Quinta-feira, 18 de Outubro de 2012

CORRENTE DE CONSCIÊNCIA (canto nono)

    Agarrem-me, senão eu saio da coligação! O povo não aguenta mais. Há que saber interpretar os sinais. Quando aquela putéfia ameaçou o teu posto de trabalho, fiquei com a pulga atrás da orelha. Foi um mau sinal. A juventude é uma coisa demasiado preciosa para estar nas mãos dos jovens. Toma cautela com o que desejas na juventude, porque podes obtê-lo na meia-idade. Cuidado com os teus sonhos, porque eles podem concretizar-se. Nada de interiores! Ele só come o que está à superfície dos animais, exceptuando as penas e os pêlos, é claro. Nada de miudezas. Nem o fígado. Nem os rins. Nem as tripas. Nem o coração. Nem os pulmões. Nem a moela. Nem os miolos. Nada de interiores. O Eixo da Meia-Noite. És a rainha da noite. Já foste! O mundo à minha procura. Parece que ela leva para casa mais de 20 Mil. Todos os meses. Depois dos impostos. Actuais e futuros. Como assim? É só fazer as contas de somar. O vencimento-base. As crónicas. Os comentários. Aqui e ali. Etc. e tal e coisa. Ficar bem na fotografia.  Dar nas vistas. Ela arranja-se muito bem. Não tem nada fora do sítio. Nem um Catroga. Prova de vida. É o que todos querem fazer. Não há coincidências. Ratos de cinemateca. A desindustrialização. O consumo. O consumismo. O casinismo.O canibalismo. O altruísmo. O truísmo. O turismo. O liberalismo. O neoliberalismo. O neoconservadorismo. Os Chineses deram cabo disto. E os Indianos, também. E os Brasileiros, também. A desregulação, também. A globalização, também. Os preços dos combustíveis, também. Os bancos já não emprestam dinheiro. À beira do abismo. À beira do precipício. À beira da Grécia. Deus escreve direito por linhas tortas. De minimis non curat praetor.

 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu era feliz e ninguém estava morto.

Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,

E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,

De ser inteligente para entre a família,

De não ter as esperanças que os outros tinham por mim.

Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.

Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida. 

 

    O génio é isto, caramba. Foi porreiro, pá. Que tal foi a ceia, pá? Foi tudo muita porreiro, pá. Só génios, eramos doze. Todos são críticos de cinema. E médicos, também. E advogados, também. E solicitadores, também. E economistas, também. E sociólogos, também. E psicólgos, também. E engenheiros, também. E loucos, também. Você é licenciado em quê? Eu? Em nada! Então tratam-no por doutor e você aceita? Soa bem e não faz mal a ninguém. Acabou o crédito fácil, rápido e barato. Todos quiseram ser agentes imobiliários. E logistas, também. E donos de restaurantes, também. E donos de cafés, também. E donos de mercearias, também. E decoradores, também. E chefes de cozinha, também. E técnicos de contas, também. E vendedores de automóveis, também. E mestres-de-obras, também. E jornalistas, também. E farmacêuticos, também. E dentistas, também. E enfermeiros, também. Acabou o crédito fácil, rápido e barato. E o arraial, também. Agora, fecham as portas 25 empresas por dia.

 

(Come chocolates, pequena;

Come chocolates!

Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.

Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.

Come, pequena suja, come!

Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!

Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,

Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.) 

 

    O génio é isto, caramba. Foi um ver se te avias. Deu-lhe a mosca. Deu no que deu. Deu nisto. Deu o quinto. Deu tudo e mais alguma coisa. Foi chão que deu uvas. Foi bananeira que deu cacho. Deu com os burrinhos na água. Deu o litro. Deu o coco. Deu à costa. Deu-se conta. Deu pró torto. Deu-lhe para isso. E ele a dar-lhe. Deus dá nozes a quem não tem dentes. A procissão ainda vai no adro. Ainda não vimos nem metade da missa. Até ao lavar da cesta é a vindima. Parturiunt montes, nascetur ridiculus mus. Passou as passas do Algarve. Comeu o pão que o diabo amassou. Pagou com língua de palmo. Quem dá o pão, dá o pau. Com muito prazer. O prazer é todo meu. Ele é um desmancha-prazeres. Sem tecto entre ruínas. Nas ruínas de Berlim. Até ao fim. Até à eternidade. Até à rendição incondicional. O século das luzes. O século do povo. O século de Sartre. Marx disse. Eça de Queirós disse. Fernando Pessoa dise. Camões disse. Salazar disse. Cortaram-lhe o cartão de crédito. Cesteiro que faz um cesto, faz um cento. O carteiro toca sempre duas vezes. Ela ficou com a conta a descoberto. Nunca mais pôs lá os cotos. Foi pró maneta. O gajo era um general francês. Um granda cabrão. História Concisa de Portugal. Um homem não chora. A montanha pariu um rato.

