Quinta-feira, 4 de Outubro de 2012

CORRENTE DE CONSCIÊNCIA (episódio 1)

    Toque de alvorada. Honeste vivere, neminem laedere, suum cuique tribuere. Eu sou o pão da vida, que se prova e não se sente fome, o que sempre beber do meu sangue, viverá em mim e terá a vida eterna. Diz-me lá os teus pecados, menino. Senhor padre, eu. Lá vamos, cantando e rindo, levados, levados, sim. O povo é sereno. Heróis do mar, nobre povo, nação valente. João de Deus. Cartilha Maternal. Ele lê pela cartilha. Ele não dispensa a cartilha. A Cartilha do Marialva. Por um euro, o que é que tu queres, pá? Ópera?! A  ave. E  égua. I  igreja. O  ovo. U  uva. Em quem pensaste, menino? Não posso dizer, senhor padre. Para Angola, rapidamente e em força! Batem leve, levemente, Como quem chama por mim, Será chuva? Será gente? Gente não é certamente E a chuva não bate assim. Pai, sou ministro. Tarzan e as Amazonas. Mais vale um safanão a tempo do que deixar o Diabo à solta no meio do povo. Johnny Weissmuller ou Lex Barker? Raras vezes tenho dúvidas e nunca me engano. Maria, tota pulcra est. Na Cova da Iria. Daniel na cova dos leões. Atrás de mim virá quem bom de mim fará. E o Gordon Scott? Também foi Tarzan. Ainda meio ensonada  A bela vila de Pinheiros  Acordou alvoroçada Com o toque de alvorada  Do quartel dos bombeiros. 1700 Euros mensais. Não sei se ouviram bem?! 1700 Euros mensais! Tutto bene, Mamma!

 

CRUCIFIXO

 

Minha mãe, quem é aquele

Pregado naquela cruz?

- Aquele, filho, é Jesus...

É a santa imagem d'Ele.

 

- E quem é Jesus? - É Deus!

- E quem é Deus? - Quem nos cria,

Quem nos manda a luz do dia

E fez a terra e os céus.

 

E veio ensinar a gente

Que todos somos irmãos

E devemos dar as mãos

Uns aos outros, irmãmente:

 

Todo amor, todo bondade!

- E morreu? - Para mostrar

Que a gente, pela verdade,

Se deve deixar matar.

 

   Um povo honesto, corajoso e trabalhador. Sei muito bem o que eu quero e para onde vou. O Mundo mudou. O vento mudou. Ele mudou. Já não é o mesmo. Sanctus, Sanctus, Sanctus, Domines Deus Sabath pleni sunt caeli et terra Gloria tua. Os três princípios básicos do Direito, segundo o Digesto. Me Tarzan, you Jane. Morreram com as colheres atravessadas na boca. Deus fez a comida, o diabo os cozinhados. Vai um copo? Não, obrigado. Quando tenho fome, bebo leite; quando tenho sede, bebo água. 22 anos da minha vida. 22 anos queimados, nesta empresa. Eu era uma jovem. E agora dão-me um papel para o subsídio de desemprego. Já viu isto? Diz-me lá os teus pecados, menino. Senhor padre, eu. Em quem pensaste? Não posso nem tenho que dizer, senhor padre. Sou velha para trabalhar, e nova para me reformar. Já viu isto? Ó Evaristo, tens cá disto? A solução passa necessariamente por. Dito isto. E=mc2. Sabe o que é isto? Não estudei isto no meu curso de Física. Isto, bem dividido, dá para todos. Rock around the clock. Olhe que não é rock à volta do relógio. Around the world in eighty days. Mas que gaja tão boa, a D. Isaura. Dizem que o tipo nasceu no saco. No saco? Saco de plástico? Não, o saco amniótico. Ou a bolsa amniótica. Lei da Gravitação Universal. Onde estava no dia 25 de Abril? Estava na barriga da minha da mãe e já trabalhava nos cornos. O Mundo Nos Seus Braços. O mundo livre. O mundo a seus pés. Os seis irmãos são muito prendados. Todos escrevem e todos publicam livros. São muito dotados. São uns sabões. Todos Os Irmãos Eram Valentes. Todos Morreram Calçados. Um por todos e todos por um. Orgulhosamente sós!

 

No plaino abandonado

Que a morna brisa aquece,

De balas trespassado

- Duas de cada lado-

Jaz morto, e arrefece.

 

   O génio é isto, caramba. Estou confortavelmente sentado em cima de um milhão de livros vendidos. Mesmo no mais alto trono do mundo, estamos sempre sentados sobre o nosso rabo. O padre anda a pôr-se nela. O gajo não olha a meios para atingir as saias. E o marido? Chapéus há muitos, seu parvalhão. Ele anda positivamente a apanhar bonés. Deu-lhe a sinistrose. Deu-lhe forte e passou depressa. Ah, se fossem causas de morte súbita: a inveja, a mentira, a calúnia, a difamação, a arrogância, a hipocrisia, a ganância, o oportunismo. Não haveria cal viva que chegasse! Nem valas comuns! Nem fornos crematórios! Nem as três coisas juntas! Cá se fazem, cá se pagam. Deus não dorme. Doa a quem doer. Haja o que houver. Faça-se o que se fizer. Custe o que custar.

