Quarta-feira, 24 de Maio de 2017

CADERNOS DO SUBTERRÂNEO (2)

 

 

NO REINO DO LAMAÇAL  (o romance que nunca existiu)

 

SEGUNDA PARTE

 

       Depois do mencionado anúncio informal de que Guilherme de Freitas estava a escrever um romance, e por ele transmitido a um dos seus amigos e confidentes, numa noite de libações, a notícia correu célere, primeiro pela cidade, depois pelo país e, logo a seguir, pelo mundo - Guilherme de Freitas estava a escrever um livro. O que, não é excessivo repeti-lo, deixava bastante orgulhosos os escolhidos para tal confidência e, entre os quais, muito modestamente se contava Arnaldo Banza. E também é preciso que se diga que foram esses poucos confidentes que trataram de espalhar afanosamente essa boa nova pelo mundo.

       Voltando à apresentação do livro,  Arnaldo Banza ainda acrescentou que, em face dos valiosos elementos que foi colhendo aqui e ali acerca da vida e obra de Guilherme de Freitas, mas também nas inúmeras conversas havidas com este, ficou a dispor de material mais do que suficiente para escrever a biografia desse escritor, a qual já estava de resto em adiantada fase de preparação. Mais ainda: foram esses contactos que lhe permitiram saber que Guilherme de Freitas desejaria ter na sua sepultura um epitáfio e o epitáfio por ele congeminado traduz bem o seu espírito sábio, irónico e simultaneamente humilde. Eis o epitáfio desejado por Guilherme de Freitas, que não só consta da sua pedra tumular, mas também da epígrafe do romance que ora é lançada: Vós, que disputais o Mundo, podeis dormir descansados: tendes menos um concorrente. 

     Arnaldo Banza deixou quase para o fim a questão talvez mais importante ou (porque não?) talvez a mais emocionante: mal foi conhecida a notícia da morte de Guilherme de Freitas, Arnaldo Banza recebeu uma mensagem com carácter de urgência para se apresentar perante o primeiro-ministro do seu país. A razão dessa audiência tinha a ver com a necessidade de se formar quanto antes uma comissão que teria como objectivo recolher, estudar e publicar todo o espólio literário de Guilherme de Freitas, com particular atenção no seu falado romance No Reino do Lamaçal. Tal comissão, que foi prontamente constituída por Arnaldo Banza, seu chefe, e mais dois artistas de mérito comprovado (os poetas Tolentino Fortes e Aguinaldo Alcântara), entrou em funções no dia imediato ao do funeral de Guilherme de Freitas e a sua primeira acção foi dirigir-se à última morada conhecida desse malogrado escritor, em busca dos seus papéis. E mal entraram nessa residência, mais particularmente naquele que havia sido o quarto de dormir do defunto, os olhos ávidos dos três investigadores incidiram em simultâneo sobre uma grande arca, colocada a um canto do mesmo aposento. Instintivamente pularam em direcção a esse baú e abriram-no de imediato. Ficaram boquiabertos perante a enorme quantidade de papéis que lhes saltou à vista. A dita arca estava literalmente atulhada de papéis, uns, manuscritos e outros, dactilografados. Mas no cimo deles todos distinguia-se, pelo seu título claramente desenhado em letras de forma, o volumoso original do romance No Reino do Lamaçal.  Sem perda de tempo, os três homens retiraram-no do conjunto dos papéis e levaram-no consigo. 
      Confirmavam-se assim, e sem margem para qualquer dúvida, as informações que em vida Guilherme de Freitas havia dado acerca do romance que ele estava a escrever. Para posterior análise, estudo e publicação do seu valioso conteúdo, a arca foi fechada a cadeado e confiada à guarda de Arnaldo Banza. Naquele momento o que mais interessava aos membros da comissão era o original do romance No Reino do Lamaçal, cuja publicação era aguardada com uma certa expectativa pelo público em geral. Poucos dias mais tarde, começaram os trabalhos de estudar e pôr em ordem o original do citado romance para efeitos da sua publicação. Esta, como já foi dito, teve lugar cerca de dois anos depois.

      Entretanto, e dado o adiantado da hora, Arnaldo Banza passou finalmente a uma breve e sucinta análise do livro. Em seguida, pôs-se à disposição do público e dos jornalistas presentes para as perguntas da praxe,  próprias daquela circunstância, e às quais foi respondendo com a prontidão e sapiência expectáveis de um profundo conhecedor e especialista da vida e obra de Guilherme de Freitas. A sessão terminou com a venda do livro.

      Ao fundo da sala, guardando a mais completa discrição, encontrava-me eu, um dos que privaram de perto com o escritor cuja obra acabara de ser dada à estampa e que conhecia muito bem a vera história de tal livro. Convém frisar desde já que se trata de uma narrativa bastante diferente daquela que passou a ser a versão oficial do sucedido, e que passaremos a contar em seguida. Mas recuemos um pouco no tempo.

