Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2012

CORRENTE DE CONSCIÊNCIA (os caminhos que se bifurcam)

   O génio é isto, caramba. 22 anos. De sacrifícios. De abnegação. De entrega. E agora dão-me um papel para o subsídio de desemprego. Já viu isto? O sete. O número cabalistíco por excelência. Os sete dias da semana. As sete chagas de Cristo. As sete quedas a caminho de Gólgota. As sete divindades da Natureza. As sete cores do arco-íris. As sete pragas do Egipto. As sete notas musicais. Os sete sacramentos. Os sete palmos de terra. Direito adquirido. Emprego para toda a vida. Isenção do horário de trabalho. Subsídio de almoço. Recuo civilizacional. Cansado? Não, solteiro.

 

     Na produção social da sua existência, os homens estabelecem relações determinadas, necessárias, independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a um determinado grau de desenvolvimento das forças produtivas materiais. O conjunto destas relações de produção constitui a estrutura económica da sociedade, a base concreta sobre a qual se eleva uma superstrutura jurídica e política e a qual correspondem determinadas formas de consciência social. O modo de produção da vida material condiciona o desenvolvimento da vida social, política e intelectual em geral. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; é o seu ser social que inversamente determina a sua consciência.  

 

      O génio é isto, caramba. Diz-me lá os teus pecados, menino. Senhor padre, eu. 22 anos. Uma vida inteira. De sonhos. De ilusões. De inocência. Perdi os três, aqui neste gabinete. E agora dão-me este papel para o subsídio de desemprego. É a paga. Escolho os meus amigos pela sua boa apresentação, os meus conhecidos pelo seu carácter e os meus inimigos pela sua boa inteligência. Um homem não pode ser muito exigente na escolha dos seus inimigos. Três homens, com destinos parecidos. O primeiro arribou com ela nos idos de oitenta do século passado. Ele vinha sem eira nem beira. Quem tinha e podia era ela. O casamento foi sol de pouca dura. Divorciado, e sem poiso certo, ele andou por aí aos baldões da sorte. Uma doença, que devia ser prolongada, levou-o rapidamente. O segundo chegou e conheceu-a cá, na década seguinte. Ela era, e continua a ser, mulher idónea e respeitável. Ele, tal como o anterior, era um pelintra. 0 conúbio foi acidentado. A vida dele era uma agitação permanente. Morreu vítima de uma naifada certeira na jugular. No meio de um jogo de batota, num subúrbio mal-afamado da capital. O último chegou também atrelado a ela, já no primeiro decénio deste século. E também sem onde cair morto. E, para cúmulo, numa idade pouco recomendável para candidaturas a empregos. As relações deterioraram-se num instante. Tornaram-se insuportáveis. A ligação não resistiu e ele regressou sem delongas à procedência. Ao menos, safou-se com vida. Resumindo e concluindo: nenhum deles tinha profissão ou curriculum que se apresentasse. Todos dependiam delas. Os três vieram e viveram aos trambolhões. Dois ficaram pelo caminho. Ambos, de morte ruim. Foram três casamentos e dois funerais. Eram três carecas à procura de um pente. Casado? Não, cansado. 

 

      STANLEY KUBRICK, AS CASAS DE BANHO E OS SUICÍDIOS. Em Lolita, é na privacidade da casa de banho, e sentado ao lado da sanita, que o Professor Humbert (James Mason), escreve partes do seu diário fatal, cuja descoberta e leitura pela mulher Charlotte Haze (Shelley Winters) conduzirão esta directamente ao suicídio, à frente de um automóvel em andamento; em Dr. Strangelove, é fechado na casa de banho que o feroz anticomunista, o general Ripper (Sterling Hayden), põe termo à vida, com uma bala da sua metralhadora; em Shining, é numa casa de banho, do  Overlook Hotel, que Jack Torrance (Jack Nicholson) se confronta, inesperadamente, com Charles Grady (Philip Stone) o antigo guarda do mesmo hotel, que havia assassinado a esposa e as duas filhas, de 8 e 10 anos, a golpes de machado, matando-se em seguida com dois tiros na boca; finalmente, em Nascido para Matar, é na casa de banho da caserna, e no meio de sanitas, que, pela calada da noite, o simiesco soldado Pyle (Vincent D'Onofrio), liquida a sangue-frio o sargento Hartman (R. Lee Ermey), disparando acto contínuo contra si mesmo.    

