Quinta-feira, 29 de Março de 2012

HORIZONTES DE GLÓRIA

   A classe média portuguesa foi ganhando foros de cidadania durante o Estado Novo, e, embora pobre, por enquanto, chegou a corporizar o regime de Oliveira Salazar. Já nos idos do Marcelismo, a classe média adquiriu alguma pujança económica, social e política. Que perdeu, parcial e momentaneamente, com a Revolução do 25 de Abril de 1974, e, em particular, no decurso do PREC. Os ventos sopravam agora a favor do proletariado e do campesinato, que ainda existiam, e no ideário do slogan POVO/MFA, defendido e apregoado pelo PCP, e os partidos à sua esquerda, não estava propriamente incluída a classe média. Portanto, e para se defender das investidas revolucionárias, a classe média refugiou-se no Partido Socialista, do Dr. Mário Soares, e no Partido Popular Democrático, do Dr. Sá Carneiro. Em tais posições, que eram o seu espaço sócio-político natural, a classe média resistiu pacífica e tenazmente, aguardando que os ventos mudassem.

   E de facto mudaram, com o contragolpe do 25 de Novembro de 1975, e com Ramalho Eanes, no comando das Forças Armadas. Este general mandou as tropas para os quartéis, e os manifestantes para casa. O arraial já durava tempo de mais, e tornava-se assaz ruidoso para os nosos brandos e pacatos costumes. De resto, uma revolução popular não era coisa que, por essa época, estivesse nos planos dos portugueses. Resumindo: a classe média suspirou de alívio.

   Desde então, e dentro da normalidade, que é vocação última da classe média, esta passou a ganhar nas urnas o que havia perdido nas ruas, nas paradas e nos comícios. E, duas ou três eleições depois, a classe média já dominava por completo o aparelho do Estado, e até aos nossos dias, o PS e o PSD, que são os partidos da classe média, por excelência, revezaram-se nos governos. Ou seja, a classe média estava de corpo inteiro no poder, e, nessas condições, ela tinha de fazer pela vida. Tinha de governar e de se governar, colocando, para tanto, nos vários lemes do País, os seus lídimos representantes do PS ou do PSD. E foi assim que, nos últimos 20 anos de governação alternada destes dois partidos, a classe média conheceu os seus momentos de glória. Pelas cortesias, pelas regalias e palas mordomias. Que foram sendo distribuídas, com profusão e cópia, aos funcionários públicos, aos gestores, aos bancários e, por grosso, aos quadros e técnicos. Tudo visto, à vanguarda da classe média portuguesa.

   Fortemente escorados nos fundos comunitários, que jorraram no País, a partir dos finais da década de 1980, e aproveitando ou promovendo o crédito fácil, barato e ilusório, o PS e o PSD tudo fizeram, e não fizeram, para dignificar, enriquecer e fortalecer a classe média em geral. E o mais do que tudo foi, no dizer do ex-Ministro das Finanças, Dr. Miguel Cadilhe, o monstro que Cavaco Silva criou. Isto é, a reestruturação das carreiras da Função Pública, que, de um dia para o outro, deixou meio mundo rico. Daí em diante, o céu era o limite: primeiras e segundas casas, 2 e 3 automóveis por família, férias em destinos exóticos, cruzeiros, computadores, Plasmas, e telemóveis para todos os gostos, financiamento para consumo privado, etc, etc, etc,. Pode dizer-se com alguma dose de certeza que a classe média nunca viveu tão bem como nos 20 anos compreendidos entre 1990 e 2010. Foram os melhores anos da sua vida.

  Só que a prosperidade era falsa. O dinheiro não resultava do nosso crescimento económico, que aliás foi módico no citado período. Fizemos a festa com o dinheiro dos outros. O dinheiro era sobretudo emprestado, e, mais dia menos dia, a conta havia de chegar.

  A ascenção, alegre e triunfal, da classe média portuguesa começou com um dirigente social-democrata, Aníbal Cavaco Silva. O declínio, lúgubre e sombrio, da mesma classe começou com um outro dirigente social-democrata, Pedro Passos Coelho. Depois da fartura, veio a factura, e o mais é história que se conhece.  

       

publicado por flagrantedeleite às 14:02
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Junho 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
30


.posts recentes

. CADERNOS DO SUBTERRÂNEO (...

. CADERNOS DO SUBTERRÂNEO (...

. CADERNOS DO SUBTERRÂNEO (...

. 19ª. EPÍSTOLA DE UM ALEMÃ...

. 18ª EPÍSTOLA DE UM ALEMÃO...

. 17ª. EPÍSTOLA DE UM ALEMÃ...

. 16ª. EPÍSTOLA DE UM ALEMÃ...

. ...

. 15ª. EPÍSTOLA DE UM ALEMÃ...

. 14ª. EPÍSTOLA DE UM ALEMÃ...

.arquivos

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Fevereiro 2017

. Outubro 2016

. Abril 2016

. Dezembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Fevereiro 2015

. Dezembro 2014

. Agosto 2014

. Junho 2014

. Abril 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

blogs SAPO

.subscrever feeds