fotografias pornográficas. E do mais ordinário! Do mais obsceno! Do piorio! Está a ver, senhor primeiro-ministro? Era isso o que nos esperava. Repito: nada de interesse literário. Já viu, senhor primeiro-ministro, a situação grave e delicada em que me encontro? Eu, que tanto fiz por esse homem, eu que tanto escrevi e falei sobre ele e sobre o romance que ele nos convenceu de que estava a escrever! É a minha reputação que está em causa. É a minha honra e o meu prestigio que estão em jogo. O homem pura e simplesmente enganou-me, aldrabou-me, ludibriou-me, burlou-me. Estou perdido, senhor primeiro-ministro! Estou destruído! O que irão dizer de mim as pessoas? Vou ser objecto de chacota. Já viu isto, senhor primeiro-ministro?"

     O governante interrompeu neste ponto Arnaldo Banza: "Calma, calma, meu amigo. Não é só o senhor que está em apuros. O Governo também. E eu também. O país também. Ao fim e ao cabo, todos nós nos comprometemos pessoalmente, e não só, na promoção e enaltecimento de Guilherme de Freitas. Comprometemos também a nossa reputação em defesa desse homem. Alguma coisa se há-de fazer para sairmos todos desta trapalhada."

     "Fazer o quê, senhor primeiro-ministro, se não há nenhum romance?" - Perguntou de chofre o Dr. Arnaldo Banza, cortando a palavra ao seu interlocutor -  "Já disse a V. Excelência que não encontrámos nada na que foi a residência de Guilherme de Freitas. Nenhum sinal de um manuscrito fosse do que fosse. Nada! Absolutamente nada! Viemos dessa malfadada casa de mãos completamente a abanar".

      "Havemos de fazer alguma coisa, volto a dizer-lhe, homem!" - Respondeu o primeiro-ministro e continuou:  "Se não há romance, redige-se e publica-se um romance. Como? Sim, estou a ver que o meu amigo está confuso. Mas eu explico-lhe e vou começar pelo princípio. Há coisa de quatro meses o Governo recebeu duas informações fidedignas que nos deixaram de sobreaviso. Por um lado, e ao contrário do que Guilherme de Freitas tinha prometido, era bem possível que não houvesse qualquer romance, ou seja, o Guilherme pura e simplesmente não escrevera coisíssima nenhuma. E, por outro lado, o Guilherme estava muito doente do coração e provavelmente não iria viver mais do que dois ou três meses. Por tudo isso, ficámos apreensivos. Ficámos de pé atrás. Ficámos na retranca. E pensámos e dissemos todos em uníssono: algo tem de ser feito o mais depressa possível para não sermos apanhados de calças na mão. E fazer o quê? Além do mais, preparar um plano B. Sim, um plano B. Como deve calcular, a situação era melindrosa. Estávamos todos em maus lençóis. O assunto foi amplamente discutido e analisado em vários conselhos de ministros, nos dias que se seguiram. Foi então que alguém (não interessa quem) se lembrou em boa hora do seguinte: em Portugal, no resto da Europa e nos Estados Unidos existem pessoas (homens, sobretudo) capazes de escrever, em nome e a pedido de outrem, tudo o que se queira: romances, contos, novelas, poesia, biografias ou mesmo autobiografias, ensaios, teses académicas, enfim, repito, tudo o que se queira. São os chamados escritores-fantasmas. Estou a ver que o meu amigo, tal como eu, nunca tinha ouvido falar desse tipo de pessoas. Pois bem, é verdade, essas pessoas existem. Escritores-fantasmas, porque esses autores escrevem mas nunca aparecem. Nunca dão a cara. Os livros que escrevem são publicados mas eles, os verdadeiros criadores, ficam na sombra, no anonimato. Recebem os seus honorários sem qualquer documento comprovativo e esfumam-se. Nunca se saberá da sua existência. E fique sabendo que esses escritores-fantasmas são muito procurados. Clientes não lhes faltam e são da mais variada espécie: empresários, gestores, banqueiros, ex-diplomatas, políticos no activo e políticos reformados. Fala-se até de um ex-primeiro-ministro português, que já publicou dois livros cuja real autoria é um escritor-fantasma. Aliás também se diz que esse ex-primeiro-ministro não só gastou rios de dinheiro com o mesmo escritor-fantasma, mas também na compra de um número avultado de exemplares dos seus próprios livros. Para quê? Para criar a ilusão de que os seus livros eram muito procurados e tinham tido muito sucesso. Megalomanias!"

     "Mas, voltando um pouco atrás, você já deve estar a pensar (e bem) que o nosso plano B era nada mais nada menos que o trabalho de um escritor-fantasma. Sim, o escritor-fantasma era e é a nossa salvação. Acontece até que temos em Lisboa dois amigos portugueses que são também amigos do nosso país. Trata-se de pessoas muito influentes e com ligações a escritores-fantasmas. Podem contactar um escritor-fantasma e tratar de tudo. De resto, já o fizeram. Que amigos são esses? São eles a jornalista Olinda Leão e o professor universitário reformado, Câncio Condottieri. Repito: são grandes amigos do nosso país."

      "Você deve conhecer muito bem a Olinda Leão, pois ela esteve cá há um tempo atrás como cooperante. Depois de regressar a Portugal, passou a ser colaboradora regular de um dos nossos jornais. Foi sempre uma amiga devotada do nosso país. Uma autêntica Madre Teresa do nosso país. O que ela não fez pela nossa Pátria! Entretanto, e sem mais nem porquê, as suas crónicas deixaram de ser publicadas. Sumiram-se. Nem ela se despediu dos leitores nem o jornal deu qualquer explicação para a ausência dos seus artigos. Uma falta de consideração e respeito por ela e pelos leitores desse jornal. Mas adiante."

        "Quanto a Câncio Condottieri, esse, esteve exilado no nosso país por razões políticas. Bem entendido, éramos então uma colónia portuguesa. E durante o exílio, que se prolongou por cerca de dois anos, Câncio Condottieri exerceu cá a sua profissão de contabilista. Era então um homem simples e despretensioso, ou, melhor dizendo, aparentava ser um homem simples e despretensioso. Aparentava ser aquilo que na verdade era: um contabilista. A revolução do 25 de Abril de 1974 apanhou-o já em Portugal e, depois disso, o homem mudou imenso. Ao que se diz por aí, a revolução subiu-lhe à cabeça. Da noite para o dia o indivíduo foi sendo uma série de coisas. Foi-se metamorfoseando ao longo dos anos que se seguiram à referida revolução do 25 de Abril. Tornou-se um verdadeiro homem dos sete ofícios. Quer exemplos? O Câncio foi fundador de partidos políticos, gastrónomo (especializado em receitas de bacalhau, com livro publicado e tudo), economista, gestor público e privado, editor, ensaísta, escritor, fundador e professor de universidades privadas para a terceira idade, conselheiro disto e daquilo, apresentador de livros escritos por autores de segunda linha, como amanuenses e quejandos, enfim uma mão cheia de profissões e de actividades. Já sei, pela expressão do seu semblante, no que o Dr. Arnaldo Banza está a pensar. Está a lembrar-se daqueles problemas que Câncio Condottieri teve quando foi administrador de uma empresa pública lá para os anos noventa, ainda no tempo das vacas gordas. O Dr. Arnaldo Banza se calhar pensa que eu já estava esquecido desses episódios. Não, não me esqueci. Você tem razão. Parece que as coisas não correram lá muito bem a Câncio Condottieri nesse passo da sua vida e as culpas foram todas suas. O homem não fez a coisa por menos. Fez mau uso do cartão de crédito da empresa, tendo até comprado, entre outras coisas, roupa interior feminina, presumivelmente para a esposa, com o dito cartão de crédito. Roupa interior feminina? Sim, isso mesmo: cuecas, sutiãs e combinações. Vem tudo escarrapachado no jornal NOTÓRIO da época. O sujeito nunca respondeu às imputações que esse periódico lhe fez e acabou pouco tempo depois, ingloriamente e no maior dos silêncios, por se demitir do lugar. Quem cala, consente, lá diz o ditado popular e com muita razão." 

     "Bem, mas isso agora são águas passadas e, além disso, já pouca gente se lembra das travessuras desse cavalheiro. Aliás, as nossas relações com Câncio Condottieri nunca se interromperam e por isso servimo-nos dele e da Olinda Leão agora para nos arranjarem um escritor-fantasma, que irá escrever o romance em nome de Guilherme de Freitas. A nossa embaixada encarregou-se de os contactar, ao Câncio e à Olinda, e está tudo a postos. Só falta o Dr. Arnaldo Banza partir para Lisboa e ir fazer a parte que lhe cabe. Que parte? Irá ter as conversas que forem necessárias com o escritor-fantasma (escolhido pelos nossos amigos Câncio e Olinda) e pô-lo ao corrente, em linhas gerais, de todo o conteúdo do romance, coisa que, bem entendido, só o meu amigo está em condições de fazer. Não é por acaso que Você se especializou nessa obra, que pelos vistos nunca existiu, de Guilherme de Freitas. Com esses elementos acerca do livro, o nosso escritor-fantasma porá de imediato mãos à obra e ao fim de algum tempo teremos atingido o nosso objectivo, ou seja, teremos o romance No Reino do Lamaçal escrito e publicado. Aliás quem se irá encarregar da edição da obra é o nosso amigo Câncio Condottieri." 

      "Meu caro Dr. Arnaldo Banza, prepare-se para partir para Lisboa o mais depressa possível e ir colaborar na ressurreição desse romance que Vocé já  tinha dado por morto. Escusado será dizer que tudo o que aqui foi dito é estritamente confidencial e deverá ser considerado segredo de Estado. Nesse sentido, a notícia que irá ser a partir de agora divulgada pela comunicação social é a de que o original do romance No Reino do Lamaçal  foi efectivamente encontrado, tal como estava previsto, e que esse original vai ser tratado por si, Dr. Arnaldo Banza, com vista à sua publicação com a maior brevidade. Vamos contar uma história completamente diferente da real e verdadeira. Vamos contar a nossa história. Não há tempo a perder e, por outro lado, fique ciente do seguinte: o Governo saberá recompensar devidamente aqueles que nesta hora difícil já deram e vierem a dar o melhor de si em prol da honra e do bom nome da nossa Pátria. Vou terminar voltando a citar um ditado conhecido e cheio de sabedoria: Os amigos certos conhecem-se nas horas incertas."

     De facto, Arnaldo Banza viajou para Lisboa uma semana depois e, uma vez chegado à capital lusa, cumpriu rigorosamente todas as indicações que levava quanto aos contactos a estabelecer a fim de o romance No Reino do Lamaçal ser escrito por um escritor-fantasma e, logo a seguir, publicado. A publicação e apresentação do livro ocorreram dois anos depois, nas circunstâncias que já foram relatadas, e porque os leitores as conhecem muito bem, não há mais nada a acrescentar a tal respeito.

     Entretanto, e após uma longa viagem em espírito pelo passado, regressei ao presente. A sala onde tivera lugar a apresentação do romance No Reino do Lamaçal, supostamente da autoria de Guilherme de Freitas, esvaziara-se sem eu ter dado por isso. Umas empregadas preparavam-se para proceder à limpeza do espaço e arrumação do mobiliário provavelmente para o lançamento de mais um livro ainda nessa mesma tarde. Deixei o lugar em direcção à saída do centro comercial. Pelo caminho notei que os altifalantes do LUXOR emitiam a magnífica voz de Shirlley Bassey, interpretando More (Riz Ortolani & Nino Oliviero), canção-tema de MUNDO CÃO, filme italiano de 1962, da autoria de Paolo Cavara, Gualtero Jacoppeti e Franco Prosperi. FIM

 

 

     NOTA FINAL

     A história acabada de contar é pura ficção. Por isso, qualquer semelhança com pessoas e as mais diversas situações, nela retratadas, é mera coincidência. Pura ficção, disse eu? Se non è vero, è bene trovato.       

