Quinta-feira, 1 de Novembro de 2012

CORRENTE DE CONSCIÊNCIA (prólogo)

   O génio é isto, caramba. Eu nunca tinha entrado num tribunal. Já viu isto? Nunca ninguém se tinha queixado de mim. Nem eu, de ninguém. Ninguém é de ninguém, na vida tudo passa. Ninguém é de ninguém, até quem nos abraça. E agora metem-me um papel na mão, para o subsídio de desemprego. Já viu isto? 22 anos. Enterrados nas areias de uma empresa. 42 anos de idade. Divorciada. Um filho menor para sustentar. Já viu isto? Não, não vou por aí. Os vasos comunicantes. Os tubos de ensaio. Os mutantes. Veio de outro mundo. Tudo por tudo. Título sugestivo. Morte em Veneza. Contra tudo e contra todos. Morri  Mil vezes. Fui preso 12 vezes pela PIDE. Eu, 6 vezes. Eu, nenhuma. Não sente pena? O meu reino por um cavalo. Realizei todos os meus sonhos. Sonhando-os. Tem aqui um sonho de encomenda. Um sonho à medida.  Sonho por medida.

 

SONHOS

 

Shakespeare inventou os sonhos,

Tchaikovsky musicou-os,

Freud interpretou-os,

Kafka transfigurou-os,

Dali pintou-os,

Olivier encarnou-os,

Hitchcock filmou-os.

Sou testemunha ocular destes sonhos todos.

Sonhei-os. 

 

    O génio é isto, caramba. Se ele não existisse, tinha de ser inventado. 15 minutos antes de ele morrer, ainda estava vivo. La Palisse. Esta é a primeira vez que cá desde a última vez. Tínhamo-nos esquecido deles, mas eles não se esqueceram de nós. O Decepado. Ergueu a bandeira até ao fim. Nas areias do deserto. Heróis de Mucaba. Heróis de Nambuangongo. Chaimite. Rua Serpa Pinto. A prisão de Gungunhana. Rua Tenente Valadim. Morto pela Pátria no Niassa. Ao Dr. António Lorena. Médico. Homenagem de gratidão. Rua Júdice Biker. Rua da República. Rua Sá da Bandeira. Abolicionista. 5 de outubro de 1910. Estou a recibo verde. Há quem não esteja a nada. Nem a recibo verde. Nem a recibo branco. Nem a recibo amarelo. Há quem esteja em branco. Eu sou nutricionista. Estou a recibo verde. Nem a isso devia estar. Há profissões que, em tempos de vacas gordas,  brotaram como cogumelos. Em tempos de vacas magras, essas mesmas profissões deixaram de fazer sentido. Deixaram de ter espaço. Em tempos de vacas magras, há que repensar tudo. Há quem tenha dois empregos. Mal! Há quem tenha duas pensões. Uma de cá e outra de lá. Mal! Há quem tenha duas casas. Uma de lá e outra de cá. Mal! Há quem tenha dois automóveis. Mal!  22 anos de uma vida. Eu era uma jovem. Tinha sonhos. Enterrei-os nesta empresa. E agora, despacham-me com um papel para o subsídio de desemprego. Já viu isto? Divorciada e com um filho menor para criar. Enquanto há vida, há esperança. Enquanto há esperança, há vida. Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. Há mais marés que marinheiros. E a vida continua. Se bem me lembro. E Deus não dorme. Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és. Cão que muito anda, ou osso ou pancada. Pelo andar da carruagem, se vê quem vai lá dentro.

