Quinta-feira, 25 de Outubro de 2012

CORRENTE DE CONSCIÊNCIA (capítulo IV)

    O génio é isto, caramba. Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal! O canto do cisne. O grito de Ipiranga. O Grito. A Aventura. A Noite. O Deserto Vermelho. Blow Up. O assalto ao quartel de Moncada. O assalto ao Santa Maria. O assalto ao quartel de Beja. A queda da Índia. Depois do desastre de Goa, isto ficou por conta dos Goeses. Os tipos nunca viveram tão bem. Abarbataram os melhores empregos. Na metrópole e nas colónias. A Internet tomou conta disto. Os jornais em papel estão pela hora da morte. Não sabem o que virá a seguir. Atrás de mim virá quem bom de mim fará. Deus nunca fechou uma porta que não abrisse outra. Depois de fartos, não faltam pratos. Depois do Natal, saltinho de pardal. Que tal foi a ceia, pá? Foi porreiro, pá. Só génios, éramos doze.

 

    O FILME QUE VIVEU VÁRIAS VEZES. À nascença foi atacado pela crítica, abandonado pelo público e ignorado pelos cinéfilos. E também não foi muito reconhecido pelo pai. A obra em causa gozou de uma precária liberdade, durante os seus primeiros 10 anos de vida. Foi o seu limbo. Por questões de direitos autorais, em meados da década de 1960, e acompanhado de mais quatro criações do mesmo autor, ficou impedido de circular por 20 anos. Foi o seu Purgatório. Depois de renascer, d'entre les morts, e apesar de quase esquecido, ganhou gradualmente fama, prestígio e reconhecimento. Não do pai, porque este entretanto morreu sem se reconciliar totalmente com o filho. E também sem conhecer a glória do filho. Vertigo, o filme de Alfred Hitchcock, tem hoje o mundo a seus pés: a crítica, o público e os cinéfilos.

 

   O génio é isto, caramba. A separação da Igreja do Estado. Um longo e profundo conúbio. Um longo e profundo caminho. Deus, Pátria e Família. A Concordata. Casamentos católicos sem divórcio. Como convinha. Manter a sociedade manietada. Repressão social e sexual. Cada um quer levar a água ao seu próprio moínho. Cada um puxa a brasa à sua sardinha. A sujeita vai de vento em popa. Homem pequenino, velhaco ou dançarino. O indígena. O alienígena. O nativo. O indigenato. A coisa. O coiso. Alexandre Dumas: Depois de Deus, foi Shakespeare quem mais criou. God save the Queen. Eureka. Um corpo, mergulhado num fluido, sofre da parte deste uma impulsão vertical, de baixo para cima, igual ao volume do líquido deslocadoDominique gaston André Strauss-Kahn.

 

Chamava-se Nini

Vestia-se de organdi

E dançava, dançava

Dançava só para mim

Uma dança sem fim

Eu olhava, olhava

 

    O génio é isto, caramba. Perdemos a inocência. Nunca mais olharemos para nada da mesma maneira. Nem para a Economia. Nem para a Política. Nem para os economistas. Nem para os políticos. Nem para os jornalistas. Nem para os analistas. Nem para os politólogos. Nunca mais olharemos para nada da mesma maneira. Nem para o que comemos. Nem para o que bebemos. Nem para o que vestimos. Nem para o que usufruímos. Nada cai do céu. Tudo é produzido. Tudo deve ser produzido. Tudo deve ser o resultado do nosso trabalho. Devemos pagar tudo com o nosso trabalho. Os domingos livres. Os sábados livres. Os fins-de-semana. Os feriados. As férias. Os subsídios. As consultas. Médicas. Outras. Os tratamentos. Os medicamentos. A educação. As pensões. Não há almoço grátis. Alguém devia ter difamado Joseph K., pois, certa manhã, sem que tivese feito qualquer mal, foi preso. Tudo absurdo e por causa de um absurdo. Dominique Gaston André Strauss-Kahn. Neuville-Sur-Seine, 25 de Abril de 1949. Deu cabo da vida. Deu cabo da família. Deu cabo da carreira. Uma grande carreira pela frente! A tragédia humana. Tudo por uma mulher. Tudo por uma criada de hotel. Tudo por um prazer furtivo. Uma lágrima furtiva. Na cama que farás nela te deitarás. Candeia que vai à frente alumia duas vezes.

 

   STANLEY KUBRICK e como aprendem as crianças americanas. Em Lolita, (Sue Lyon), esta informa o Professor Humbert (James Mason) que sabe tudo sobre os sintomas de um ataque cardíaco. Aprendeu nas Selecções do Reader's Digest. Pormenores não despiciendos: estávamos em 1961, e o diálogo ocorre num interior de um automóvel, em viagem pela estrada fora. 20 anos depois, em Shining, e de novo dentro de um carro, Danny Torrance (Danny Loyd) anuncia triunfante aos pais que o canibalismo não lhe guarda quaisquer segredos. Viu tudo na televisão. Se fosse hoje, ambas as crianças diriam: vimos tudo na Internet.