                           

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

               

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Quarta-feira, 24 de Maio de 2017

CADERNOS DO SUBTERRÂNEO (2)

 

 

NO REINO DO LAMAÇAL  (o romance que nunca existiu)

 

SEGUNDA PARTE

 

       Depois do mencionado anúncio informal de que Guilherme de Freitas estava a escrever um romance, e por ele transmitido a um dos seus amigos e confidentes, numa noite de libações, a notícia correu célere, primeiro pela cidade, depois pelo país e, logo a seguir, pelo mundo - Guilherme de Freitas estava a escrever um livro. O que, não é excessivo repeti-lo, deixava bastante orgulhosos os escolhidos para tal confidência e, entre os quais, muito modestamente se contava Arnaldo Banza. E também é preciso que se diga que foram esses poucos confidentes que trataram de espalhar afanosamente essa boa nova pelo mundo.

       Voltando à apresentação do livro,  Arnaldo Banza ainda acrescentou que, em face dos valiosos elementos que foi colhendo aqui e ali acerca da vida e obra de Guilherme de Freitas, mas também nas inúmeras conversas havidas com este, ficou a dispor de material mais do que suficiente para escrever a biografia desse escritor, a qual já estava de resto em adiantada fase de preparação. Mais ainda: foram esses contactos que lhe permitiram saber que Guilherme de Freitas desejaria ter na sua sepultura um epitáfio e o epitáfio por ele congeminado traduz bem o seu espírito sábio, irónico e simultaneamente humilde. Eis o epitáfio desejado por Guilherme de Freitas, que não só consta da sua pedra tumular, mas também da epígrafe do romance que ora é lançada: Vós, que disputais o Mundo, podeis dormir descansados: tendes menos um concorrente. 

     Arnaldo Banza deixou quase para o fim a questão talvez mais importante ou (porque não?) talvez a mais emocionante: mal foi conhecida a notícia da morte de Guilherme de Freitas, Arnaldo Banza recebeu uma mensagem com carácter de urgência para se apresentar perante o primeiro-ministro do seu país. A razão dessa audiência tinha a ver com a necessidade de se formar quanto antes uma comissão que teria como objectivo recolher, estudar e publicar todo o espólio literário de Guilherme de Freitas, com particular atenção no seu falado romance No Reino do Lamaçal. Tal comissão, que foi prontamente constituída por Arnaldo Banza, seu chefe, e mais dois artistas de mérito comprovado (os poetas Tolentino Fortes e Aguinaldo Alcântara), entrou em funções no dia imediato ao do funeral de Guilherme de Freitas e a sua primeira acção foi dirigir-se à última morada conhecida desse malogrado escritor, em busca dos seus papéis. E mal entraram nessa residência, mais particularmente naquele que havia sido o quarto de dormir do defunto, os olhos ávidos dos três investigadores incidiram em simultâneo sobre uma grande arca, colocada a um canto do mesmo aposento. Instintivamente pularam em direcção a esse baú e abriram-no de imediato. Ficaram boquiabertos perante a enorme quantidade de papéis que lhes saltou à vista. A dita arca estava literalmente atulhada de papéis, uns, manuscritos e outros, dactilografados. Mas no cimo deles todos distinguia-se, pelo seu título claramente desenhado em letras de forma, o volumoso original do romance No Reino do Lamaçal.  Sem perda de tempo, os três homens retiraram-no do conjunto dos papéis e levaram-no consigo. 
      Confirmavam-se assim, e sem margem para qualquer dúvida, as informações que em vida Guilherme de Freitas havia dado acerca do romance que ele estava a escrever. Para posterior análise, estudo e publicação do seu valioso conteúdo, a arca foi fechada a cadeado e confiada à guarda de Arnaldo Banza. Naquele momento o que mais interessava aos membros da comissão era o original do romance No Reino do Lamaçal, cuja publicação era aguardada com uma certa expectativa pelo público em geral. Poucos dias mais tarde, começaram os trabalhos de estudar e pôr em ordem o original do citado romance para efeitos da sua publicação. Esta, como já foi dito, teve lugar cerca de dois anos depois.

      Entretanto, e dado o adiantado da hora, Arnaldo Banza passou finalmente a uma breve e sucinta análise do livro. Em seguida, pôs-se à disposição do público e dos jornalistas presentes para as perguntas da praxe,  próprias daquela circunstância, e às quais foi respondendo com a prontidão e sapiência expectáveis de um profundo conhecedor e especialista da vida e obra de Guilherme de Freitas. A sessão terminou com a venda do livro.

      Ao fundo da sala, guardando a mais completa discrição, encontrava-me eu, um dos que privaram de perto com o escritor cuja obra acabara de ser dada à estampa e que conhecia muito bem a vera história de tal livro. Convém frisar desde já que se trata de uma narrativa bastante diferente daquela que passou a ser a versão oficial do sucedido, e que passaremos a contar em seguida. Mas recuemos um pouco no tempo.

       Eu, o narrador desta história, tomara, na véspera conhecimento da publicação e lançamento do livro um pouco por acaso, ao dar acidentalmente com a vista num título que o diário lisboeta NOTÓRIO ostentava na última página e que rezava o seguinte:  Romance póstumo de Guilherme de Freitas lançado amanhã na livraria APMART, do Centro Comercial LUXOR. De imediato e cheio de curiosidade, comprei o dito periódico e inteirei-me de outros pormenores, sobretudo do nome do apresentador ou, melhor dizendo, dos nomes dos apresentadores do livro e também da hora a que o evento iria ocorrer. Lida a notícia na íntegra, decidi que no dia seguinte estaria também na livraria onde essa obra, cuja história, repito, conhecia muito bem, iria ser lançada. E assim fiz.

      Mas vamos por partes. Afinal de contas, e para começar pelo princípio, quem era ao certo Guilherme de Freitas? Guilherme de Freitas, tratado vulgarmente por senhor Guilherme, era um quadro superior da função pública, muito conhecido e muito respeitado na cidade e mesmo no país e também fora dele. Quando o conheci mais de perto, era já um homem na casa dos sessenta e tinha já fama de erudito e possuidor de grande cultura geral. Ninguém sabia ao certo quais eram as habilitações literárias do senhor Guilherme ou, pelo menos, as habilitações oficiais. Falava-se vagamente de um terceiro ano liceal e também vagamente obtido algures numa escola talvez secundária ou equivalente, há muito desaparecida num incêndio. Dado que com a escola se haviam também esfumado os seus arquivos e registos, não era possível atestar, em bases documentais credíveis, fosse o que fosse acerca dos seus antigos alunos. Estes, tal como o senhor Guilherme, para certificarem  os seus graus académicos, dependiam da palavra abonatória de terceiros, pública, comprovada e notoriamente idóneos, e constante de uma declaração escrita e notarialmente autenticada. Apesar das rigorosas formalidades dessas provas, elas, mesmo assim, não deixavam de suscitar dúvidas e desconfianças a muita gente. Não obstante foi com um papel desses que o senhor Guilherme, ainda um jovem de pouco mais de vinte anos, viu franqueadas as portas do funcionalismo público. Mas por causa disso e também em razão da sua cultura geral, ou da sua suposta cultura geral, o senhor Guilherme ficou definitivamente apodado de intelectual autodidacta, qualidade que ele, apesar de tudo e com alguma reserva, não enjeitava.

         Do que o senhor Guilherme mais gostava era de exibir os seus conhecimentos, uma característica, entre outras, muito própria dos autodidactas.A sua marca de água. Uma vez que não dispõem de qualquer diploma oficial que certifique os seus conhecimentos, e porque estes foram por definição obtidos por vias não académicas, os autodidactas vêem-se quase sempre na necessidade de terem de provar por si próprios tudo o que sabem, muitas vezes alardeando com alguma vaidade e em público tal sapiência. Os exames oficiais que lhes faltam, os autodidactas fazem-nos informal e casualmente perante as pessoas da rua, e não só, que os escutam. E, por causa disso, existe também uma certa irresponsabilidade da parte dos autodidactas quando assumem essas atitudes. Ao invés do que sucede com os (oficialmente) diplomados, a obrigação de provar documentalmente os conhecimentos não se aplica por razões óbvias aos autodidactas. Acerca  dos conhecimentos dos diplomados, falam os papéis ou os chamados certificados de habilitação literária. Isto é, em matéria de conhecimentos, os diplomados não têm de provar coisa nenhuma, exactamente por serem...diplomados. E, ao contrário do que sucede com os autodidactas, os diplomados são mais cuidadosos nas suas afirmações, sobretudo as proferidas em público, dado que sobre eles impende a enorme responsabilidade de um diploma, ou seja, do reconhecimento oficial das suas habilitações literárias, que em princípio não deve ser traído. Também por causa disso, muitas vezes os diplomados optam prudentemente pelo silêncio.

        Do que estava eu a falar? Agora, perdi-me. Ah, já sei: estava a falar de Guilherme de Freitas, da sua condição de autodidacta e da sua obsessivia necessidade de exibir a sua cultura ou aquilo que ele achava ser cultura. O homem falava - qual enciclopédia viva - com patente e pretensa autoridade sobre tudo e mais alguma coisa: das literaturas, das artes, das religiões, da História, da Filosofia, da política, da administração pública, enfim, de tudo. (Numa palavra: Guilherme de Freitas era uma espécie de "tudólogo" avant la lettre). Na sua voz forte e cavernosa, à qual ninguém conseguia ser indiferente, o senhor Guilherme passava o tempo a perorar. A perorar, convencendo ou tentando convencer os outros a todo o transe. Convencer os outros, sendo mais uma característica própria dos autodidactas, era o que o senhor Guilherme também fazia com zelo, esmero e pertinácia. Isto acontecia por via de regra em discussões acaloradas que o próprio provocava em espaços públicos, como esplanadas e cafés, e onde sabia que tinha ouvintes e espectadores garantidos. Em tais polémicas e sempre que avançava com um argumento de peso, ou por ele considerado de peso, o senhor Guilherme ficava a olhar para os circunstantes, esperando ver nas suas reacções faciais um qualquer apoio ou efeito positivo do mesmo argumento. O senhor Guilherme estava sempre no palco, fazendo da sua cidade e dos que o escutavam, e não eram poucos, a sua plateia permanente.

      Na mesma linha, o senhor Guilherme também apreciava imenso o exercício de pôr em causa ou de corrigir o que os outros afirmavam, ou ainda de pôr à prova o conhecimento dos outros, sobretudo o conhecimento daqueles cujas habilitações literárias eram comprovadamente superiores às suas. Tratava-se de autênticos desafios que o senhor Guilherme, enquanto autodidacta, lançava aos oficialmente instruídos e aos diplomados. Neste particular, os seus alvos preferidos eram os alunos liceais mais adiantados e mais aplicados, ou os licenciados com cursos superiores, que viviam na cidade ou que por lá passavam por uma razão ou por outra. De forma mais ou menos disfarçada, e às vezes a despropósito, o senhor Guilherme punha-lhes as questões mais diversas e aparentemente as mais complexas, tais como um texto em latim, ou noutra língua estrangeira, dos mais difíceis para ser traduzido para português; ou o contrário, ou seja, um texto em português para ser retrovertido numa qualquer língua estrangeira; dúvidas sobre a História Universal; nomes de escritores ou filósofos, dos mais em voga, acerca dos quais ele próprio nada sabia, mas dava ares de saber. Deixou por exemplo embatucado um pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia, ao perguntar a este se sabia o que era a doutrina quiliástica. Uma professora liceal de História ficou atrapalhada e sem palavras quando foi confrontada pelo senhor Guilherme com o pedido de definir a Anábase. A um oficial do exército  perguntou, sem obter qualquer resposta, se este conhecia o livro A Arte da Guerra, e a respectiva autoria. Uma outra professora liceal, esta de Inglês, deixou o senhor Guilherme com um sorriso irónico nos lábios quando, a pedido do nosso herói, traduziu a expressão Rock Around the Clock por Rock à Volta do Relógio. Em resumo: Guilherme de Freitas, além de ser autodidacta, e talvez por isso, era também um narcisista primário e impenitente, um homem desmedidamente dominado pelo amor-próprio, um homem permanentemente em busca de auto-afirmação e de autopromoção, e ele achava que só podia atingir esses desideratos exibindo-se de forma exuberante e impondo-se culturalmente aos outros, de preferência, em locais públicos e em presença de várias testemunhas.