 

Foi por ela que amanhã me vou embora

Sempre o mesmo, hoje e sempre ainda agora

Sempre o mesmo em frente ao mar também me cansa

Diz Madrid, Paris, Bruxelas quem me alcança

Em Lisboa fica o Tejo a ver navios

Dos Rossios de guitarras à janela

Foi por ela que eu já danço a valsa em pontas

Que eu passei das minhas contas foi por ela

 

 

    O génio é isto, caramba. Já viu isto? O gajo ficou muito mal na fotografia. Bem feita! Ele que não se metesse em altas cavalarias. A D. Verónica para a carvoeiraEstou muito desgostosa com o meu filho mais velho. Oh, D. Verónica, tenha paciência. Estes rapazes, quando se metem na vida mundial, é uma grande chatice. Tem de ter muita paciência, D. Verónica. Nec plus ultra. Ne varietur. 22 anos de uma vida. Vida cheia de ilusão. E de inocência. Perdi ambas. Aqui nesta empresa. E agora dão-me um papel para o subídio de desemprego. Já viu isto? Francisco Schettino. 52 anos. Uma vida dourada. São muitos os que pagam milhares para terem, por uns dias, a vida que Francisco Schettino era pago, e bem, para ter por toda a vida. Deus dá nozes a quem não tem dentes. Uma vida destruída em coisa de minutos. Nas águas do Mediterrâneo. Em coisa de minutos, Schettino deixou de ser o capitão do Costa Concordia para passar a ser o Captain Coward. O desgraçado, depois de ser dos primeiros a deixar o barco, abandonando os passageiros à sua sorte, chegou rapidamente a terra e só se lembrou de telefonar para a mãe e dizer: tutto bene, Mamma! Bom filho à casa torna. O filho pródigo. O bom samaritano. Foi a sua Estrada de Damasco.

 

     A CELEBRIDADE HOLANDESA. Tirando um ou outro jogador de futebol, de que, aliás, pouca gente se recorda, a Holanda não produziu nenhuma celebridade, durante o século XX. A única grande excepção terá sido a actriz porno, Sylvia (Maria) Kristel, mais conhecida por Emmanuelle. Este último nome era, como se sabe, o da sua famosa personagem, de origem presumivelmente francesa, que ela interpretou em vários filmes. O nome e a personagem nada tinham de holandês. Bem feita!    

 

    O génio é isto, caramba. Diga trinta e três. Outra vez! Tussa. O seu mal é outro. Eufemismos. Doença prolongada. Neoplasia. Carcinoma. Perífrases. Metáforas. Jardim da Europa à beira-mar plantado. País do sol nascente. Comeu o fruto proibido. Comeu o pão que o diabo amassou. Passou as passas do Algarve. Por trancos e barrancos. Por Franças e Araganças. Por portas e travessas. Por estas e por outras. Por esta é que eu não esperava. Todos querem ser fotogénicos. Todos querem ser telegénicos. Todos querem ficar bem na fotografia. Literalmente. Metaforicamente. Na vida. Na política. Nos debates. Nos programas. Nas charlas. E tudo o mais.

 

    STANLEY KUBRICK E AS CADEIRAS DE RODAS. Em Dr. Strangelove, o personagem epónimo, (Peter Sellers), loiro e de sotaque germânico, desloca-se numa cadeira de rodas, e dela se ergue, inesperadamente, gritando: "Mein Fuhrer!"; em Laranja Mecânica, Alex, (Malcolm MacDowell), e o seu bando, atiram o escritor progressista, Frank Alexander (Patrick Magee) para uma cadeira de rodas, e é sentado nela que este último observa e goza, friamente, a sua própria vingança; em Barry Lindon, é amarrado a uma cadeira de rodas que o cornudo Sir Charles Lindon, (Frank Midlemass), se passeia empurrado pela criadagem; finalmente, é plantado numa cadeira de rodas, e em imagens de TV clandestinas, que o ministro das Finanças alemão (cá está!) Wolfgang Schäuble, em conciliábulo com o seu homólogo português, promete um ajustamento da dívida do bom aluno. Vítor Gaspar escuta-o reconhecido, curvado e reverente.  

