Quinta-feira, 21 de Junho de 2012

O COLAR

O título é de um conto de Guy De Maupassant, ( escritor francês, 1850/1893) e encontra-se publicado em Contos Escolhidos, do mesmo autor, Publicações Dom Quixote, 2011, com tradução de Pedro Tamen. É exactamente esse conto que a seguir se vai resumir, sem qualquer comentário, e dando a palavra, em itálico e a negrito, ao seu próprio criador, sempre que tal se justifique ou se mostre oportuno. Ah, convém acrescentar: o conto é 1883, e passa-se em Paris.

 

   Mathilde Loisel nasceu pobre, mas bela. Sonhava casar com príncipes e no entanto estava-lhe reservado, como marido, um modesto amanuense do Ministério da Instrução Pública. Ambicionava palácios e morava numa humilde parte de casa mobilada.

   Não possuía toilettes, nem jóias, nada. E só gostava dessas coisas: sentia-se feita para elas. Como desejaria agradar, ser invejada, ser sedutora e solicitada...

   Tinha uma amiga rica, uma colega de convento, que já não ia visitar por sofrer tanto ao regressar a casa. E chorava dias inteiros, de tristeza, de nostalgia, de desespero e de angústia. 

    Uma tarde, o marido chegou a casa e comunicou-lhe com ar radiante: recebi um convite para uma soirée oferecida pelo Ministro da Instrução Pública e sua esposa. A senhora Loisel mostrou-se triste e desalentada: não tenho vestido. O marido comprou-lhe com grandes sacrifícios um vestido de quatrocentos francos. Mas a Mathilde continuava insatisfeita: não tenho jóias. E o senhor Loisel sugeriu: fala com a tua amiga, a senhora Forestier, e pede-lhe que te empreste umas jóias. Tens tão boas relações com ela que podes pedir-lhe isso.

   A senhora Loisel gostou imenso da ideia, e foi a casa da amiga. Após experimentar vários adereços, diante do espelho, escolheu um soberbo colar de diamantes.

   Chegou o dia da festa. A senhora Loisel obteve um grande êxito. Era a mais bonita de todas, elegante, graciosa, sorridente e louca de alegria. Todos os homens a observavam, perguntavam o nome dela, tentavam ser-lhe apresentados. Todos os adidos do gabinete queriam dançar com ela. O Ministro reparou nela.

   Ela dançava numa embriaguês, com entusiasmo, inebriada de prazer, sem pensar em mais nada, no triunfo da sua beleza, na glória do seu êxito, numa espécie de nuvem de felicidade feita de todas as admirações, de todos aqueles desejos despertados, daquela vitória tão completa e tão doce ao coração das mulheres.

   Para a senhora Loisel a festa foi um triunfo completo, e regressou a casa na maior felicidade. Ao despir-se diante do espelho soltou um grito: tinha perdido o colar da senhora Forestier. Procuraram a jóia por toda a cidade, sem qualquer resultado. E a verdade é que o colar tinha de ser devolvido à sua proprietária. Ela e o marido percorreram todas as joalharias de Paris, até que encontraram um colar semelhante ao que desaparecera. Custava quarenta mil francos, mas, após alguma discussão, o joalheiro concordou em vendê-lo por trinta e seis mil francos.

   Loisel possuía dezoito mil francos e pediria o resto emprestado.

   E contraiu empréstimos, pedindo mil francos a um, quinhentos a outro, cinco luíses aqui, três  luíses acolá. Passou letras, assumiu compromissos ruinosos, foi obrigado a entender-se com os usurários, com todas as espécies de prestamistas. Empenhou-se até ao fim da vida, arriscou a sua assinatura sem saber sequer se poderia honrá-la, e, apavorado pelas angústias do futuro, pela negra miséria que ia abater-se sobre si, pela perspectiva de todas as privações físicas e de todas as torturas morais, foi buscar o colar novo, depondo em cima do balcão do comerciante trinta e seis mil francos. 

   E o colar foi por fim devolvido à senhora Forestier, que nem se deu ao trabalho de abrir o estojo.

  A senhora Loisel conheceu a vida horrível dos indigentes. Aliás, resignou-se definitivamente, heroicamente. Era preciso pagar aquela dívida assustadora. E ela havia de pagá-la. Despediram a criada; mudaram de casa; alugaram uma mansarda.

   Ficou a saber o que são os pesados trabalhos da lida casa, as odiosas tarefas da cozinha. Lavou a loiça, gastando as unhas cor-de-rosa nos barros gordurosos e no fundo das panelas. Ensaboou a roupa suja, as camisas e os panos de cozinha, que estendia a secar numa corda; todas as manhãs trazia o lixo para baixo, para a rua, e trepava a escada com a água parando em cada andar para recuperar o fôlego. E, vestida como uma mulher do povo, ia à frutaria, à mercearia, ao talho, de alcofa debaixo do braço, regateando, maltratada com insultos, defendendo tostão a tostão o seu miserável dinheiro.

   Todos os meses havia que pagar letras, que reformar outras, que ganhar tempo.

   O marido trabalhava ao fim da tarde a escriturar as contas de um comerciante, e à noite, muitas vezes, fazia cópia a cinco soldos por página.

   E durou esta vida dez anos.

   Dez anos passados, tinham pago tudo, tudo, incluindo a taxa de juro e os juros acumulados.

   Agora a senhora Loisel estava uma velha. Transformara-se na mulher forte, e dura, e rude, dos lares pobres. Mal penteada, com as saias de esguelha e as mãos avermelhadas, falava alto, lavava o soalho a baldes de água. Mas às vezes, quando o marido estava na repartição, sentava-se ao pé da janela e pensava naquela soirée de há tanto tempo, naquele baile onde estivera tão bela e fora tão desejada.  

   Um domingo, a senhora Loisel, agora profundamente marcada pelos anos e pelas agruras, andava a passear pelos Campos Elísios para descansar dos trabalhos da semana. Avistou de repente uma mulher que vinha em sentido contrário. Era a senhora Forestier, sempre jovem, sempre bela, sempre sedutora. Após alguma hesitação, a senhora Loisel cumprimentou-a: bom dia Jeane. A amiga fitou-a, mas não a reconheceu.

   - Ora...Minha senhora...Não sei...Deve estar enganada...

   - Não. Eu sou a Mathilde Loisel.

A amiga soltou um grito:

   - Oh! Minha pobre Mathilde, como tu mudaste!...

   - Pois mudei, vivi uns tempos bem duros, desde a última que te vi; e muitas misérias...E tudo por causa de ti.

   - De mim...Como assim?

   - Deves lembrar-te bem daquele colar de diamantes que me emprestaste para ir à festa do Ministério.

   - Sim, e então?

   - Pois foi, eu perdi-o.

   - Ora essa! Mas tu devolveste-mo...

   - O que eu te levei era outro muito parecido. E passámos dez anos a pagá-lo. E, como imaginas, não era fácil para nós, que não    tínhamos um tostão...enfim, acabou, e estou inteiramente satisfeita.

A senhora Forestier estacou.

   - Dizes tu que compraste um colar de diamantes para substituir o meu?

   - Pois foi. Não tinhas dado por isso, hem? Eram mesmo parecidos.

E sorria com uma alegria orgulhosa e ingénua.

A senhora Forestier, muito comovida, agarrou-lhe as duas mãos.

   - Oh, minha pobre Mathilde! Mas o meu era falso! Valia, quando muito, uns quinhentos francos!... 

   

              

 

publicado por flagrantedeleite às 12:31
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