      E foi provavelmente também por estas razões que, numa dada ocasião, Guilherme de Freitas começou a informar os seus amigos mais próximos de que estava a escrever um romance. Sim, um romance. Sim, uma obra de ficção. Isto passou a acontecer em noites de bebedeiras e dissipações, mas que ele confirmava depois em momentos de sobriedade.

      Escrever e publicar livros constitui a aspiração máxima de qualquer autodidacta. É a sua prova cultural e intelectual definitiva. Sabendo hoje o que eu sei, e sem querer antecipar esta história, parece-me agora evidente que ao anunciar de forma insistente a várias pessoas do seu círculo de amizade que estava a escrever um romance, Guilherme de Freitas estava simplesmente a alimentar a sua enorme e irreprimível vaidade, a sua enorme vontade de dar nas vistas, de ser falado, de ser endeusado e idolatrado, só e apenas pelo simples facto de dar a conhecer que estava a escrever um livro. Tanto mais que não deu tal informação a uma ou a duas pessoas. Nem tão-pouco pediu confidencialidade. Confiou o seu plano a vários amigos e dava-o sempre como adquirido. E, para ser mais convincente, completava o quadro indo aos pormenores mais diversos e até mais pitorescos do livro. Ele sabia que os seus confidentes se encarregariam de espalhar a notícia. É um dado inquestionável que na altura ninguém pôs em dúvida a veracidade da informação de Guilherme de Freitas. Todos achavam que Guilherme de Freitas era homem bem capaz dessa proeza e de muito mais. Melhor ainda: pensaram e disseram que essa empreitada só pecava por tardia. Havia muito que se esperava uma iniciativa de tal magnitude da parte de Guilherme de Freitas. Insisto: ninguém duvidou da palavra de Guilherme de Freitas e todos se puseram credulamente à espera da publicação dessa sua anunciada criação literária. (Continua)           

       

 

 

 

 

 

     

                   

    

              

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

     

    

 

 

 

      

 

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Sábado, 29 de Abril de 2017

CADERNOS DO SUBTERRÂNEO (1)

NO REINO DO LAMAÇAL (o romance que nunca existiu)

 

PRIMEIRA PARTE

 

Vós, que disputais o Mundo, podeis dormir descansados: tendes menos um concorrente.

Epitáfio de Guilherme de Freitas, o herói da história que a seguir se vai contar.

 

     A pouco e pouco a sala enche-se de homens e mulheres de todas as idades. É uma plateia constituída por assistentes, potenciais leitores, convidados e jornalistas. E também por simples curiosos. A entrada é livre. Todos, devidamente acomodados, estão virados para uma mesa rectangular, colocada ao fundo da sala, onde se sentam três homens, e em cima da qual se vêem pilhas do mesmo livro. Aproxima-se das três da tarde de um frio sábado de Dezembro.

      Estamos na livraria APMART, do Centro Comercial LUXOR, e o motivo desta reunião de pessoas prende-se com o lançamento do romance No Reino do Lamaçal, uma obra póstuma de Guilherme de Freitas, escritor falecido há cerca de dois anos. A apresentação está a cargo do seu conterrâneo, o conhecido intelectual e literato, Arnaldo Banza, que, aliás, prefaciou e anotou o dito livro. Do lado esquerdo de Arnaldo Banza, senta-se o editor Câncio Condottieri, e no lado oposto, Tolentino Fortes, poeta e um dos muitos ex-amigos e confidentes de Guilherme de Freitas.

      O apresentador foi introduzido pelo editor Câncio Condottieri. Este é um homem bem entrado na idade, com toda a certeza nos seus oitenta e muitos; gordo e balofo, com um triplo queixo que lhe desce em cascata pelo pescoço abaixo até se meter no colarinho apertado. A tez é pálida; os cabelos, brancos e cada vez mais raros; os bigodes farfalhudos, embora também encanecidos, ainda fazem lembrar as suas origens no tempo -- os anos setenta do século XX. Câncio Condottieri, tal como os seus bigodes, é um homem petrificado no tempo. (Mais à frente voltaremos a Câncio Condottieri, com pormenores adicionais relativos ao seu trajecto pessoal, político, académico e profissional).

      Câncio Condottieri começou por frisar a circunstância de Arnaldo Banza, o apresentador do livro; ser um grande conhecedor e especialista da obra de Guilherme de Freitas, muito em particular do romance que ora se lançava. Câncio Condottieri fez também questão de sublinhar que, sobre esse romance, Arnaldo Banza muito havia escrito, e também falado em palestras, debates, colóquios, congressos, seminários, um pouco por todo o lado: na rádio, na televisão, em jornais; nas empresas (para patrões e trabalhadores), nas escolas básicas, nas secundárias, e sobretudo nas universidades (nos três casos, para professores e alunos); no seu país natal e por esse mundo fora. Textos de Guilherme de Freitas preenchiam agora selectas literárias do ensino secundário do seu país, ao lado de respeitáveis confrades. Tudo por empenhada iniciativa de Arnaldo Banza. Este chegou mesmo a propor e a patrocinar, com o apoio discreto do governo do seu país, a candidatura de Guilherme de Freitas a dois importantes prémios internacionais de literatura, prometendo em ambos os casos, a indicação futura das obras de Guilherme de Freitas, logo que elas fossem publicadas. Este pequeno detalhe, a falta de obras literárias conhecidas de Guilherme de Freitas, inviabilizou por completo a apreciação pelos júris da sua candidatura a tais prémios. Apesar disso, Arnaldo Banza ainda pediu com alguma insistência o adiamento da atribuição dos referidos galardões até que os livros de Guilherme de Freitas viessem a lume, mas os seus pedidos nem sequer receberam qualquer resposta.

     Já não foram tão mal sucedidas as diligências de Arnaldo Banza no sentido de ver Guilherme de Freitas admitido, primeiro como membro da Associação dos Escritores e posteriormente como sócio da Academia das Letras do seu país. A despeito de se desconhecer a Guilherme de Freitas qualquer prova da sua alegada  qualidade de escritor, isto é, nem artigos, nem ensaios e, muito menos, um ou outro livro publicado, as direcções daquelas ilustres e prestigiadas agremiações não hesitaram um segundo que fosse na decisão de deferir um tão honroso pedido de admissão no seu seio. Aliás, Guilherme de Freitas integrava uma longa lista de escritores, sem qualquer obra publicada, que as mesmas confrarias aceitavam como membros. Muitos desses escritores  teriam quando muito publicado, em jornais e revistas, um ou outro poema, um ou outro conto, um ou outro artigo, e isso bastava para serem reconhecidos como escritores  e com direito a figurarem em antologias e tudo.

    Câncio Condottieri fez ainda notar que se Guilherme de Freitas era hoje um escritor conhecido e reconhecido no plano internacional, apesar de No Reino do Lamaçal ser uma obra póstuma e a primeira e única a ser publicada desse autor, tal facto resultava em grande medida do trabalho esforçado e meritório de divulgação que Arnaldo Banza levara a cabo, acerca de Guilherme de Freitas, muito antes e também depois do falecimento deste último.

     Mesmo sem a publicação dessa obra e, portanto, sem sequer a ter lido, Arnaldo Banza conhecia No Reino do Lamaçal como à palma da sua mão. Isto sucedia porque, entre outras razões, foram incontáveis as conversas que os dois intelectuais e literatos haviam tido e em que o escritor punha o seu confrade a par de todos os pormenores do livro, dos quais, de resto, só ele, o autor, sabia ou podia saber, com conhecimento de causa. Deste modo Arnaldo Banza foi-se inteirando de tudo acerca desse monumento literário que era e é No Reino do Lamaçal  -- do enredo completo às passagens mais significativas, sem esquecer quaisquer minudências, passando pela enumeração e descrição das personagens, os seus nomes, as suas profissões, as suas idiossincrasias, as suas relações amorosas, pessoais, familiares, etc, etc. Arnaldo Banza também estava ciente do número de capítulos e de páginas do livro. Ou seja, e concretizando, a obra distribuia-se por 350 páginas, estas divididas por um prólogo, vinte e cinco capítulos e um epílogo. Todas estas preciosas indicações teriam sido registadas mentalmente ou por vezes em apontamentos escritos por Arnaldo Banza. E tudo isto permitiu que Arnaldo Banza pudesse falar e escrever com enorme autoridade sobre Guilherme de Freitas e a sua notável criação que era No Reino do Lamaçal. E convém que fique claro: pudesse falar e escrever muito tempo antes de tal obra ter sido dada à estampa e sem nunca, nem ele nem ninguém, lhe terem posto a vista em cima.

     À medida que ia ouvindo o que o editor Câncio Condottieri dizia a seu respeito, Arnaldo Banza aprovava essas palavras com movimentos afirmativos da cabeça e, vá lá, com um indisfarçável orgulho, patente no brilho intenso dos seus olhos e no leve sorriso dos seus lábios. Arnaldo Banza parecia um homem feliz.

     Seguiu-se a intervenção do apresentador do livro. Arnaldo Banza começou por se referir à longa e fiel amizade que o ligou ao falecido Guilherme de Freitas. Falou das confidências que o escritor lhe fazia, dos seus altos e baixos da vida, dos seus pequenos problemas pessoais e profissionais, até dos seus amores falhados. A este propósito, e num pequeno aparte, acrescentou que Guilherme de Freitas foi até morrer uma espécie de celibatário militante e homem avesso a todo e qualquer tipo de ligações permanentes a mulheres. Viveu sempre solitário e entregue a convívios muito seleccionados. E viveu também afastado e um pouco à margem, ou aparentemente à margem, da sociedade, residindo quase sempre em casas modestas e situadas em bairros suburbanos pobres e mal-afamados da capital.

      Havia contudo um lado um tanto sombrio em Guilherme de Freitas que Arnaldo Banza, por amor à verdade, mas com um certo constrangimento, não podia omitir. Tratava-se das relações de Guilherme de Freitas com o álcool, ou, melhor dizendo, da sua dependência das bebidas alcoólicas, um vício que quase lhe arruinou a vida pessoal, profissional e literária. E que, bem vistas as coisas, poderia ter estado na origem da sua morte inesperada e um tanto precoce. E era em noites regadas pelo álcool que Guilherme de Freitas transformava os seus interlocutores e companheiros de boémia em confidentes quase íntimos.