 

    Shane é o herói assumidamente clássico. Shane é o herói que, na contabilidade do Bem e do Mal, não hesita nem tergiversa. O Bem é o Bem, e o Mal é o Mal. Não há mas nem meio mas. E a opção de Shane pelo Bem é clara e inequívoca. E, para o provar, conta com a destreza do punho e a certeza da bala. Shane é o herói cujo passado ninguém conhece, e o futuro é sempre uma incógnita. Viver de passagem é a sua grande tragédia. É de passagem que Shane deixa uma mulher inutilmente apaixonada. E é de passagem que Shane despacha um ajuste de contas final. As suas feridas, do corpo e da alma, se és que as tem, encarrega-se ele próprio de as curar. Como convém a um herói assumidamente clássico.      

 

   O génio é isto, caramba. A Pátria não se discute. Angola é nossa! Angola é nossa! Grândola vila morena, terra da fraternidade. Senhor Dr. Juiz, eu era retornado...O senhor era retornado e continua a sê-lo. Retornado é uma qualidade que não se perde. Qual   o preço   desta   montra  final? As gajas são muita boas. Aquilo é televisão pública? Olhos nos olhos. Há uma linha que separa. A Rapariga do Rio Pó. Nos seu olhos é sempre meia-noite! O Eixo da Má-Língua. África Minha. Dizem que ela tem uma casa em Marrocos. O Povo Unido Jamais Será Vencido. ALIANÇA POVO MFA. Ele tem muitas avenças. E o escritório? Aos costumes, nada disse. Quosque tandem, Catilina, abutere patientia  nostra? É a África ao virar da esquina. África aqui ao lado. O Império do Mal. O Império dos yahoos. Quando quer impressionar, que escritor costuma citar? Margarida Clara Inês Pinto Ferreira Rebelo Magalhães Alves dos Santos. E o Jeep? No Reino da Calúnia. No Reino da Dinamarca. No Reino de Caliban. No Reino dos Cucos. O Eixo dos Sentidos. Bardamerda para o fascismo. É só fumaça! Os concorrentes são pequenos, gordos e anafados. E desdentados. E desalinhados. E desajeitados. É o que há. É o que os novos tempos permitem. É o que a crise deixa passar. Não gosto de esr sequestrado. Ser sequestrado é uma coisa quem me chateia.

 

     UMA FAMÍLIA PORTUGUESA. A loja do senhor Monteiro é uma reminiscência antiga e persistente. Tal como outras reminiscências, trago-a da minha infância, sem ódio nem rancor. O senhor Monteiro era um lojista que aliava o dom da oratória fácil à técnica da venda fácil. O senhor Monteiro vendia e filosofava ao mesmo tempo. Do abrir ao fechar da loja, o senhor Monteiro nunca parava. Nem de palrar nem de facturar. À enorme distância de seis décadas, o senhor Monteiro era um fala-barato, com auditório garantido. Era o Monteiro sem metafísica. O genuníno Monteirinho: baixo, gordo e anafado. Nas intermináveis férias do Verão, apareciam os três filhos, que, por desfastio e desenfado, davam uma mãozinha no aviamento.  Um deles, o Pedro, depois de aviar as clientes ao balcão, metia-as, no armazém ao lado, e aviava-se. Não sei se todos os irmãos eram valentes. Só sei que todos morreram calçados e de morte macaca. Em coisa de meses, os três bateram a bota de enfiada e quase jovens. O mais novo, o Mauel, foi-se de maleita ruim, que normalmente é prolongada, mas que, no caso dele, foi num ai. Ao do meio, o Paulo, também tratado por Paulinho, não deu tempo nem para um ai, nem para um ui. Deu-lhe o badagaio. O dito pedro foi colhido, para sempre e em contramão, no Centro da cidade grande, onde, por sinal e por ironia, era médico e vivia de bom rédito. Esta é a história exemplar e verdadeira de uma família portuguesa, que, com toda a certeza, também punha o vinho sobre a mesa.  

 

      O génio é isto, caramba. A gaja foi mostrar Nova Iorque aos netos. Em plena crise. Portugueses! Resumindo: a classe média suspirou de alívio. Só que a prosperidade era falsa. Só que o dinheiro não resultava do nosso crescimento económico. Só que o nosso crescimento económico foi anémico no período do regabofe consumista. Só que fizemos a festa com o dinheiro dos outros. Só que o dinheiro era sobretudo emprestado. Só que a conta, mais dia, menos dia, havia de chegar. Quando regressou, ela tinha a factura à sua espera. Ficou pior do que uma barata tonta. Quase lhe deu o Amoque. A velhice é uma coisa triste. A única boa notícia é que, este ano, o vinho vai ser bom. E o bagaço? Há passarinhos. Tem casa? Paga contas de luz, água, gás, além das prestações ao banco? Sim. Então é um homem apertado. Como vê, eu sou um homem livre. Como vivo na rua, não tenho contas a pagar. Vivo ao relento e não tenho problemas. Não vivo apertado. Se me perguntam. Há codornizes. Vamos fazer mais do que a troika pede ou exige. Temos muitas e boas ideias para o país. A trioka gostou de ouvir os nossos técnicos, nas negociações. Há pipis. O apresentador, também. Mas esse tem a quem sair. Quem sai aos seus, não degenera. Ah, poder ser tu, sendo eu! Ter a tua alegre inconsciência, e a consciência disso!  O génio é isto, caramba.

 

    Quis o Destino que a ascensão, alegre e triunfal, da classe média portuguesa começasse por um dirigente social-democrata, Aníbal Cavaco Silva; quis também o Destino que o declínio, lúgubre e sombrio,  da mesma classe, começasse por um outro dirigente social-democrata, Pedro Passos Coelho. O primeiro trouxe-nos fartura; o segundo apresentou-nos a factura. O resto é o filme que estamos todos a ver neste momento.  

 

 

publicado por flagrantedeleite às 12:46
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