Quinta-feira, 14 de Junho de 2012

SEXO, MENTIRAS E VÍDEOS

   O consumismo é uma praga que nasceu no século XX, nos países capitalistas ocidentais, e se espraiou pelos tempos presentes. Nada escapa ao apetite devorador e alienatório do consumismo. O consumismo varre tudo o que lhe surge pela frente. Desde o simples sabonete ao romance mais volumoso, passando por artigos e crónicas (semanais e até diários) de jornais, por filmes, por programas de rádio e de televisão, tudo se submete ao império do consumismo. Tudo está nivelado pelo padrão do consumismo mais desenfreado e estonteante. No sexo, através do sexo,  no desporto, nas artes, na informação, na distribuição, na televisão, na moda, é o consumismo que manda.

   O sexo, real ou dissimulado, é vendido em anúncios de jornais, ao lado da necrologia. O sexo, explícito ou sugerido, é transaccionado 24 horas por dia em respeitáveis canais de televisão. O sexo, aberto ou escondido, forra estantes de vídeotecas familiares. O sexo, declarado ou disfarçado, confunde-se com a moda, dissolve-se na dieta, mistura-se com o sucesso, decora capas de revistas, preenche argumentos de cinema.

   O consumismo governa cada vez mais o desporto e o desporto-rei que vamos tendo. A engrenagem consumista do futebol está montada para funcionar com a precisão de um relógio electrónico. E nessa mesma engrenagem sobressaem três peças fundamentais: em primeiro lugar, a Organização; a seguir, os futebolistas e os técnicos; por fim, os espectadores ou os consumidores. São os últimos, os espectadores, que alimentam ou sustentam, literalmente, os dois primeiros, ou seja, a Organização, os futebolista e os técnicos, e tudo o que gravita à sua volta.

   Já não bastavam os saudáveis desafios de futebol, em tardes domingueiras. Aliás, tais desafios deixaram de existir. E os seus frequentadores também. Esses encontros aparecem agora no horário nobre das televisões, e nos dias úteis da semana. As bancadas foram substituídas pelos sofás. A luz solar deu lugar à luz eléctrica. As multidões dos estádios foram destronadas pelas solidões dos lares. Os gritos das claques presentes foram abafados pelos silêncios dos espectadores ausentes. Tudo a bem das transmissões televisivas, que impõem os seus próprios horários comerciais. A bem da publicidade consumista. A bem dos que, no remanso dos seus luxuosos gabinetes, empocham rios de dinheiro. Dos que não precisam de jogar no campo, porque ganham sempre na secretaria. Dos que andam de Mercedes, BMW's, Ferraris e outras marcas que tais. Dos que ditam as regras dos jogos. Dos que impõem as regras dos jogos. Dos que se eternizam nos cadeirões. Dos que nos servem as jogadas em combinação com os detergentes. Dos que preservam os penaltis em latas de conserva. Dos que douram os apitos e enchem as carteiras.

   Também não pode parar a máquina que suporta o negócio editorial. O negócio que nos traz e anuncia os best-sellers, as revelações, as originalidades, as traduções, os prémios, os autógrafos, as apresentações, as homenagens, as carreiras,  as heranças, os depoimentos, os registos, os estilos, os compromissos, as glórias, as prateleiras, os leitores, as adaptações, as filas, as feiras, as vaidades, os orgulhos, os conhecidos, as obras, as ficções, as reedições,  as distribuições, as habituais, as vozes, as esperas, os contratos, as cláusulas, as assinaturas, os riscos, as contas, as facturas, os impostos, as fundações, os restaurantes, os bares, os balcões, os mesmos, os parentes, os amigos, os colegas, os confrades, os correligionários, os plágios, os direitos...