     E foi precisamente numa dessas noites que Guilherme de Freitas de repente começou a anunciar que estava a escrever um romance. (Tratava-se de mais uma das suas confidências e que, por razões óbvias, deixava os seus interlocutores vaidosos e cheios de orgulho. Sim, não era qualquer um que se podia gabar de ser amigo e confidente de Guilherme de Freitas!) Este, depois de proclamar que estava em curso o seu projecto de escrever e publicar um romance, acrescentava acto contínuo e invariavelmente que o livro iria ser uma contundente sátira social e política, que iria arrasar de alto a baixo a sociedade do seu país, sobretudo a sociedade da capital, que ele conhecia muito bem e com a qual há muito almejava um ajuste de contas. Sim, isso mesmo, um  impiedoso ajuste de contas com os hipócritas, os cínicos, os falsos, os oportunistas, os videirinhos, os vira-casacas, os colaboracionistas, os vendidos, os difamadores, os caluniadores, os sacadores de reformas portuguesas, os amanuenses com pretensões a escritores, as enfermeiras com pretensões a romancistas, enfim, toda essa fauna que abundava na sua terra, que pululava à sua volta e pela qual sentia um enorme desprezo. E, como se tudo isto não bastasse, tratava-se, segundo Guilherme de Freitas, de um povo de pobres, atrevidos e mal-agradecidos! Por isso tudo decidiu desde o início dar a essa obra um título forte e impressivo e sem esquecer que uma certa originalidade seria obviamente indispensável. Numa palavra, seria  um título à altura das intenções satíricas e sarcáticas do livro. Em consequência, o título escolhido era nada mais, nada menos do que No Reino do Lamaçal, título que, segundo o próprio autor, dizia tudo. E Guilherme de Freitas completava a confidência, dando a saber os seus planos e o mais veemente desejo de o livro ser apresentado em primeiríssima mão na Cidade Antiga. Na Cidade Antiga? Sim, nessa mesma. E porquê na Cidade Antiga? Porque seria uma justa homenagem que iria prestar à primeira capital do seu país e berço sagrado da nacionalidade. Isto sem esquecer a sua condição de Património da Humanidade, muito recentemente reconhecida pela UNESCO, e que deixou envaidecidos todos seus compatriotas e, por maioria de razão, todos os dirigentes políticos e partidários do país, sem qualquer excepção, do Governo e da oposição. E Guilherme de Freitas costumava lembrar que, nessa precisa ocasião, e logo que a notícia foi conhecida, o mais alto magistrado da Nação chegara mesmo a interromper os seus afazeres quotidianos para, inesperadamente, pelas onze horas da manhã de uma terça-feira, se dirigir ao país, pela rádio e televisão, em discurso inflamado e comovido; discurso em que foi exaltada a grandeza da pátria e a grandeza dessa jóia arquitectónica, desse manancial inesgotável de relíquias arqueológicas, mundialmente conhecido e que constitui a Cidade Antiga. (Continua)  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

       

 

 

 

 

 

 

 

 

     

 

 

 

 

          

 

 

 

 

           

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Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2017

19ª. EPÍSTOLA DE UM ALEMÃO AOS MERIDIONAIS DA EUROPA

    Citando e homenageando o grande Fiódor Dostoiévski (1821-1861), a propósito dos 150 anos da publicação de um dos seus mais famosos romances, O Jogador (1867).

 

     AS PROFECIAS DE DOSTOIÉVSKI

 

- Pavlíchev tinha uma mente clara e era cristão, um verdadeiro cristão - disse de repente o príncipe. - Como é que podia entregar-se a uma crença...não cristã? Porque o catolicismo é a mesma coisa que uma crença não cristã! - acrescentou repentinamente, com brilho nos olhos, passando os olhos por todos, mas sem olhar para ninguém.

  - É um exagero - murmurou o velhinho e olhou, surpreendido, para Ivan Fiódorovitch.

  - Como é que o catolicismo é uma crença não cristã? - virou-se na cadeira Ivan Petrovitch. - Então que crença é?

  - É, em primeiro lugar, uma crença não cristã! - voltou a falar, numa extrema emoção e com demasiada aspereza, o príncipe.

  - Isto, em primeiro lugar. Em segundo lugar, o catolicismo romano é pior do que ateísmo, é essa a minha opinião! Sim! A minha opinião! O ateísmo apenas propaga o zero, mas o catolicismo vai mais longe: apregoa um Cristo deturpado, caluniado e profanado por ele próprio, um Cristo ao contrário! Prega o anticristo, juro-lhes, juro-lhes! É a minha convicção pessoal, desde há muito, e tem-me atormentado...o catolicismo romano defende que sem um poder estatal universal a Igreja não sobreviverá na terra e grita: non possumus! A meu ver, o catolicismo romano nem sequer é uma crença, mas uma mera continuação do Império Romano do Ocidente, e tudo no catolicismo está submetido à ideia do Império, a começar pela fé. O papa apoderou-se da terra, do trono terrestre, e pegou na espada; então, a partir do momento em que o fez, tudo vai nesse sentido, só que o catolicismo acrescentou à espada a mentira, a manha, o embuste, o fanatismo, a superstição, a malfeitoria, tem brincado com os sentimentos mais profundos do povo, mais autênticos, mais ingénuos, mais ardorosos, tem trocado tudo por dinheiro, tudo, pelo ignóbil poder terreno. Não será isso uma doutrina do anticristo? O ateísmo provém dele, do próprio catolicismo romano! O ateísmo começou, antes de mais, neles próprios: seria possível ter fé naquilo deles? O ateísmo reforçou-se com a repugnância causada por eles, é fruto da falsidade e da impotência espiritual deles! Ateísmo! Entre nós só não têm fé aqueles estratos exclusivos que perderam a sua raiz, como magnificamente se exprimiu em tempos Evguéni Pávlovitch; mas na Europa já começaram a perder a fé enormes massas do próprio povo: primeiro, por obscurantismo e falsidade, mas agora já por fanatismo, por ódio à igreja e ao cristianismo ! (...)

   - Está a exa-ge-rar bas-tan-te - disse Ivan Petrovitch arrastando as palavras, aborrecido e, até, como se estivesse com vergonha de alguma coisa - na Igreja deles também há representantes dignos de todo o respeito e vir-tuo-sos... 

     - Não falo dos representantes individuais de uma Igreja. Falo do catolicismo romano na sua essência, falo de Roma. Como poderia a Igreja desaparecer por completo? Nunca o disse!

    - De acordo, mas tudo isso são coisas já sabidas e nem há necessidade...enfim, é antes uma prerrogativa da teologia...

   - Oh, não, não! Não só da teologia, pode crer que não! Tem mais a ver connosco, muito mais, do que o senhor supõe. Aí é que está o nosso erro essencial: é que nós somos incapazes de perceber que o assunto não é exclusivamente teológico!  Porque o socialismo também é fruto do catolicismo, da essência do catolicismo! O socialismo também é, juntamente com o seu irmão ateísmo, fruto do desespero, da oposição ao catolicismo no sentido moral, é um substituto do poder moral perdido pela religião, um substituto para saciar a sede espiritual da humanidade e a salvar, não com Cristo, mas com a violência! Também é libertação pela violência, também é unificação pela espada e pelo sangue! "Não te atrevas a ter fé em Deus, não te atrevas a ter propriedade, não te atrevas a ter individualidade; la fraternité ou la mort, dois milhôes de cabeças!"

    Conhecê-los-eis pelos seus actos, foi dito! E não pensem que tudo isso seja assim tão inocente para nós. Oh, temos de oferecer resistência, o  mais depressa possível! É preciso que resplandeça, em resposta ao Ocidente, o nosso Cristo, o Cristo que nós guardamos e que eles nem sequer conheceram! Em vez de cairmos servilmente nas armadilhas dos jesuitas, temos de lhes fazer frente, opor-lhes a nossa civilização russa, não permitir entre nós o sermão deles, um sermão de toda a elegância, como alguém acabou de dizer aqui...

   Quem assim fala é o príncipe Míchkin, o alter ego de Dostoiévski e protagonista do romance O Idiota (1869), pgs. 562/564, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Editorial Presença, 1ª. Edição, Julho de 2001. 

 

  

 

     (...) No fundo, estar ao serviço de Portugal e dos portugueses e não de qualquer grupo, ser Presidente da República e não presidente da direita ou da esquerda, ser reserva de último recurso em caso de crise grave. (...)

   Aníbal Cavaco Silva, in Quinta-feira e Outros Dias (Porto Editora)  

 

    Caríssimos irmãos do Sul

   

     PROFESSOR, PROFESSOR, veja lá no que se está a meter...e a nós também.  

 

    Senhor Presidente da República, pare um pouco para descansar, para pensar, para reflectir, para meditar. Não se envolva tanto. Não opine tanto. Não comente tanto. Não se exponha tanto. Não apareça tanto. Não intervenha tanto. E sobretudo não jogue tanto. Modere-se. Resguarde-se. Recate-se. Defenda-se. Acautele-se. Poupe-se. Não se esqueça que Vossa Excelência é arbitro, é moderador, é apaziguador. Não, não é jogador. Por isso não deve entrar no campo. Por isso não deve envergar nenhuma camisola. Por isso não deve torcer por nenhuma equipa. Por isso não deve tomar partido. Por isso não deve encostar-se nem ao governo nem à oposição. Ninguém espera isso de Vossa Excelência. Muito menos o governo e a oposição. Muito menos os portugueses. Muito menos os que votaram em Vossa Excelência. Por isso Vossa Excelência não deve terçar armas pelo governo, nem explicar as medidas que o governo toma, como fez na sua entrevista à SIC, no primeiro aniversário do mandato de Vossa Excelência. Sim, foi patética essa sua atitude. Sim, foi mesmo ridículo esse seu gesto. No dia seguinte, Vossa Excelência ainda tentou corrigir o tiro mas foi tarde de mais.

   O Presidente da República é um general e os generais, por razões óbvias, não entram directamente nos combates. Os generais têm o dever de apenas assumir o alto comando e a direcção das tropas. Mas Vossa Excelência não tem feito outra coisa que não seja contariar tal dever dos generais. Vossa Excelência não tem feito outra coisa que não seja estar ora de granada na mão, ora de baioneta calada, ora de dedo no gatilho. O que, aliás, Vossa Excelência parece fazer com um deleite quase voluptuoso.

    Vossa Excelência diz que é dever do Presidente da República criar condições para que o governo governe. Certíssimo. Correctíssimo. Justíssimo. Ninguém põe isso em causa. Mas, senhor Presidente, criar condições ao governo é uma coisa e tomar partido pelo governo é outra totalmente diferente. Criar condições ao governo é uma coisa e responder pelo governo é outra totalmente diferente. Criar condições ao governo é uma coisa e ser fantoche de António Costa é outra totalmente diferente.

    Senhor Presidente da República, Vossa Excelência está a pôr a ridículo o papel institucional que cabe ao mais alto magistrado da nação. Vossa Excelência está a provocar o seu próprio desgaste. No entanto, e como sabe mais do que ninguém, Vossa Excelência tem de se preservar e de preservar a solenidade e o distanciamento institucionais necessários aos momentos em que Vossa Excelência terá de arbitrar, de moderar e de apaziguar. Lá está: aos momentos em que Vossa Excelência terá de ser reserva de último recurso em caso de crise grave. E Vossa Excelência nunca será tal coisa se continuar a vir a terreiro em defesa de um governo como o de Antócio Costa. E porquê? Para além de tudo o mais, porque o governo de António Costa é um governo de comédias e de enganos. Um governo de meras aparências e de ziguezagues. Um governo de mentiras e de embustes. Em suma: um governo que pode comprometer irremediavelmente quem o defende e quem a ele se cola. 

    Quer exemplos? O ministro Mário Centeno, só por si, e o dossiê Caixa Geral de Depósitos (CGD) são exemplos magníficos. Tal como disse a líder do CDS, Drª. Assunção Cristas, é mais do que evidente que o ministro Mário Centeno não diz a verdade quando afirma que não prometeu a António Domingues a desobrigação deste e dos outros administradores da CGD de apresentarem ao Tribunal Constitucional a declaração de rendimentos e de património, como condição sine qua non para que aceitassem liderar esse banco público.

    Não diz a verdade, primeiro, porque tais condições constam, com toda a  clareza, dos emails que António Domingues dirigiu ao ministro Mário Centeno.

