Quinta-feira, 28 de Junho de 2012

POR QUEM OS SINOS DOBRAM

    Há quem não se conforme com a passividade dos Portugueses face à crise, face às medidas de austeridade, face ao seu empobrecimento. Há quem não se contente com a indiferença dos Portugueses, com o alheamento dos Portugueses, com a mudez dos Portugueses. Há quem berre, de veias alteradas no pescoço, contra o assobiar para o lado dos Portugueses, contra o virar de costas dos Portugueses, contra o fatalismo dos Portugueses. Há quem vocifere, de narinas dilatadas, contra Fátima, contra o futebol e contra o fado dos Portugueses. Há quem expluda, de chispa nos olhos, contra a doçura dos Portugueses, contra a candura dos Portugueses, contra a brandura dos Portugueses.

    Os que assim pensam, falam e reagem, são os mesmos que dão como exemplos a seguir os Gregos, os Espanhóis, os Indignados. Os mesmos que têm à frente de si os cocktails Molotov, as montras partidas, os automóveis em chama, os pneus fumegantes, as pedras da calçada, as barricadas das ruas. Os que têm atrás de si a obsessão do 14 de Julho, a fixação da Comuna de Paris, a compulsão do Maio de 68. Os que têm sobre si a sombra de Bakunine, o fantasma de Lenine, o terror de Estaline, a sina de Trotsky. Os que recordam com nostalgia o PREC, revivem com melancolia o Otelo, relembram com orgulho o Vasco. Os que querem trazer todo esse passado para o presente dos Portugueses, para o quotidiano dos Portugueses, para o viver habitualmente dos Portugueses, para a mesa dos Portugueses, para os televisores dos Portugueses. Os que querem sacudir os Portugueses, acordar os Portugueses, agitar os Portugueses, animar os Portugueses, reanimar os Portugueses, salvar os Portugueses. Os que apoiaram reivindicações irrealistas, aplaudiram reivindicações fabulosas, acharam as reivindicações insuficientes, e pediram mais reivindicações, mesmo quando já não havia nada a reivindicar. Os que clamam com urgência pela união política da Eurolândia, bradam com insistência pela união Eurofiscal, suspiram com premência pelos Eurobonds, exigem com veemência a fabricação de Euronotas.  Os que não aceitam o peso da culpabilização colectiva, rejeitam a tese do consumismo selvagem, abominam o argumento dos gastos acima das nossas possibilidades, enjeitam a lembrança de que o dinheiro não era nosso. Os que agora recuperam o slogan os ricos que paguem a crise, os que querem a mandar a factura de volta à procedência, aos Alemães, aos Finlandeses, aos Holandeses, aos bancos deles, aos seus Ministros, à Merkel, ao Shäuble, à Lagarde. Os que agoram buscam afanosamente os bodes expiatórios, que apontam indiscriminadamente o dedo indicador, que assacam acaloradamente as responsabilidades. Dos que ao pequeno-almoço acusam implacavelmente os mercados; ao almoço culpam imperdoavelmente as agências de rating; ao jantar crucificam impiedosamente os bancos germânicos. Os que querem a casa desarrumada, a casa em desordem, a casa de pernas para o ar, a casa de pantanas. 

     O grande problema é que esse não é o discurso nem o temperamento dos Portugueses. A grande chatice é que os Portugueses não estão para aí virados. A grande bronca é que os Portugueses não podem ser de brandos costumes às segundas, quartas e sextas, e agitadores de rua, às terças, quintas e sábados. O grande incómodo é que Mr. Hide e Dr. Jekyll  aparecem no romance de Robert Louis Stevenson, e pouco mais. O grande drama é que os Portugueses já viram esses filmes todos. A grande tragédia é que os Portugueses já deram para esses peditórios todos. A grande cena é que os Portugueses acordaram atónitos de uma noite de enorme bebedeira, e estão a curar essa mesma bebedeira. Estão a ressacar. A deglutir. A regurgitar. A dar de si. A tomar consciência. A beliscar na própria pele. A penitenciar. A penar. E, ao mesmo tempo, a chorar. A chorar baba e ranho. A chorar de olhos lacrimejantes. A chorar de olhos bem abertos. A chorar de lenço na mão. A chorar pelos cantos.

    E um povo que chora, não canta. Nem luta. Nem pia. Nem grita. Nem pastaneja. Nem esbraceja. Nem esperneia. Nem espingardeia. Nem se manifesta. Nem protesta. E um povo que chora, simplesmente chora e sofre. Sofre curvado e em reflexão. Em genuflexão. Em contrição. Em união. Em reunião. Em comunhão. Em congregação. Em colectivo. Em vigília. Em silêncio. No silêncio dos inocentes.

    Quando muito, à tardinha, esse mesmo povo senta-se ao pé da janela e recorda com tristeza e saudade aquelas belas férias passadas na Tailândia, no Brasil e em Cuba; aquelas belas segundas casas, no campo e na praia; aqueles belos 2 e 3 automóveis por família; aqueles belos restaurantes com vista para o mar; aqueles belos créditos bancários sempre disponíveis para tudo; aquelas belas promoções, e reestruturações de carreiras; aqueles belos prémios e subsídios. Em suma, aqueles belos e gloriosos 20 anos, os melhores anos da sua vida. Os seus Golden Twenty. Enfim, aqueles belos sonhos de uma noite de Verão; sonhos que, da noite para o dia, se transformaram em monstruosos pesadelos. Os pesadelos das devoluções, das contas, das execuções, dos cortes, dos impostos, dos incumprimentos, dos despedimentos, dos desempregados, dos resgates, das troikas, dos défices, das falências, das desgraças, das misérias. Ou seja, o reverso da medalha, a outra face da lua, o outro lado do paraíso. O pagamento dos pecados, da gula, da luxúria, dos excessos, das dívidas, do esbanjamento, da orgia, do buraco em que os Portugueses se meteram.

     Outros povos, e em outras épocas, pagaram, e de que maneira! os seus desmandos e desatinos. Pagaram, com língua de palmo, o aventureirismo, o desgoverno e a irresponsabilidade. Fizeram-no silentemente, obedientemente, diligentemente. No mínimo, é o que espera os Portugueses, e eles sabem-no. Por isso, não podem ir em cantigas! Nem em festas! Nem em tretas! Afinal de contas, a memória de um povo tem mais força do que a força de alguns ingénuos! 

 

Rectificações: no texto anterior, intitulado O COLAR: 1º. parágrafo: a) Guy de Maupassant; b) (...) o conto é de 1884 (...).

                        Diálogo final: (...) desde a última vez que te vi (...).                

publicado por flagrantedeleite às 12:02
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