 

Sou do Benfica

E isso me envaidece

Tenho a genica

Que a qualquer engrandece

Sou de um clube lutador

Que na luta com fervor

Nunca encontrou rival

Neste nosso Portugal

 

 

     O génio é isto, caramba. Foi um negócio ruinoso. O sujeito está nas lonas. Deus escreve direito por linhas tortas. O cavalheiro está mesmo de tanga. Há mais marés que marinheiros. Há vida para além do défice. O gajo foi apanhado de calças na mão. Literalmente. Mariani. Poço de Boliqueime. Fonte de Boliqueime. Quinta da Coelha. Elian. Paradoxalmente. Direito adquirido. A Constituição. O pantomineiro. O parlapatão. O parlapatão padrificado. O parlapatão petrificado. O paralapatão purificado. O parlapatão putrificado. Tão amigos que eles eram! Despachavam dúzias de pastéis de nata. Numa tarde. Que saudades! Diz-se que ele foi o criador da criatura. Foi a sua vingança. O seu Némesis. O gajo não admite que lhe façam frente. A velhice é uma coisa triste. Ele pôs-se a jeito. Ele pôs-se nela. Pusemo-nos todos a jeito. Gastámos mais do que podíamos. Gastámos mais do que devíamos. Cala-te boca. Não se pode dizer isso. Há quem não goste que se diga. A cigarra e a formiga. As fábulas. As fabulosas. Os flibusteiros. Capitão Blood. Capitão Wyatt. Capitão Grant. Capitão Hatteras. Capitão Roby. Capitão América. Capitão de Castela. Capitão Henrique Galvão. Capitão Santos Costa. Capitão Vasco Lourenço. Quem come e guarda, duas vezes vai à mesa. Um ninho de vespas. Um ninho de víboras. O capuchinho vermelho. O capachinho vermelho. O Almirante vermelho. O barão vermelho. O General sem medo. Obviamente, demito-o! Força, força, companheiro Vasco! Irmão contra irmão. O Almirante sem medo. Não gosto de ser sequestrado. Ser sequestrado é uma coisa que me chateia. Isto foi para corrigir o que estava mal. Isto vai acabar mal! A bem ou a mal. Saímos do Euro? Renegociamos? Há quem fale nisto em privado. Até já há um livro sobre o assunto. E depois? Vamos recuar 40 anos.

 

     SAUDADES. Ultrapassagem, (1962), um filme de Dino Risi, dá-nos conta de um tempo risonho e optimista. De um tempo de inocência. De um tempo sem dúvidas nem dívidas. De um tempo em que ainda havia futuro, e o futuro estava ao virar da esquina. De um tempo em que não se conhecia nem o politicamente correcto nem o politicamente incorrecto. De um tempo em que se compravam, num restaurante, não um maço, mas uma ou duas carteiras de cigarros, e, que, depois do almoço, se levavam debaixo do braço. De um tempo em que se praticava a condução, a seguir à libação. De um  tempo excessivo e público em tudo: tabaco, álcool, velocidade, engate, sexo, comida, música, dança. De um tempo em que nada era proibido e nada fazia mal. De um tempo em que um homem podia viver de expedientes e ninguém se importava. Enfim, de um tempo em que o curso de Direito dava  a segurança e a tranquilidade de um Fiat 1500. Sem o saber, ou talvez sabendo-o, Dino Risi estava a remeter-nos para um tempo que em breve iria acabar, e do qual, já em tempos sombrios e de dogmas, a valer e a doer, provavelmente iriamos todos ter saudades.     

 

     O génio é isto, caramba. Plasmado na lei. Dura lex sed lex. Senão vejamos. Senão. Se. A lei é igual para todos. Princípio da equidade. O desconhecimento da lei não aproveita a ninguém. Salvo melhor opinião. Salvo melhor. Salvo. S.M.O. SOP. SOS. Save our souls. Este é o meu parecer. Ela ainda recebe o subsídio de desemprego? Não falta muito. Termos em que as acusações devem ser consideradas improcedentes, por não provadas. Pois, assim decidindo, se fará JUSTIÇA. Cum grano salis. A gaja pôs-se a jeito. Ela só fala do penúltimo emprego. Ela não diz uma única  palavra acerca do último emprego. A indivídua odeia o último emprego. Uma vaidosona, é o que ela é. A velhice é uma coisa triste. É tão simples como isto. Se ela tem a reforma que tem, deve-o ao último emprego, e não ao penúltimo de que tanto fala. Resistência passiva. O tipo está a pagar pelas maldades todas. Faltou-nos o Feudalismo. E os castelos? Pertenciam às ordens religiosas e militares. Faltou-nos também uma classe dirigente forte. Faltou-nos a elite. Foi por não haver uma classe dirigente forte que a classe média tomou conta disto. As sociedades são como a Natureza: têm horror ao vazio. Precisam de classe qualquer que as dirija. Ou de uma pessoa qualquer. Aqui é que a porca torce o rabo. O país é pobre. Falta tudo. Falta agricultura. Faltam as pescas. Faltam as matérias-primas. O gajo sabia disto tudo. O gajo conhecia bem o seu próprio país, e não tinha muitas ilusões. Foi por isso que ele se agarrou com unhas e dentes às colónias. Sei o que quero e para onde vou. E os reis, também. Daí as aventuras coloniais. Vamos regressar à emigração. Já regressámos à emigração. É o nosso triste fado. Ó rua do Capelão, juncada de rosmaninho. Há mar e mar, há ir e voltar. A verdade a que temos direito. Vade retro satanás. Vá de metro satanás. Os quatrocentos golpes. Trinta por uma linha. Agarrem-me, senão eu saio da coligação!

 

    Com Ulisses a literatura adquire, tal como a ciência, o poder de ordenar o universo e de o resumir numa síntese grandiosa e definitiva. Caracteres, ambientes, situações, tudo se reveste de um valor alegórico seguindo as leis da própria natureza. Enigma, Ulisses convida o leitor a distinguir a causa do efeito, a verdade da aparência, tentativa audaciosa que submete o romance à revolução que Freud tinha imposto na psicologia, Marx na economia, Einstein na física e não é por acaso que a obra se fixa sobre os três planos fundamentais, o indivíduo, a sociedade e o cosmos, pondo a claro os conflitos do modernismo, o papel do inconsciente e a relação dos fenómenos. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

publicado por flagrantedeleite às 12:21
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