   Não diz a verdade, segundo, porque, de acordo com as suas próprias palavras, António Domingues demitiu-se do lugar de presidente da CGD exactamente por ter sido obrigado pelo Tribunal Constitucional a apresentar a mesma declaração de rendimentos e de património.

    Não diz a verdade, terceiro, porque as explicações que Mário Centeno produziu na sua conferência de imprensa trapalhona e titubeante só vieram reforçar as suspeitas que já havia a tal respeito. Sim, na sua conferência de imprensa, Mário Centeno, em vez de clarificar, adensou as dúvidas que já havia acerca deste assunto. Com a peregrina expressão erro de percepção mútuo, Mário Centeno pensou que convenceria os portugueses e o Presidente da República da bondade da sua posição e dos seus argumentos. Aconteceu precisamente o contrário. O que, aliás, ficou de certo modo demonstrado no comunicado do Presidente da República, tornado público poucas horas depois da citada conferência de imprensa, e no qual tal expressão é reproduzida de forma no mínimo irónica.

     E não diz a verdade, quarto, porque o acordo de Mário Centeno às mesmas condições consta preto no branco nas mensagens de telemóvel (SMS) que o ministro das Finanças enviou a António Domingues, mensagens essas que circulam por aí em quase todos os jornais e televisões (e, ao que parece, não na Assembleia da República) e das quais o Presidente da República tomou conhecimento directo.

    Senhor Presidente da República, falando agora só de Mário Centeno, é claríssimo que esse ministro é uma bomba-relógio em potência. Sim, Mário Centeno, além de mau ministro, é um homem imprevisível. Nunca se sabe o que dele pode vir a qualquer hora. Tem sido assim desde que este governo tomou posse. Mário Centeno falhou em todas as suas previsões económicas. Falhou nas previsões constantes do seu tristemente célebre estudo económico que lhe serviu de passaporte para fazer parte deste governo e falhou nas previsões dos dois orçamentos do Estado da sua responsabilidade. Falhou junto do BCE nos primeiros administradores da Caixa Geral de Depósitos por si propostos àquela autoridade europeia (e que foram inapelavelmente chumbados). Mas há mais. Os bons resultados do défice e do crescimento não são nenhum milagre económico. Têm, sim, a ver menos com a actuação directa do governo e do seu ministro das Finanças, e mais com factores meramente conjunturais, como são o boom do turismo, nomeadamente em Lisboa e no Porto, a implementação do perdão fiscal e a quase total ausência do investimento público. (Ou seja, com a implementação, embora disfarçada, do famigerado plano B). E apesar desse défice e crescimento tão celebrados, a verdade é que a dívida pública não parou de crescer em 2016, tendo atingido, só nesse mesmo ano, a cifra estratosférica de 9.500 milhões de euros. Pedir dinheiro emprestado é a sina dos países em que ninguém aposta, em termos de investimento privado, e onde as exportações praticamente não existem. Tudo por falta de confiança num governo socialista e, ainda por cima, suportado pela extrema-esquerda parlamentar.

    Senhor Presidente da República, vamos terminar esta epístola como a começámos, isto é, pelo seu título: PROFESSOR, PROFESSOR, veja lá no que se está a meter...e a nós também.                                              

 

 

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Domingo, 30 de Outubro de 2016

18ª EPÍSTOLA DE UM ALEMÃO AOS MERIDIONAIS DA EUROPA

    Citando e homenageando o grande Nikolai Gogol (1809-1852), nos 180 anos da publicação de uma das suas obras-primas, a peça de teatro, O Inspector-Geral (1836):

 

     Feliz o viajante que após longa e incómoda jornada, durante a qual suporta o frio, a chuva, a lama, o tilintar contínuo dos guizos, as constantes reparações nas estradas, as sempiternas zaragatas dos cocheiros  com os ferradores, chefes de posta ensonados e demais canalha dos caminhos, volta a ver enfim o telhado familiar, as luzes e os lugares que conhece, as pessoas que estima e acorrem calorosas, a recebê-lo, e a ouvir as alegres exclamações dos criados, as turbulentas correrias das crianças, os relatos de tudo quanto se passou na sua ausência, estes entrecortados de abraços e beijos tão ardentes que varrem logo da memória todos os desgostos sofridos. Como é feliz o chefe de família que regressa ao lar! E como é desventurado o celibatário!...

     Feliz também o escritor que não perde tempo com personagens medíocres, cuja banal realidade impressiona e entristece, e se consagra à pintura das almas nobres, orgulho do género humano; que na sucessão das imagens que passam continuamente diante dos seus olhos, apenas escolhe as naturezas excepcionais; que jamais falseia o tom elevado da sua inspiração nem desce ao nível dos humildes mortais, e pode planar sempre longe da terra, nas regiões do sublime. O seu destino magnifico é duplamente invejável: encontra-se como em sua casa no meio desses seres de eieição e ao mesmo tempo os ecos da sua glória ressoam em todo o universo. Lisonjeia e encanta os homens encobrindo-lhes a realidade, dissimulando as taras do género humano, para lhes mostrar somente o que é grande e belo. As multidões aplaudem-no, escoltam o seu carro de triunfo, proclamam-no o maior poeta entre os poetas, afirmam que o seu génio voa mais alto que todos os outros génios do mundo, tal como a águia plana acima de todas as aves da criação. As jovens de coração ardente perturbam-se ao ouvir o seu nome e lágrimas de simpatia brilham em muitos olhos. Ninguém o iguala em poder, é um Deus.

    Bem diferente é a sorte do escritor que ousa remexer a vasa imunda das baixezas em que se afunda a nossa vida; que desce aos abismos das naturezas frias, mesquinhas, vulgares que a cada instante encontramos no decurso da nossa peregrinação terrena, por vezes bem amarga e rude, e que em traços impiedosos sublinham o que os olhos indiferentes se recusam a ver. Tal escritor não pode contar com os apausos populares, as lágrimas de reconhecimento, os ímpetos dum entusiasmo unânime; em nenhuma virgem de dezasseis anos os seus escritos conseguirão despetar uma paixão heróica; não terá tão-pouco o prazer de se entusiasmar com as suas próprias palavras; enfim não evitará que o julgamento hipócrita e superficial dos seus contemporâneos considere inferiores ou insignificantes as suas mais queridas criações, lhe atribua os vícios dos seus heróis e lhe negue alma, espírito e a chama divina do génio. Sim, porque esses contemporâneos negam-se a admitir que as lentes através das quais se espiam os movimentos dos insectos mais imperceptíveis valem tanto como aquelas que permitem observar o Sol e os planetas; não admitem também que é necessário um grande poder de penetração e compreensão para iluminar um quadro arrancado à vida abjecta e fazer dele uma obra-prima;  enfim não admitem que uma gargalhada poderosa valha tanto como um belo movimento lírico e que um abismo a separa do riso grotesco dos palhaços. Ao negarem estas verdades, os críticos contemporâneos põem a rídículo os méritos do escritor desconhecido que ficará sozinho no meio da estrada, sem que nenhum eco responda à sua voz. Austera é a sua carreira, amarga a sua solidão.

     Quanto a mim, um poder superior obriga-me a caminhar muito tempo ainda, lado a lado, com os meus estranhos heróis e a contemplar a vida, em toda a sua diversidade, através dum riso que por vezes dissimula as lágrimas. Ainda vem longe o tempo em que as ondas duma inspiração mais terrível, brotando do meu cérebro arrebatado pela chama sagrada, hão-de levar aos homens, trémulos de emoção, o majestoso estrépito doutras palavras.

     Adiante! Adiante! Para o diabo os cuidados que vincam e ensombram a fronte! Voltemo-nos para a vida, com os seus surdos tumultos e estridentes guizalhadas, e vejamos o que faz o nosso herói.

 

     In Almas Mortas, pgs. 161/163, tradução, prefácio e notas de José António Machado, Editorial Estampa, Ldª. (Colecção Ficções nº. 24) s/d.

    

      O PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA 2016 

      (DOZE MORTOS EM FÚRIA)

      Leão Tolstoi, Mark Twain, Marcel Proust, Virginia Woolf, Joseph Conrad, F. Scott Gerald, Robert Musil, Louis-Ferdinand Céline, James Joyce, Graham Greene, Vladimir Nabokov, Jorge Luis Borges, entre muitos outros, não foram contemplados com o Prémio Nobel da Literatura. Estes doze génios das letras têm razões de sobra para darem voltas no túmulo perante a atribuição este ano do mesmo galardão a Bob Dylan. E o resto são cantigas.               

 

     

 

 

Caríssimos irmãos do Sul

    

      DO VERÃO DO NOSSO DESCONTENTAMENTO AO ORÇAMENTO DO ESTADO PARA 2017 

      (POR ENTRE OS PINGOS DA CHUVA)

 

      Não, não vamos falar dos incêndios florestais, nem das falhas clamorosas (nessa oportunidade) da ministra da Administração Interna, nem das fracas prestações portuguesas nos Jogos Olímpicos, nem sequer das galpadas do secretário de Estado Fernando Rocha Andrade e outros. Também não vamos falar do segundo resgate do país que o ministro Mário Centeno quase admitiu ao contestá-lo de forma um pouco canhestra (dir-se-ia que a boca lhe fugiu para a verdade) e o Comissário Europeu Günter Oettinger previu sem qualquer hesitação ou rebuço; nem vamos falar do prémio Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, que defendeu outra vez a saída de Portugal da moeda única, deixando deliciados o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda; nem vamos falar do novo imposto municipal sobre imóveis que penalizará as casas viradas para o sol e as que desfrutam de boa vista; nem vamos falar do silêncio ruidoso de Arménio Carlos, de Ana Avoila e de Máio Nogueira, em resumo, do mutismo gritante da Intersinsical e dos seus sindicatos, ao que parece, irremediavelmente perdidos na tradução. Não, não vamos falar de nada disso.

      Vamos, sim, falar de coisas bem mais comezinhas, bem mais triviais. Coisas que deixam qualquer povo muito orgulhoso. Sim, vamos falar do crescimento económico, que não arranca; dos investimentos, que não aparecem; das exportações, que deram sumiço; das importações, que aumentaram; do consumo privado, que era para crescer (por efeito das reversões dos salários dos funcionários públicos e das pensões), mas não cresceu; da dívida pública e privada que disparou e da banca que continua em crise aguda embora não pareça.

     Numa palavra, vamos falar do Verão do nosso descontentamento e do Orçamento do Estado para 2017. E porquê? Porque o programa das esquerdas que sustentam o governo falhou redondamente. (Onde vai o programa inicial de Mário Centeno?  Ninguém sabe.)

      Nada aconteceu que justificasse a coligação das esquerdas que nos governa. Pelo contrário, falhou tudo. A austeridade, cuja página António Costa disse querer virar, mantém-se intacta entre nós, não através dos impostos directos, que, aliás, não baixaram, nem vão baixar, mas agora via impostos indirectos que  sobrecarregam e vão continuar a sobrecarregar a classe média tanto ou mais do que aqueles. Que o digam os automobilistas, os consumidores de bebidas alcoólicas, os fumadores e os clientes bancários, para não irmos mais longe.

    Grande parte do que se diz nesta epístola está rigorosamente em linha com as avaliações negativas que diferentes organismos ou entidades nacionais e internacionais fizeram mais ou menos recentemente de Portugal, e, por isso, e pelo que afirmam essas organizações, António Costa continua a ser um homem encurralado. Um homem encurralado? Sim, um homem encurralado. E por quem? Por toda a gente.  Pela UTAO (Unidade´Técnica de Apoio Orçamental),  pelo CFP (Conselho das Finanças Públicas), pelo BdP (Banco de Portugal), pelos partidos da oposição e do governo, pelo FMI (Fundo Monetário Internacional), pela CE (Comissão Europeia), pelo Eurogrupo e pelas agências de notação financeira.