       Eu, o narrador desta história, tomara, na véspera conhecimento da publicação e lançamento do livro um pouco por acaso, ao dar acidentalmente com a vista num título que o diário lisboeta NOTÓRIO ostentava na última página e que rezava o seguinte:  Romance póstumo de Guilherme de Freitas lançado amanhã na livraria APMART, do Centro Comercial LUXOR. De imediato e cheio de curiosidade, comprei o dito periódico e inteirei-me de outros pormenores, sobretudo do nome do apresentador ou, melhor dizendo, dos nomes dos apresentadores do livro e também da hora a que o evento iria ocorrer. Lida a notícia na íntegra, decidi que no dia seguinte estaria também na livraria onde essa obra, cuja história, repito, conhecia muito bem, iria ser lançada. E assim fiz.

      Mas vamos por partes. Afinal de contas, e para começar pelo princípio, quem era ao certo Guilherme de Freitas? Guilherme de Freitas, tratado vulgarmente por senhor Guilherme, era um quadro superior da função pública, muito conhecido e muito respeitado na cidade e mesmo no país e também fora dele. Quando o conheci mais de perto, era já um homem na casa dos sessenta e tinha já fama de erudito e possuidor de grande cultura geral. Ninguém sabia ao certo quais eram as habilitações literárias do senhor Guilherme ou, pelo menos, as habilitações oficiais. Falava-se vagamente de um terceiro ano liceal e também vagamente obtido algures numa escola talvez secundária ou equivalente, há muito desaparecida num incêndio. Dado que com a escola se haviam também esfumado os seus arquivos e registos, não era possível atestar, em bases documentais credíveis, fosse o que fosse acerca dos seus antigos alunos. Estes, tal como o senhor Guilherme, para certificarem  os seus graus académicos, dependiam da palavra abonatória de terceiros, pública, comprovada e notoriamente idóneos, e constante de uma declaração escrita e notarialmente autenticada. Apesar das rigorosas formalidades dessas provas, elas, mesmo assim, não deixavam de suscitar dúvidas e desconfianças a muita gente. Não obstante foi com um papel desses que o senhor Guilherme, ainda um jovem de pouco mais de vinte anos, viu franqueadas as portas do funcionalismo público. Mas por causa disso e também em razão da sua cultura geral, ou da sua suposta cultura geral, o senhor Guilherme ficou definitivamente apodado de intelectual autodidacta, qualidade que ele, apesar de tudo e com alguma reserva, não enjeitava.

         Do que o senhor Guilherme mais gostava era de exibir os seus conhecimentos, uma característica, entre outras, muito própria dos autodidactas.A sua marca de água. Uma vez que não dispõem de qualquer diploma oficial que certifique os seus conhecimentos, e porque estes foram por definição obtidos por vias não académicas, os autodidactas vêem-se quase sempre na necessidade de terem de provar por si próprios tudo o que sabem, muitas vezes alardeando com alguma vaidade e em público tal sapiência. Os exames oficiais que lhes faltam, os autodidactas fazem-nos informal e casualmente perante as pessoas da rua, e não só, que os escutam. E, por causa disso, existe também uma certa irresponsabilidade da parte dos autodidactas quando assumem essas atitudes. Ao invés do que sucede com os (oficialmente) diplomados, a obrigação de provar documentalmente os conhecimentos não se aplica por razões óbvias aos autodidactas. Acerca  dos conhecimentos dos diplomados, falam os papéis ou os chamados certificados de habilitação literária. Isto é, em matéria de conhecimentos, os diplomados não têm de provar coisa nenhuma, exactamente por serem...diplomados. E, ao contrário do que sucede com os autodidactas, os diplomados são mais cuidadosos nas suas afirmações, sobretudo as proferidas em público, dado que sobre eles impende a enorme responsabilidade de um diploma, ou seja, do reconhecimento oficial das suas habilitações literárias, que em princípio não deve ser traído. Também por causa disso, muitas vezes os diplomados optam prudentemente pelo silêncio.

        Do que estava eu a falar? Agora, perdi-me. Ah, já sei: estava a falar de Guilherme de Freitas, da sua condição de autodidacta e da sua obsessivia necessidade de exibir a sua cultura ou aquilo que ele achava ser cultura. O homem falava - qual enciclopédia viva - com patente e pretensa autoridade sobre tudo e mais alguma coisa: das literaturas, das artes, das religiões, da História, da Filosofia, da política, da administração pública, enfim, de tudo. (Numa palavra: Guilherme de Freitas era uma espécie de "tudólogo" avant la lettre). Na sua voz forte e cavernosa, à qual ninguém conseguia ser indiferente, o senhor Guilherme passava o tempo a perorar. A perorar, convencendo ou tentando convencer os outros a todo o transe. Convencer os outros, sendo mais uma característica própria dos autodidactas, era o que o senhor Guilherme também fazia com zelo, esmero e pertinácia. Isto acontecia por via de regra em discussões acaloradas que o próprio provocava em espaços públicos, como esplanadas e cafés, e onde sabia que tinha ouvintes e espectadores garantidos. Em tais polémicas e sempre que avançava com um argumento de peso, ou por ele considerado de peso, o senhor Guilherme ficava a olhar para os circunstantes, esperando ver nas suas reacções faciais um qualquer apoio ou efeito positivo do mesmo argumento. O senhor Guilherme estava sempre no palco, fazendo da sua cidade e dos que o escutavam, e não eram poucos, a sua plateia permanente.