 

    O génio é isto, caramba. Já viu isto? 42 anos de idade. O que vai ser da minha vida? Sou velha para trabalhar e nova para me reformar. Divorciada e com um filho menor para criar. Já viu isto? As cheias correm para o mar. Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé. Se os ses fossem feijões, ninguém morria à fome. Todos por onze e onze por todos. Vais conhecer o lume da Russia. Tão certo como eu me chamar fulana de tal. Eles não sabem nem sonham. Aleksei Fiódorovitch Karamazov era o terceiro filho do proprietário rural do nosso distrito Fiódor Pavlovitch Karamazov, tão conhecido no seu tempo (e ainda hoje recordado) por causa da sua morte trágica e obscura, ocorrida exactamente há treze anos e sobre a qual falarei na devida altura. Todos querem ser fotogénicos. Mala de senhora. Mala de cartão. Muitos tiveram a sua mala de cartão. Um país de malas de cartão. Tha paper bag. Linda de Susa. Perdidos e achados. Perdidos e acabados. O crescimento económico. O grande problema das Economias ocidentais. O grande problema das Economias europeias. O grande problema de Portugal. Não vamos lá tão cedo. Muito menos em dois ou três anos. Ah, sim? E depois? So what? Farewell, my friend. A Rapariga do Rio Pó. Nos seus olhos é sempre meia-noite.

 

      (...) Mas já não terão agradado tanto à classe média as desordens, a instabilidade política e social, e mesmo alguns excessos do anticlericalismo republicano, que foram acompanhando paralelamente as citadas reformas. Por tais motivos, uma facção significativa da classe média não gostou dessa parte da Revolução e alinhou com Sidónio Pais, quando este quis fazer um intervalo na Democracia republicana. A outra facção da classe média não esteve pelos ajustes e concordou, tácita ou explicitamente, com o assassinato deste major e matemático, pondo fim à sua aventura populista, autoritária e pré-fascista. (...)    

 

     O Homem Que Sabia Demais. A segunda versão é de longe melhor do que a primeira. Provavelmente. Alfred Hitchcock: digamos que a primeira versão foi realizada por um amador de talento e a segunda por um profissional. Ela levou os netos a conhecer Nova Iorque. Em plena crise. Quando regressou, tinha a factura à sua espera. Ficou pior do que uma barata tonta. A velhice é uma coisa triste. E o rídiculo, também. A sede de protagonismo, também. A consciência moral da Nação. A consciência intelectual da Nação. A consciência cultural da Nação. O BIG BROTHER. A BIG SISTER. Os sábios da Nação. Ela quer estar em todo o lado. Anita está em todas. Ela estava a definhar no outro canal. De repente saltou para a ribalta. Estamos vivos!

 

      (...) Não há quadro mais enternecedor do que a roupa dos pobres a secar nos casebres; ou cenário mais tocante do que o bibe, a baba e o ranho das crianças descalças; nem, por fim, retrato mais impressivo do que o desfile dos porcos, cabras e burros pelas ruas secas, poeirentas e malcheirosas. (...)

 

    Dizem que a mãe era uma mulher muito religiosa. Uma santa. Deve estar no céu. Zelando pelo filho. Seis já foram despachados. Três, de morte ruim. Outros se seguirão. Já estão na calha. Já têm as covas escolhidas. E os epitáfios, também. Contra tudo e contra todos. Nada escapa. Nem escapará. Indivíduos. Povos. Países. Continentes. Mundo. Universo. Apocalypse Now.  

 

Tão jovem! Que jovem era!

(Agora que idade tem?)

Filho único, a mãe lhe dera

Um nome e o mantivera:

"O menino da sua mãe".  

 

 

 

 

 

 

       

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

publicado por flagrantedeleite às 12:33
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Junho 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
30


.posts recentes

. CADERNOS DO SUBTERRÂNEO (...

. CADERNOS DO SUBTERRÂNEO (...

. CADERNOS DO SUBTERRÂNEO (...

. 19ª. EPÍSTOLA DE UM ALEMÃ...

. 18ª EPÍSTOLA DE UM ALEMÃO...

. 17ª. EPÍSTOLA DE UM ALEMÃ...

. 16ª. EPÍSTOLA DE UM ALEMÃ...

. ...

. 15ª. EPÍSTOLA DE UM ALEMÃ...

. 14ª. EPÍSTOLA DE UM ALEMÃ...

.arquivos

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Fevereiro 2017

. Outubro 2016

. Abril 2016

. Dezembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Fevereiro 2015

. Dezembro 2014

. Agosto 2014

. Junho 2014

. Abril 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

blogs SAPO

.subscrever feeds