    Vejamos. O investimento caiu em coma profundo. Os nacionais não investem porque lhes falta o dinheiro e com os bancos acontece o mesmo. Quanto ao investimento estrangeiro, além de que a conjuntura internacional e europeia não é propícia a isso, é óbvio que ninguém de fora, com um mínimo de sensatez, vai arriscar num país cujo governo é suportado pela extrema-esquerda, isto é, por gente inimiga do capitalismo, das privatizações, da União Europeia, da moeda única, do Tratado Orçamental, e que defende a reestruturação (à sua maneira) da dívida pública portuguesa. Uma única palavra resume meridianamente as razões porque os potenciais investidores estrangeiros não apostam em Portugal: desconfiança. Sim, desconfiança, com todas as letras.

      É preciso ter sempre presente  que a desconfiança num país, para efeitos de investimento, pode resultar de múltiplas causas, mas pode óbvia e seguramente decorrer do que disse a deputada do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua (sempre essa donzela fatal), veementemente aplaudida pelos socialistas, salvo raras, conhecidas e corajosas excepções, a propósito de um possível novo imposto sobre o património: Do ponto de vista prático, a primeira coisa que temos de fazer é perder a vergonha de ir buscar dinheiro a quem está a acumular dinheiro. Não podemos ter vergonha de ter uma política social deste género. Cabe ao PS, se quer pensar as desigualdades, dizer o que pensa do sistema económico, do capitalismo financeirizado.  (O que é isto senão um assanhado ódio de classe? O que é isto senão um ataque descabelado à classe média? O que é isto senão um grito de desespero de quem não vê a receita fiscal aumentar pelas vias normais do crescimento económico e das exportações e só vislumbra como alternativa o assalto violento ao contribuinte? O que é isto senão uma vergonhosa verrina contra o sistema político, económico e social vigente no país há mais de quarenta anos? Tenham cautela, socialistas! Lá diz o ditado e com razão: quem se deita com crianças, amanhece borrado!).

     Uma vez que falta o investimento, as exportações inexistem e a economia não cresce, os resultados só podem ser estes: as receitas fiscais baixam e a dívida púbilca aumenta. E a tudo isto há que somar a travagem a fundo no investimento público em valor superior a mil e quinhentos milhões de euros (Mário Centeno chama-lhe cativações de verbas) com o objectivo quase obsessivo de o governo de António Costa situar o défice nos 2,5%, ou menos, do PIB e assim, por um lado, pagar as reversões e devoluções, e, por outro, merecer as boas graças da União Europeia, dos mercados e das agências de notação financeira. Leia-se: e assim poder o governo aquietar e amansar o Eurogrupo e afins. Ou dito ainda de outra  maneira: e assim poder o governo e os seus apoiantes da extrema-esquerda passar incólumes por entre os pingos da chuva. Tudo isso com graves consequências para os serviços públicos, designadamente, a Saúde, a Educação, a Justiça e os transportes colectivos de Lisboa e do Porto.

      No domínio financeiro, e depois dos resgates pelo erário público do BPN (seis mil mil milhões de euros), do Banif (três mil milhões), do Novo Banco (previsivelmente cinco mil milhões), assistiu-se ao espectáculo nada edificante da recapitalização da Caixa Geral de Depósitos (posta a esturricar em lume brando durante quase um ano). Tal recapitalização, cujos contornos ainda andam no segredo dos deuses, poderá vir a custar mais de cinco mil milhões de euros aos contribuintes portugueses, além do despedimento em massa de 2 500 trabalhadores que o mesmo banco terá  de efectuar, cumprindo assim as directrizes impostas pela União Europeia. A venda do Novo Banco continua em ponto morto e, neste caso, a União Europeia também exige, se o mesmo banco não for vendido, mais um despedimento em massa -- quinhentos trabalhadores. De um modo geral a banca continua ensombrada pelos fantasmas do crédito malparado, da descapitalização e do excesso de pessoal.

    Este é o retrato actual do país. O retrato da estagnação económica, social e política. O retrato da ausência total de reformas e de medidas susceptíveis  de tirar o país do marasmo em que caiu de há um ano para cá. O retrato que o Orçamento do Estado para 2017 em nada vai alterar, apostado que está simplesmente em agradar ao mesmo tempo a Europa e os partidos da esquerda radical que suportam o governo. Em suma: o retrato de um país que navega à vista e se encontra potencial e perigosamente à beira do caos.

   Sim, o Verão foi mesmo o Verão do nosso descontentamento e Orçamento do Estado para 2017 vai ser o seu espelho e a sua continuação. 

 

         CARTA ABERTA AO SENHOR PRESIDENTE DA CAIXA GERAL DE APOSENTAÇÕES, COM O DEVIDO CONHECIMENTO DO SENHOR MINISTRO DO TRABALHO, SOLIDARIEDADE E SEGURANÇA SOCIAL.

 

        (UMA QUESTÃO DE LISTAS)

 

         A Caixa Geral de Aposentações publicou recentemente a lista dos políticos que recebem subvenções mensais vitalícias, de acordo com um parecer nesse sentido da Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos. Tal publicação, repetimos, valizadas pela referida Comissão, deve ter continuidade uma vez que é legal e abundam os exemplos de dinheiros públicos, isto é, dinheiros dos contribuintes portugueses, distribuídos pela Caixa Geral de Aposentações aos mais diversos tipos de beneficiários. Ou seja, é preciso que os contribuntes portugueses saibam, sem excepções, quanto, como e a quem é que a Caixa Geral de Aposentações paga pensões provenientes do erário público.

        Sem irmos muito longe, e como casos que exigem publicidade urgente, trazemos de novo à baila os ex-funcionários administrativos das ex-colónias portuguesas, os quais auferem pensões mensais de reforma, esportuladas pela Caixa Geral de Aposentações, em acumulação não só com as pensões também de reforma de que são beneficiários nos seus países de origem, mas igualmente com rendimentos de outras proveniências. De notar que estamos a falar de pensões de reforma, pagas duas vezes pelo mesmo trabalho administrativo prestado nas ex-colónias, pelo que, além de tudo o mais, estes pensionistas são-no indevida e ilegalmente.

      Os casos mais gritantes acontecem com os cidadãos de Cabo Verde (sempre esse país fatal), pois contam-se aos milhares os contemplados dessa nacionalidade com prebendas suportadas pelos contribuintes portugueses e que em simultâneo recebem também pensões do Estado cabo-verdiano, alem de que são titulares de outros rendimentos decorrentes de trabalho prestado por conta própria ou alheia..   

     Diga-se, entre parêntesis, que esses privilegiados cabo-verdianos estão abrangidos pela ADSE, um subsistema de saúde de luxo, ao qual poucos portugueses têm acesso, e de cujas vantagens os mesmos cidadãos cabo-verdianos tiram proveito regularmente e em períodos de férias estivais, matando assim vários coelhos de uma só cajadada -- mudança de ares, consultas médicas, compra de medicamentos, análises, intervenções cirúrgicas, etc, etc, tudo a preços simbólicos.  

    Dado que se trata de milhões de euros da responsabilidade dos cofres públicos nacionais, os portugueses têm o direito conhecer os cidadãos cabo-verdianos presenteados com pensões de reforma e isso só é possível e desejável através de listas tornadas públicas pela Caixa Geral de Aposentações. Por outro lado, tais listas poderão ter uma utilidade adicional: serão o primeiro passo no sentido de eventuais cortes das pensões em causa ou mesmo a sua extinção pura e simples se a actual periclitante situação económica e financeira de Portugal persistir e/ou evoluir para a bancarrota e para a consequente necessidade de um segundo resgate internacional.

     Sim, cortes ou extinção pura e simples dessas pensões, tendo em conta que Portugal não está nem nunca esteve em condições financeiras de as pagar. A maior parte dessas prerrogativas foram decididas ainda antes da crise de 2011, ou seja, ainda no tempo das vacas gordas ou vacas supostamente gordas. Entretanto, para o bem e para o mal,  muita coisa de negativo aconteceu no país, nomeadamente, o seu resgate internacional, no valor de 78 mil milhões de euros, levado a cabo em 2011 pelo Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia e Banco Central Europeu, tendo daí resultado medidas draconianas de austeridade e aperto financeiro cujos efeitos ainda hoje se fazem sentir duramente entre os portugueses. Aliás, é preciso não perder de vista que Portugal não cresce economicamente desde o ano 2 000, e, mesmo antes disso, cresceu de forma pouco expressiva, sendo certo que paralelamente criou com o seu Estado Social, obrigações pecuniárias na razão inversa da mesma ausência de crescimento. Por não ter crescido e para fazer face às suas despesas com os vencimentos dos funcionários públicos (sempre a serem actualizados), com as pensões dos reformados (idem, aspas) com a Saúde e com a Educação, o Estado português aumentou brutalmente os impostos e contraiu um dívida pública astronómica, situada na casa dos 130% do seu Produto Interno Bruto.

     Foram estas loucuras que conduziram Portugal para a beira do precipício, e foi no meio destas loucuras que o Estado português concedeu a milhares de de cabo-verdianos as pensões de reforma já mencionadas e também assinou com o Estado cabo-verdiano (em 2010, e José Sócrates e José Maria Neves eram primeiros-ministros de Portugal e Cabo Verde, respectivamente) um acordo denominado Programa Casa Para Todos, que tinha como objectivo construir, nesse arquipélago, oito mil casas, no valor de 500 milhões de euros, tudo custeado pelos portugueses. Tal programa, cuja designação (CASA PARA TODOS) dá bem a ideia do seu pretensiosismo e desfaçatez, foi interrompido pela crise económica e financeira de Portugal e, mesmo assim, ainda foram construídas sob a sua égide cento e tal habitações.   

     Da mesma forma e pelos mesmos motivos que Portugal pôs termo ao Programa Casa Para Todos, também deverá fazê-lo, sem apelo nem agravo, às pensões de reforma pagas aos cabo-verdianos. A crise continua e o dinheiro é coisa que não abunda por estas paragens. Antes pelo contrário.                 

              

 

 

 

 

 

 

 

    

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Quinta-feira, 14 de Abril de 2016

17ª. EPÍSTOLA DE UM ALEMÃO AOS MERIDIONAIS DA EUROPA

     Há necessidade de medidas capazes de relançar a economia, especialmente o investimento, e não o fazer às custas do Orçamento, onde não há espaço de manobra.

Teodora Cardoso, presidente do Conselho das Finanças Públicas 

 

Caríssimos irmãos do Sul

 

HÁ LODO NO AEROPORTO...(E NÃO SÓ)

 

    A (re)nacionalização da TAP foi um acto grave do Governo de António Costa. A (re)nacionalização da TAP foi um mau sinal que o Governo de António Costa deu aos investidores nacionais e sobretudo aos investidores estrangeiros. A (re)nacionalização da TAP foi uma medida que pôs a Europa e os mercados de cabelos em riste e de pé atrás no que a Portugal diz respeito. A (re)nacionalização da TAP foi mais uma razão para não acreditar em nenhuma privatização decidida em Portugal. A (re)nacionalização da TAP é mais uma prova de que Portugal é um país imprevisível e, por isso, em que ninguém confia nem aposta. Não admira que um dos investidores na TAP, David Neeleman, tenha (re)assinado os papéis de sobrolho franzido e lábios cerrados. Por esse mundo fora os potenciais investidores em Portugal andam de olho no país e a imitar David Neeleman.