      Na mesma linha, o senhor Guilherme também apreciava imenso o exercício de pôr em causa ou de corrigir o que os outros afirmavam, ou ainda de pôr à prova o conhecimento dos outros, sobretudo o conhecimento daqueles cujas habilitações literárias eram comprovadamente superiores às suas. Tratava-se de autênticos desafios que o senhor Guilherme, enquanto autodidacta, lançava aos oficialmente instruídos e aos diplomados. Neste particular, os seus alvos preferidos eram os alunos liceais mais adiantados e mais aplicados, ou os licenciados com cursos superiores, que viviam na cidade ou que por lá passavam por uma razão ou por outra. De forma mais ou menos disfarçada, e às vezes a despropósito, o senhor Guilherme punha-lhes as questões mais diversas e aparentemente as mais complexas, tais como um texto em latim, ou noutra língua estrangeira, dos mais difíceis para ser traduzido para português; ou o contrário, ou seja, um texto em português para ser retrovertido numa qualquer língua estrangeira; dúvidas sobre a História Universal; nomes de escritores ou filósofos, dos mais em voga, acerca dos quais ele próprio nada sabia, mas dava ares de saber. Deixou por exemplo embatucado um pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia, ao perguntar a este se sabia o que era a doutrina quiliástica. Uma professora liceal de História ficou atrapalhada e sem palavras quando foi confrontada pelo senhor Guilherme com o pedido de definir a Anábase. A um oficial do exército  perguntou, sem obter qualquer resposta, se este conhecia o livro A Arte da Guerra, e a respectiva autoria. Uma outra professora liceal, esta de Inglês, deixou o senhor Guilherme com um sorriso irónico nos lábios quando, a pedido do nosso herói, traduziu a expressão Rock Around the Clock por Rock à Volta do Relógio. Em resumo: Guilherme de Freitas, além de ser autodidacta, e talvez por isso, era também um narcisista primário e impenitente, um homem desmedidamente dominado pelo amor-próprio, um homem permanentemente em busca de auto-afirmação e de autopromoção, e ele achava que só podia atingir esses desideratos exibindo-se de forma exuberante e impondo-se culturalmente aos outros, de preferência, em locais públicos e em presença de várias testemunhas.

      E foi provavelmente também por estas razões que, numa dada ocasião, Guilherme de Freitas começou a informar os seus amigos mais próximos de que estava a escrever um romance. Sim, um romance. Sim, uma obra de ficção. Isto passou a acontecer em noites de bebedeiras e dissipações, mas que ele confirmava depois em momentos de sobriedade.

      Escrever e publicar livros constitui a aspiração máxima de qualquer autodidacta. É a sua prova cultural e intelectual definitiva. Sabendo hoje o que eu sei, e sem querer antecipar esta história, parece-me agora evidente que ao anunciar de forma insistente a várias pessoas do seu círculo de amizade que estava a escrever um romance, Guilherme de Freitas estava simplesmente a alimentar a sua enorme e irreprimível vaidade, a sua enorme vontade de dar nas vistas, de ser falado, de ser endeusado e idolatrado, só e apenas pelo simples facto de dar a conhecer que estava a escrever um livro. Tanto mais que não deu tal informação a uma ou a duas pessoas. Nem tão-pouco pediu confidencialidade. Confiou o seu plano a vários amigos e dava-o sempre como adquirido. E, para ser mais convincente, completava o quadro indo aos pormenores mais diversos e até mais pitorescos do livro. Ele sabia que os seus confidentes se encarregariam de espalhar a notícia. É um dado inquestionável que na altura ninguém pôs em dúvida a veracidade da informação de Guilherme de Freitas. Todos achavam que Guilherme de Freitas era homem bem capaz dessa proeza e de muito mais. Melhor ainda: pensaram e disseram que essa empreitada só pecava por tardia. Havia muito que se esperava uma iniciativa de tal magnitude da parte de Guilherme de Freitas. Insisto: ninguém duvidou da palavra de Guilherme de Freitas e todos se puseram credulamente à espera da publicação dessa sua anunciada criação literária. (Continua)           

       

 

 

 

 

 

     

                   

    

              

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

     

    

 

 

 

      

 

publicado por flagrantedeleite às 08:34
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