   Voltando ao consumismo, ou insistindo nele, constata-se que um pouco atrás se falou no seu carácter alienatório e também se constata que o vocábulo alienatório caiu estranhamente em desuso. E no entanto o significado filosófico da palavra alienação, da qual deriva o termo alienatório, e tal como estabelecido pela Nova Enciclopédia LAROUSSECírculo de Leitores, 1994, mantém uma enorme e espantosa actualidade: Sentimento de afastamento e de estranheza em relação à sociedade e à cultura. Para o indivíduo alienado os valores e as normas sociais dos outros surgem sem sentido, o que lhe reforça o sentimento de isolamento e de frustração. A alienação implica também um sentido de impotência. O indivíduo sente-se incapaz de controlar o seu próprio destino e de exercer, através da sua acção, um efeito sobre os acontecimentos do mundo. 

   Dito de outro modo, e incidindo ainda sobre o consumismo, eis o que podem ser os seus frutos malignos, quando o mesmo fenómeno é erigido em dogma ou forma de viver soberana: o anestesiamento, a marginalização, e, por vezes, a própria aniquilição social, cultural e política da pessoa. Mas a alienação não aparece apenas associada ao consumismo. ( De resto, e de certa maneira, o consumismo é um epifenómeno, que, mesmo assim, urge denunciar e combater). A alienação pode derivar também da política tout court. Ela pode ser o resultado, por exemplo, de políticas económicas desviantes ou perversas; políticas económicas que desvirtuam ou subvertem o sentido último do conceito de Economia tal como entendido, entre outros, por Paul A. Samuelson e William D. Nordhaus: O estudo da forma como as sociedades utilizam os recursos escassos para produzir bens com valor e como as distribuem entre os seus diferentes membros. 

   À luz da citada noção de Economia, o que se verificou nos últimos decénios, nas economias neoliberais do Ocidente, em particular, nos países periféricos da zona Euro, não foi a produção de bens com valor, e com vista à sua distribuição entre os diferentes membros. O que aconteceu de facto foi o desvio dos investimentos financeiros quase exclusivamente para as actividades especulativas, na banca descontrolada, no crédito instantâneo, nos jogos da bolsa, no imobiliário, no comércio, e, sobretudo, na economia do consumo, actividades que podem dar mais dinheiro,  ou mais lucro, é certo, mas que reduzem a zero o crescimento e a riqueza produtiva ou reprodutiva; que põem de lado as indústrias, a pesca, a agricultura, etc. A prioridade foi dada ao sector financeiro ( mais imediato, mas de mais risco) em prejuízo da Economia ( mais certa, mas mais trabalhosa). Daí até ao consumo selvagem foi um pequeno passo. Daqui até ao consumismo foi um outro pequeno passo. Em suma, passou-se a viver em economias de consumo, economias que dependem essencialmente do dinheiro e da sua circulação intensiva. Enquanto houve dinheiro, tais economias de risco, as dos países periféricos da zona Euro, funcionaram na perfeição e na mais completa euforia. Quando o dinheiro se esgotou, essas mesmas economias ruíram como castelos de cartas e caíram na mais total depressão. É a situação em que se encontram presentemente a Irlanda, a Grécia, Portugal e a Espanha, todos intervencionados por entidades estrangeiras. Tudo indica que, dentro de instantes, a Itália seguirá o mesmo caminho.

   Durante muito tempo, a Irlanda foi apresentada como o Tigre Celta, e, afinal, não passava de uma vulgar gatinha doméstica. A Grécia, além de tudo o mais, martelou reiteradamente, as contas. Para o cômputo do resgate, económico e financeiro, de Portugal, no valor de 78 mil milhões de Euros, não foram tomados em devida consideração os défices da Madeira, das Autarquias e das Empresas Públicas. Estes défices são, portanto, perigosos icebergues, a flutuar nas costas portuguesas. A Espanha não está sob resgate de Países estrangeiros. No dizer do seu patético Presidente do Governo, foi aberta à Espanha uma linha de crédito no valor de 100 mil milhões de Euros. A Itália tem estado muito calada. A ver se consegue safar-se por entre os pingos da chuva.

   Vivemos tempos sombrios e aziagos. Tempos da mentira, da abjecção e da pornografia. Tempos em que, paradoxalmente, ainda há quem se escandalize com um ou dois vernáculos, proferidos em momento oportuno, e em puro jeito de desabafo. São os tempos que temos!      

     

               

publicado por flagrantedeleite às 12:22
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