    Curiosamente, (ou talvez não) a notícia da (re)nacionalização da TAP foi conhecida no mesmo dia em que o Governou apresentou a proposta do Orçamento do Estado para 2016. Orçamento que, por sua vez, está cheio de outras reversões, reposições, recuperações e rearranjos. Dito de outro modo, um Orçamento pejado de alçapões. Um Orçamento que suscita a desconfiança de toda a gente: do Eurogrupo, da Comissão Europeia, do FMI, do BCE, dos mercados, da oposição, dos aliados parlamentares do PS, da UTAO (Unidade Técnica de Apoio Orçamental), do CFP (Conselho das Finanças Públicas), das agências de notação financeira, and so on. Um Orçamento que pretende ser amigo do crescimento apenas e só ancorado nas (boas) intenções, ou seja, estribado no consumo interno, mas que precisamente por isso só vai ter o contrário: recessão e mais dívida externa. Um orçamento que remete as exportações para o baú do esquecimento. Um Orçamento cujas erratas foram emendas piores que o soneto. Um Orçamento que no fundo é um bodo aos funcionários públicos, aos pensionistas e quejandos (leia-se: um bodo aos pobres).

    Um bodo aos pobres? Sim, isso mesmo, um bodo aos pobres à custa dos automobilistas, dos fumadores, dos clientes bancários, etc. etc. Um Orçamento que carrega brutalmente nos impostos mais cegos, os indirectos. Numa palavra: um Orçamento que mantém ou aumenta a austeridade sacrificando os mesmos de sempre: a classe média, média-alta.

    Não surpreende que esse Orçamento tenha passado em todas as instâncias nacionais e internacionais com as maiores reservas. Não espanta que um plano B desse Orçamento seja a coisa mais expectável do Governo de António Costa (Mario Draghi, aquando da sua recente presença no Conselho de Estado: Acolhemos igualmente com agrado o compromisso das autoridades  portuguesas em preparar medidas adicionais, destinadas a ser implementadas quando necessário para assegurar a conformidade. O que é isto senão um plano B? Ah, é verdade, já me ia esquecendo: Draghi veio a Lisboa elogiar o Governo de Passos Coelho e deixar avisos muito sérios a António Costa). Esperemos pelo final deste mês, altura em que o Executivo terá de apresentar à Europa o Programa de Estabilidade, e também esse documento que dá pelo nome de Plano Nacional de Reformas, cujo rascunho António Costa leu com pompa e circunstância, como se fosse a descoberta do petróleo em Portugal. Ou então esperemos pela apresentação e discussão em Outubro próximo da proposta do Orçamento do Estado para 2017.

    António Costa é um homem cercado. Cercado por quem? Cercado por toda a gente. Pelo Eurogrupo, pela Comissão Europeia, Pelo FMI, pelo BCI, pelos mercados, pela oposição, pelos aliados parlamentares do PS, pela UTAO, pelo Conselho das Finanças Públicas, pelas agências de notação financeira (a propósito: a DBRS, a única agência de notação financeira que ainda não classificou Portugal de lixo, ameaça fazê-lo não tarda muito).

    Mas há mais razões para nos pormos na retranca em relação ao Governo de António Costa e que nos autorizam a pensar que a coligação que o sustenta só muito dificilmente se manterá coeso para além de 2017.

    Em primeiro lugar, a (re)transferência dos transportes públicos de Lisboa e Porto para a esfera do Estado. Trata-se de uma outra reversão do actual Governo ditada, tal como as restantes, por motivações puramente ideológicas e que a extrema-esquerda parlamentar aplaudiu afanosamente. (Entretanto, os concessionários afectados por essa medida do Governo avançaram já para os tribunais internacionais e prevê-se que os custos, em dinheiro e reputação, serão bem pesados para o país).

    Em segundo lugar, Portugal é um país onde não há dinheiro para investir, além de que os bancos, salvo uma ou outra excepção, esmagados pelos créditos malparados e outras inúmeras anomalias, ou estão falidos ou estão seriamente descapitalizados. (A Caixa Geral de Depósitos que o diga).

    A falta de dinheiro em Portugal é um mal crónico e geral. Por isso, das três, uma: ou o país consegue atrair investimento estrangeiro, venha ele de onde vier, o que é pouco provável tendo em conta a difícil conjuntura interna e externa; ou o Governo de António Costa corta a sério nas despesas públicas, para o que não parece muito inclinado, nem os seus aliados da extrema-esquerda consentiriam tal sacrilégio; ou enfim terá de continuar a recorrer ao aumento da carga fiscal e ao endividamento externo, contrariando o bom senso e as indicações ou mesmo as exigências dos credores internacionais nesses domínios. Não é por acaso que tanto o Partido Comunista como o Bloco de Esquerda, os actuais aliados do Partido Socialista no Parlamento, tenham começado a reclamar, a par da nacionalização de toda a banca, a renegociação à sua maneira da dívida externa portuguesa, mais uma vez ao arrepio dos compromissos internacionais a que, nesta última matéria, Portugal está vinculado. No que concerne à renegociação da dívida externa, convém não esquecer o que aconteceu na Grécia, quando o Syriza tentou, há pouco mais de um ano, fazer o mesmo. O povo helénico tem vindo a pagar com língua de palmo essa e outras aventuras irresponsáveis dos dirigentes do citado partido.

     Por outro lado, e voltando ao Conselho das Finanças Públicas e à sua líder Teodora Cardoso, o que esta diz relativamente à situação económica e financeira do país devia merecer da parte de António Costa e Mário Centeno toda a atenção e respeito. Teodora Cardoso começa por alertar para um desvio de 1800 milhões de euros, constante do Orçamento do Estado para 2016, e que o Orçamento para 2017 terá de corrigir. Lá está: os problemas que o Orçamento de 2017 trará ao Governo de António Costa vão começar a fazer-se sentir já em Outrubo de 2016, no momento em que esse documento for discutido na Assembleia da República.

    Ainda na mesma linha do que disse a presidente do CFP, vamos transcrever do jornal PÙBLICO (23/03/2016) a seguinte passagem: O CFP não acredita que o consumo privado consiga sustentar um ritmo de crescimento mais elevado na economia e defende que faltam medidas estruturais que aumentem a produtividade e a competitividade. "O aspecto mais saliente destas previsões é o facto de a economia portuguesa manter um crescimento fraco e mesmo com uma tendência de desaceleração", disse Teodora Cardoso. "Não há do lado das exportações líquidas o arranque que seria necessário", disse.

     As mesmas preocupações são expressas pelo Fundo Monetário Internacional, que, no seu ultimo relatório respeitante a Portugal, defendeu em linhas gerais mais medidas de controlo das despesas com salários e pensões e aponta para a necessidade de mais reformas estruturais. Tudo, ao contrário do que o Governo de António Costa, condicionado por considerações de ordem ideológica e pelas exigências dos seus parceiros da extrema-esquerda, tem vindo a fazer.   

     Moral da história: Pedro Passos Coelho e Assunção Cristas que se preparem para eleições antecipadas e para regressarem ao poder. É que, além de tudo o mais, António Costa tem estado em campanha eleitoral permanente. Catarina Martins e Jerónimo de Sousa, também. 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    

   

 

 

 

 

 

 

  

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Terça-feira, 15 de Dezembro de 2015

16ª. EPÍSTOLA DE UM ALEMÃO AOS MERIDIONAIS DA EUROPA

2ª. PUBLICAÇÃO, REVISTA E CORRIGIDA

 

    Não abdicando de nenhum dos poderes que a Constituição atribui ao Presidente da República - e recordo que desses poderes só o de dissolução parlamentar se encontra cerceado - e com a legitimidade própria que advém de ter sido eleito por sufrágio universal e directo dos Portugueses, tudo farei para que o País não se afaste da actual trajectória de crescimento económico e criação de emprego e preserve a credibilidade externa.

    Excerto do discurso de Cavaco Silva, na posse do XXI Governo Constitucional. 

 

Caríssimos irmãos do Sul  

 

CARTA ABERTA AO SENHOR PRESIDENTE DA REPÚBLICA, com o devido conhecimento do senhor Professor Marcelo Rebelo de Sousa.

 

ANTES QUE SEJA TARDE 

 

    Senhor Presidente da República, salvo o devido respeito, V. Excia. fez muito mal em nomear António Costa como primeiro-ministro de Portugal. A nomeação de António Costa como primeiro-ministro de Portugal significa hipotecar, literalmente, irremediavelmente, o futuro da Nação. É pôr em causa tudo o que foi feito de positivo, nos últimos quatro anos e que V. Excia. sintetizou certeiramente na intervenção pública que fez na Madeira, quando se referiu à folgada situação financeira actual do país. Senhor Presidente da República, com um governo socialista, apoiado pela esquerda radical no Parlamento, e pela CGTP (sim, também pela CGTP, que não assinou nenhum papel, mas é como se o tivesse feito ou mesmo mais do que isso), o dinheiro de que Portugal dispõe neste momento esgotar-se-á num ápice. Sim, esse dinheiro não chegará para saciar a voracidade reivindicativa de Arménio Carlos, de Catarina Martins e de Jerónimo de Sousa (a ordem não é arbitrária). Tal voracidade reivindicativa consta, aliás, dos contratos de adesão que António Costa assinou à sorrelfa com o BE, o PCP e o PEV. Está lá tudo. Esses papéis visam apenas e tão-só obrigar o Estado a fazer despesas sem cuidar das receitas. E, se o dinheiro que existe não for suficiente, como por certo não o será, essa coligação negativa de esquerda irá buscá-lo aos impostos e/ou aos mercados (se estes ainda estiverem dispostos a emprestar-nos mais dinheiro) o que fará aumentar brutalmente a carga fiscal e a dívida pública portuguesa.

    Senhor Presidente da República, V. Excia. teve nas mãos o futuro de Portugal,e, por isso, o que o senhor devia ter feito era manter em gestão o governo chefiado por Passos Coelho. Desse modo, e além do mais, Portugal ficaria a salvo das garras insaciáveis de Arménio Carlos, de Catarina Martins e de Jerónimo de Sousa. Mais ainda: manter em gestão o governo de Passos Coelho seria negar crédito, e bem, aos acordos frágeis que esse quarteto de esquerda assinou entre si, separadamente e longe dos olhos dos Portugueses. Acordos aos quais esse mesmo quarteto de esquerda deu sintomaticamente o nome de posições. Acordos que fizeram esboroar sem remissão o documento moderado de Mário Centeno. Acordos que vão fazer Portugal regressar ao pior da primeira década deste século e que nos levou à bancarrota e à consequente intervenção estrangeira no país. Há dúvidas?  Vejamos então o que quer para já a coligação negativa de esquerda e, para isso, vamos citar, na parte que interessa, o artigo de João Vieira Pereira, publicado no suplemento de Economia do semanário Expresso, de 5 de Dezembro último. Eis o cardápio da coligação de esquerda, ao qual o mesmo jornalista chamou a receita para o desastre: eliminar os verdadeiros obstáculos à competitividade das empresas;  melhorar as condições de investimento; acelerar a reposição dos salários da função pública, reposição das pensões, redução efectiva da carga fiscal para as famílias e para as empresas, aumento e reposição do rendimento disponível das famílias; aumento do salário mínimo; combate à pobreza; garantia de bens públicos e essenciais; assegurar finanças públicas equilibradas; compromisso de redução do défice orçamental.

    Há quem tenha feito as contas a esta equação virtuosa (Mário Centeno dixit) e, ao que parece, a coisa não ficará por menos de 3 mil milhões de euros. Assim sendo, pergunta-se: aonde irá António Costa buscar tanto dinheiro, sem aumentar os impostos directos (os tais que são suportados por apenas 30% dos portugueses) ou sem endividar a Nação?

   Talvez Jerónimo de Sousa saiba dar resposta a estas questões. Foi ele que disse, com ar sério e compenetrado, em entrevista à SIC-Notícias, em 29 de Outubro último, o seguinte: Eu nunca consegui que nenhum economista me explicasse porque (o défice orçamental) tem de ser 3% e não 4%.