          

     O génio é isto, caramba. 22 anos. De uma vida. De esforço. De dedicação. De entrega. Aqui deixados. E agora dão-me um papel para o subsídio de desemprego. Já viu isto? Rapa, tira e põe. A ferro e fogo. Presto Andante amabile e com moto. A advogada cantante. Às vezes ela canta e outras vezes ela pleiteia. E outras vezes ainda ela mistura as duas coisas. É conforme. Tem dias. Quando canta, ela faz publicidade à advogada. Quando alega, ela faz reclame à cantora. Ela disserta, cantando, e canta, dissertando. À noite, ela deita-se com a advogada, e de manhã, ela acorda com a cantora. Ao almoço, ela petisca a advogada, e ao jantar, ela prova a cantora. A advogada é o prato, a cantora é a sobremesa. Ela bebe a advogada e mastiga a cantora. Ela engole a advogada e excreta a cantora. O jardim dos caminhos que se bifurcam.  A superioridade moral. A superioridade moral dos comunistas. A superioridade moral da esquerda. A superioridade moral da direita. A superioridade moral dos progressistas. A superioridade moral dos conservadores. A superioridade moral dos cultos. A superioridade moral dos intelectuais. A superioridade moral dos críticos. A superioridade moral dos criadores. A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete. A superioridade moral dos que possuem uma boa bibiloteca. A superioridade moral dos que têm e leram Crime e Castigo. A superioridade moral dos que sabem quem é Leon Tolstoi. A superioridade moral dos nacionalistas. A superioridade moral dos independentistas. A superioridade moral dos separatistas. A superioridade moral dos unionistas. A superioridade moral dos monárquicos. A superioridade moral dos republicanos. A superioridade moral dos cinéfilos. A superioridade moral dos vegetarianos. Mãe, há só uma.    

       

     Uma panorâmica da estatística profissional de um país pluriconfessional costuma mostrar com uma frequência significativa um fenómeno por várias vezes vivamente discutido na imprensa, literatura e congressos católicos da Alemanha: o facto de os dirigentes das empresas e os detentores de capitais, bem como as camadas superiores da mão-de-obra qualificada e, mais ainda, o pessoal técnico e comercial altamente especializado das empresas modernas, serem predominantemente protestantes.

 

      O génio é isto, caramba. 22 anos. De uma vida. De ilusões. De sonhos. De projectos. Aqui deixados. E agora dão-me um papel para o subsídio de desemprego. Já viu isto? A superioridade moral dos omnívoros. A superioridade moral dos abstémios. A superioridade moral dos antitabagistas. A superioridade moral dos ecologistas. A superioridade moral dos materialistas. A superioridade moral dos católicos. A superioridade moral dos católicos progressistas. A superioridade moral dos católicos ortodoxos. A superioridade moral dos papistas. A superioridade moral dos mais papistas que o Papa. A superioridade moral dos jesuitas. A superioridade moral dos calvinistas. A pluma, a vedeta e a intelectual. A fotografia diz tudo. Já não há sorrisos. Nem as poses doutrora. As poses agora são outras. Agora há preocupação e reflexão. Os tempos agora são outros. Longe vão os tempos em que éramos todos felizes. Longe vão os tempos da fartura e da abundância. Uma imagem vale mais do que mil palavras. A superioridae moral dos moralistas. A superioridade moral dos idealistas. A superioridade moral dos evolucionistas. A superioridade moral dos criacionistas. A superioridade moral dos crentes. A superioridade moral dos ateus. A superioridade moral dos deístas. Mãe, há só uma.

 

       É A CONFIANÇA, ESTÚPIDO! A Economia é 50% de psicologia. Disse recentemente a chanceler alemã Angela Merkel. No fundo, o que ela queria dizer era confiança, em vez de psicologia. E ela tem razão. Mas não é só a Economia que depende da confiança. Toda a nossa vida pessoal, profissional, social e política radica-se na confiança. É a confiança que cimenta as relações humanas, quer sejam de amizade, conjugais, comerciais, jurídicas ou outras. É por confiarmos uns nos outros que tais relações existem. Quando se elege um Presidente da República (cá está!) dá-se-lhe um voto de confiança. É na confiança que assentam as mais variadas e complexas relações internacionais, e é por causa dessa confiança que os países vivem em paz, uns com os outros. O nosso quotidiano baseia-se essencialmente na confiança. É a confiança que nos faz vir à rua sem qualquer receio de sermos devorados por animais selvagens, de sermos assaltados ao virar da esquina, ou de sermos atingidos por balas perdidas. É a confiança que determina o nascimento de um povoado, e a sua evolução até à cidade ou nação. E é também a confiança que assegura a continuidade de um povoado, cidade ou nação. Inversamente, é a falta de confiança que origina as crises. Crises de relações pessoais e igualmente crises económicas, sociais e políticas. É a falta de confiança que conduz à desertificação regional, ou à emigração. É a falta de confiança que pode levar à queda de um governo ou de um regime político. É a falta de confiança entre os países que pode envenenar as suas relações entre si e causar as guerras. As sociedades, como as pessoas, sem confiança em si mesmas, são sociedades condenadas ao fracasso ou mesmo à extinção.  

 

 

 

 

 

 

 

 

         

publicado por flagrantedeleite às 12:32
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