 

   O génio é isto, caramba. Para este peditório, o pessoal já deu. A história não acaba aqui. Já vimos este filme. Infelizmente. Isto não fica assim. Pois não, agora vai inchar. A guerra não durará para sempre. Não há mal que não acabe, nem bem que sempre dure. Hoje é dificil ter razão a 100%. E também é difícil não ter razão a 100%. A esquerda tem razão quando critica a austeridade pura e dura. A direita tem razão quando defende a austeridade e rejeita a política do crescimento puro e duro. A direita tem razão quando critica o regabofe consumista. A esquerda tem razão quando censura os responsáveis que incitaram ao consumo desbragado. A esquerda tem razão quando verbera a desregulação. A dirteita tem razão quando aponta o dedo às reivindicações irresponsáveis. A esquerda tem razão quando lembra que os cortes devem visar as gorduras do Estado. A direita tem razão quando objecta que os cortes devem ir para além disso. A esquerda tem razão quando se bate pelas medidas de crescimento. A direita tem razão quando advoga que as políticas de crescimento não devem excluir as medidas de austeridade. A direita tem também razão quando lembra que a falta de crescimento, num horizonte próximo e longínquo, é o nosso maior problema. Cada vez há menos pão, todos ralham e todos temos temos razão. Antes a morte que tal sorte. Cogito ergo sum. Conhece-te a ti próprio. De uma penada. De uma pernada. O direito de pernada. De uma cajadada. Inevitavelmente. Por mares nunca dantes navegados. O fraco rei faz fraca a forte gente. Os idos de Março.

 

   A. LOURO NUNES E O SÉCULO XIX. O século XIX atormenta e persegue A. Louro Nunes. É no século XIX que A. Louro Nunes sente ter sido romancista. Entre os trinta génios, como ele, é claro. A. Louro Nunes adoraria imenso viajar por essa Europa fora, no século XIX, e nas diligências do século XIX. De preferência, acompanhado de génios como Flaubert, Balzac, Stendhal, Dickens, e muitos outros, num tu cá, tu lá sobre tudo e mais alguma coisa. Sobre os progressos da ciência. Sobre os novos inventos. Mas sobretudo acerca da literatura europeia do século XIX. A. Louro Nunes só admite viver no século XXI, se for para contemplar a sua própria eternidade, ganha com os seus grandes romances, escritos no século XIX. É dessa forma que A. Louro Nunes morreria em paz , realizado e de bem com a sua própria consciência. Com Nobel ou sem ele.  

 

    O génio é isto, caramba. O evolucionismo. Ainda há quem resista. Os criacionistas. Uns ignorantes. Uns cretinos. Uns cavernícolas. Julgam-se superiores aos macacos. O planeta dos macacos. As nossas origens. A Caixa de Pandora. Fedora. Isadora. o Holandês errante. 7 de Julho de 1973. Levou-a uma série de vezes às termas. O seu grande sonho. Mostrou-lhe o país de lés a lés. Nemo plus juris in alium transfere podest quam ipset habet. As praias. O estrangeiro. Aparentemente. Os hotéis. Os aviões. Um empenho. Uma cunha. Uma coda. Uma côdea. Engrenam-se como rodas dentadas. Diz-me os teus pecados, menino. Não me lembro de nenhum  pecado, senhor padre. Só me lembro da D. Isaura. O que é que a D. Isaura tem a ver com isto? Não me puxe pela língua, senhor padre. Vou fazer queixa à tua mãe. O senhor padre não pode violar o segredo da confissão. Tire o cavalinho da chuva. Who are you? Valia mais ser rainha uma hora do que duquesa toda a vida. Os vencidos da vida. Não sente pena de não ter sido preso pala PIDE? Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: "Sua mãe falecida. Enterrro amanhã. Sentidos pêsames". Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem. Cascais é o sonho de uma certa classe média lisboeta. E também de uma certa classe média ao sul do Tejo. Das valetas alentejanas ao céu estrelado de Cascais. Ah, Cascais! A nossa perdição! A perdição de todos nós. O remorso de todos nós. A classe média no seu labirinto. Qunado ele fala, solta os seus demónios todos. Quando escreve, abafa-os. Who are we? Uns peneirentos. Uns presunçosos. Num corpo feito de nove buracos. Qual deles o mais vital! Um corpo esburacado. Um corpo feito de emissões. De secressões. De excressões. A fartura faz a bravura. Matadouro sete.

 

   CORPOS QUE CAEM. Com a enorme subtileza, que se lhes conhece, os Brasileiros deram a Vertigo o título de Um Corpo Que Cai. Curiosamente, e talvez não seja essa a razão de tal título, o que há mais no filme são corpos que caem: nada menos de cinco. Vejamo-los: o do polícia, no prólogo e perseguição nocturna, sobre os telhados de S. Francisco; o de Madeleine/Judy Barton (Kim Novak), na baía de S. Francisco; o de John Ferguson (James Stewart), na baía de S. Francisco, para salvar Madeleine/Judy Barton; o de Madeleine (a própria), do alto do campanário; e, finalmente, o de Judy Barton (a própria) do alto do mesmo campanário. Em todas estas quedas de corpos, há sempre uma testemunha presente: John Ferguson (James Stewart) ele próprio permanentemente aterrorizado pela ameaça de queda iminente. Com tantos corpos a cair, apetece perguntar aos nossos irmãos brasileiros a qual deles se referem  quando falam num corpo que cai. 

 

 

 

 

    

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por flagrantedeleite às 12:43
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