    Jerónimo de Sousa proferiu estas palavras como se não houvesse qualquer diferença entre as duas grandezas. Ou, por outro lado, como se não existisse o Tratado Orçamental, que, como se sabe, impõe como meta orçamental o limite de 0,5% do PIB. Não, não são iguais as duas grandezas, Jerónimo de Sousa. A diferença pode ser pequena em termos percentuais, mas é bem grande em metal sonante. A diferença de 1% (do PIB) corresponde a 1,8 mil milhões de euros ou, dito de outra maneira, a diferença é de 1800 milhões de euros. Ouviu bem, Jerónimo de Sousa? A diferença entre 3% e 4% do PIB corresponde a 1800 milhões de euros. Uma vez que o dinheiro não cai do céu, nem sai do bolso de Jerónimo de Sousa, nem sequer resultará de uma qualquer colecta interna do Partido Comunista, lá está, tal diferença só pode ser coberta pelo aumento da carga fiscal ou pelo recurso ao endividamento externo. Ou seja, esmifrando os mesmos do costume (a classe média, média-alta), operação, entre outras, que uma certa esquerda apelida de redistribuição da riqueza pela via fiscal e que acabou, num passado recente, por ser também pela via do endividamento público do país, com as trágicas consequências que se conhecem. 

    Voltando ao governo de gestão, é por tudo quanto fica dito que faria todo o sentido manter em funções o governo de Passos Coelho, ou, no imediato, qualquer outro se V.Excia. (ou o seu sucessor) lançar mão do poder de demitir o actual Executivo de António Costa. Como atrás se viu, razões factuais para isso não faltarão, nem tão-pouco os poderes constitucionais do Presidente da República.

    Um governo de gestão tem defeitos? Claro que tem. Não há soluções perfeitas. Mas antes os defeitos desse governo de gestão do que os defeitos (diríamos até do que as virtudes) de um governo PS apoiado pelos extremistas de esquerda e pela CGTP.

    Um governo de gestão está impedido de elaborar e apresentar ao Parlamento o Orçamento do Estado? Claro que está. Mas antes governar a duodécimos do que viver de um Orçamento despesista, forjado por um governo de António Costa. (Aliás, mesmo com o governo efectivo de António Costa, ao que tudo indica, só vamos ter Orçamento lá para Março de 2016)

   Um governo de gestão, no caso, poderia ter uma duração de quase nove meses? Claro que podia. Mas antes esse governo de gestão, ainda que de longa duração, do que um Executivo socialista aparentemente estável e nas condições em que este irá governar.

    Senhor Presidente da República, tratava-se, e trata-se, aqui de optar pelo mal menor. E o mal menor aqui era, e é, sem dúvida, um governo de gestão liderado por Passos Coelho ou alguém equivalente. É que, além do mais, os extremistas de esquerda vão escaqueirar o país em dois tempos. Vão tomar rapidamente de assalto o aparelho de Estado, designadamente, ao nível dos cargos intermédios dos ministérios e das secretarias de Estado. Está tudo escrito nos astros. Está tudo escrito nas cartilhas comunistas. Está também estampado na cara de Jerónimo de Sousa e, sobretudo, nos olhos cintilantes e no (sor)riso ansioso de Catarina Martins. Ela nem sequer se dá ao trabalho de disfarçar a sua sofreguidão pelo que aí pode vir em termos de conquista do poder. Ela está feliz e contente. Ela está nas suas sete quintas. Deram-lhe de bandeja o instrumento com que, fria e impiedosamente, liquidará António Costa.

   Senhor Presidente da República, V. Excia. ainda está a tempo de emendar a mão. Por isso, o que tem a fazer é demitir o actual governo o mais depressa possível e antes que António Costa e consortes conduzam o país para o abismo. Faça-o já. Antes que seja tarde!

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

     

 

 

 

 

 

   

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Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2015

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   Não abdicando de nenhum dos poderes que a Constituição atribui ao Presidente da República - e recordo que desses poderes só o de dissolução parlamentar se encontra cerceado - e com a legitimidade própria que advém de ter sido eleito por sufrágio universal e directo dos Portugueses, tudo farei para que o País não se afaste da actual trajectória de crescimento económico e criação de emprego e preserve a credibilidade externa.   

   Excerto do discurso de Cavaco Silva, na posse do XXI Governo Constitucional. 

 

Caríssimos irmãos do Sul

 

CARTA ABERTA AO SENHOR PRESIDENTE DA REPÚBLICA,  com o devido conhecimento do senhor Professor Marcelo Rebelo de Sousa

 

ANTES QUE SEJA TARDE

 

         Senhor Presidente da República, salvo o devido respeito, V. Excia. fez muito mal em nomear António Costa como primeiro-ministro de Portugal. A nomeação de António Costa como primeiro-ministro de Portugal significa hipotecar literalmente, irremediavelmente, o futuro da Nação. É pôr em causa tudo o que foi feito de positivo, nos úiltimos quatro anos e que V. Excia. sintetizou certeiramente na intervenção pública que fez na Madeira, quando se referiu à folgada situação financeira actual do país. Senhor Presidente da República, com um governo socialista, apoiado pela esquerda radical no Parlamento, e pela CGTP (sim, também pela CGTP, que não assinou nenhum papel, mas é como se o tivesse feito ou mesmo mais do que isso) o dinheiro de que Portugal dispõe neste momento esgotar-se-á num ápice. Sim, esse dinheiro não chegará para saciar a voracidade reivindicativa de Arménio Carlos, de Catarina Martins e de Jerónimo de Sousa (a ordem não é arbitrária). Tal voracidade reivindicativa consta, aliás, dos contratos de adesão que António Costa assinou à sorrelfa com o BE, o PCP e o PEV. Está lá tudo. Esses papéis visam apenas e tão-só obrigar o Estado a fazer despesas sem cuidar das receitas. E, se o dinheiro que existe não for suficiente, como por certo não o será, essa coligação negativa de esquerda irá buscá-lo aos impostos e/ou aos mercados (se estes ainda estiverem dispostos a emprestar-nos mais dinheiro) o que fará aumentar brutalmente a carga fiscal e a dívida pública portuguesa. Senhor Presidente da República, V. Excia. teve nas suas mãos o futuro de Portugal, e, por isso, o que o senhor devia ter feito era manter em gestão o governo chefiado por Passos Coelho. Desse modo, e além do mais, Portugal ficaria a salvo das garras insaciáveis de Arménio Carlos, de Catarina Martins e de Jerónimo de Sousa. Mais ainda: manter em gestão o governo de Passos Coelho seria negar crédito, e bem, aos acordos frágeis que esse quarteto de esquerda assinou entre si, separadamente e longe dos olhos dos Portugueses. Acordos aos quais esse mesmo quarteto de esquerda deu sintomaticamente o nome de posições. Acordos que fizeram  esboroar sem remissão o documento moderado de Mário Centeno. Acordos que vão fazer Portugal regressar ao pior da primeira década deste século e que nos levou à bancarrota e à consequente intervenção estrangeira no país. Há dúvidas? Vejamos então o que quer para já a coligação negativa de esquerda e, para isso, vamos citar, na parte que interessa, o artigo de João Vieira Pereira, publicado no suplemento de Economia do semanário Expresso, de 5 de Dezembro último. Eis o cardápio da coligação de esquerda, ao qual o mesmo jornalista chamou a receita para o desastre: eliminar os verdadeiros obstáculos à competitividade das empresas;  melhorar as condições de investimento; acelerar a reposição dos salários da função pública, reposição das pensões, redução efectiva da carga fiscal para as famílias e para as empresas, aumento e reposição do rendimento disponível das famílias; aumento do salário mínimo; combate à pobreza; garantia de bens públicos e essenciais ; assegurar finanças públicas equilibradas; compromisso de trajectória de redução do défice orçamental.

    Há quem tenha feito as contas a esta equação virtuosa (Mário Centeno dixit) e, ao que parece, a coisa não ficará por menos de 3 mil milhões de euros. Assim sendo, pergunta-se: aonde irá António Costa buscar tanto  dinheiro, sem aumentar os impostos directos (os tais que são suportados por apenas 30% dos portugueses), ou sem endividar a Nação?

    Talvez Jerónimo de Sousa saiba dar resposta a estas questões. Foi ele que disse, com ar sério e compenetrado, em entrevista à SIC, em 30 de Outubro último, o seguinte: Eu nunca consegui que nenhum economista me explicasse porque (o défice orçamental) tem de ser 3% e não 4%.  

    Jerónimo de Sousa produziu esta afirmação como se não houvesse qualquer diferença entre as duas grandezas. Ou, por outro lado, como se não existisse o Tratado Orçamental, que, como se sabe, impõe os 0,5% do PIB, como limite do défice estrutural. Não, não são iguais as duas grandezas, Jerónimo de Sousa. A diferença, embora pequena em termos percentuais, é bem grande em metal sonante. A diferença de 1% (do PIB) corresponde a 1,8 mil mihões de euros ou, dito de outra maneira, a diferença é de 1800 milhões de euros. Ouviu bem, Jerónimo de Sousa? A diferença, entre 3% e 4% do PIB, corresponde a 1800 milhões de euros. Uma vez que o dinheiro não cai do céu, nem sai do bolso de Jerónimo de Sousa, nem sequer resultará de uma qualquer colecta interna do  Partido Comunista, lá está, tal diferença só pode ser coberta pelo aumento da carga fiscal ou pelo recurso ao endividamento externo. Ou seja, pelo sacrifício dos mesmos do costume (a classe média, média-alta), operação, entre outras, a que uma certa esquerda chama a redistribuição da riqueza pela via fiscal e que acabou, num passado recente, por ser também pela via do endividamento público do país, com as trágicas consequências que se conhecem.  

     Voltando ao governo de gestão, é por tudo quanto fica dito que faria todo o sentido manter em funções o governo de Passos Coelho, ou, no imediato,  qualquer outro se V. Excia. (ou o seu sucessor) lançar mão do poder de demitir o actual Executivo de António Costa. Como atrás se viu, razões factuais para isso não faltarão, nem tão-pouco os poderes constitucionais do Presidente da República.

     Um governo de gestão tem defeitos? Claro que tem. Não há soluções perfeitas. Mas antes os defeitos  desse governo de gestão do que os defeitos (diríamos até do que as virtudes) de um governo PS apoiado pelos extremistas de esquerda e pela CGTP.

     Um governo de gestão está impedido de elaborar e apresentar o Orçamento do Estado? Claro que está. Mas antes governar a duodécimos do que viver de um Orçamento despesista, forjado por um governo de António Costa. (Aliás, mesmo com o governo efectivo dos socialistas, ao que tudo indica, só vamos ter Orçamento lá para Março de 2016).

     Senhor Presidente da República, tratava-se, e trata-se, aqui de optar pelo mal menor. E o mal menor aqui era, e é, sem dúvida, um governo de gestão chefiado por Passos Coelho ou alguém equivalente. É que, além de tudo o mais, os extremistas de esquerda vão escaqueirar o país em dois tempos. Vão tomar rapidamente de assalto o aparelho de Estado, designadamente, ao nível dos cargos intermédios dos ministérios e das secretarias de Estado. Está tudo escrito nos astros. Está tudo escrito nas cartilhas comunistas. Está também estampado na cara de Jerónimo de Sousa e, sobretudo, nos olhos cintilantes e no (sor)riso ansioso de Catarina Martins. Ela nem sequer se dá ao trabalho de disfarçar a sua sofreguidão pelo que aí pode vir em termos de conquista do poder. Ela está feliz e contente. Ela está nas suas sete quintas.  Deram-lhe de bandeja o instrumento com que, fria e impiedosamente, liquidará António Costa.

     Senhor Presidente da República, V. Excia ainda está a tempo de emendar a mão. Por isso, o que tem a fazer é demitir o actual governo o mais depressa possível e antes que António Costa e consortes conduzam o país para o abismo. Faça-o antes que seja tarde!     

           

 

 

 

 

 

    

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