Quinta-feira, 7 de Junho de 2012

SODOMA E GOMORRA

   Fim-de-Semana Alucinante (Deliverance, no original), 1972, de John Boorman, filme americano, conta-nos a odisseia de 4 homens, da classe média urbana, que, só por desfastio e desenfado, descem em duas canoas um rio selvagem, em vias de desaparecer, e pelo meio de uma região inóspita. A aventura acaba em tragédia.

   A Grande Farra (no original: La Grande Bouffe), 1973, de Marco Ferreri, filme francês, é um relato de 4 homens, da classe média urbana, que, cansados do tédio e do quotidiano, se juntam num casarão isolado, mas no interior de uma qualquer cidade europeia, para uma prolongada orgia de comida e de sexo. A aventura salda-se pela morte trágica dos quatro devassos, um deles desfeito, literalmente, em merda. 

   As duas películas são de uma evidente actualidade, e, por coincidência ou não, ambas abordam praticamente as mesmas questões, através dos mesmos tipos de personagens. Falam-nos sobretudo do pessimismo e do mal de vivre da classe média ocidental e consumista. Algo que começou no século XX, mais precisamente no pós-guerra, e ainda perdura nos nossos dias, talvez até de forma agravada. Dir-se-ia que os dois filmes nos observam à lupa, pela mesma lente, e à distância de 40 anos. Estamos à espera dos próximos capítulos.

  Classes sociais? Classe alta? Classe média? Mas o que é isto? Não sei o que são classes sociais. Só sei que há individuos, que há profissões, que há famílias, que há maridos, esposas, filhas e filhos, mas de classes sociais, não tenho quaisquer notícias.

   As palavras são de Margareth Tatcher, a mesma que, na década de 80, do século passado, e com Ronald Reagan, mesmo a seu lado, achou que podia resolver todos os problemas do viver ocidental, enriquecendo os cidadãos; a mesma Margareth Tatcher que criou o capitalismo popular, a mesma que, sempre acompanhada de Ronald Reagan, ou o contrário, promoveu a desregulação bancária, incentivou a especulação bolsista e financeira, alimentou a economia de casino; a mesma que se inspirou nas teorias e nas doutrinas, neoliberais, do iluminado guru da Economia, Milton Friedman ( sim, esse mesmo, o que, com os brilhantes resultados que se conhecem, foi, a partir do golpe militar chileno, em 1973, apoiante polítco e conselheiro económico do General Pinochet, o cabecilha do dito golpe militar, o mesmo Milton Friedman que foi depois distinguido com o Prémio Nobel de Economia, em 1976) dos Chicago Boys ( sim, esses mesmos, os que se especializaram na receita económica do quanto mais pobre melhor, e fizeram do Chile e arredores, tubos de ensaio da ruína e da miséria), dos mesmos que, de um modo ou de outro, nos conduziram em linha recta à crise norte-americana do subprime, ou da bolha imobiliária, ( uma desvergonha do capitalismo ocidental) e, a seguir, às crises europeias das dívidas soberanas ( outras desvergonhas do capitalismo ocidental) em que nos encontramos presentemente; a mesma Margareth Tatcher e o mesmo Ronald Reagan, cujas políticas económicas e financeiras foram religiosamentes cumpridas pelos seus seguidores, adoradores e sucessores, nos Estados Unidos e na Europa, com promessas concretizadas de primeiras e segundas casas para todos; de 2 e 3 automóveis para todas as famílias; de férias baratas e tropicais para todos; do financiamento bancário fácil e rápido para tudo; do Modelo Social Europeu sem limites, que apoiou, subsidiou e amamentou tudo e mais alguma coisa; enfim, as conhecidas premissas do bacanal consumista em que o mundo ocidental se atolou, e cujas consequências sociais, económicas e políticas são uma procissão que ainda vai no adro; a mesma Margareth Tatcher, que não sabia o que eram as classes sociais, mas que, por uma enorme ironia da História, acabou por favorecer e fortalecer a classe alta, e enriquecer artificialmente a classe média, curiosamente, a sua classe de origem, que, pelos vistos e pelas aparências, ela nem conhecia, nem aceitava. Por fim, e como glorioso corolário das políticas económicas e finaceiras, inauguradas por Margareth Tatcher e Ronald Reagan, nasceu o já referido regabofe consumista, que, entre as inúmeras desgraças dele resultantes, e por outra enorme ironia da História, veio iniciar, já nos dias que correm, a destruição da classe média dos países pobres da zona Euro, e trazer-nos até aqui. Ou seja: mesmo à beira do abismo - sem qualquer medo do cliché, ou de outros fantasmas.

   Este texto abre com uma referência ao filme Deliverance. Não se resiste a terminar com um outro comentário à mesma película: quando os aventureiros de fim-de-semana, desfalcados de um companheiro, e maltratados no corpo e na alma, chegam ao fim do fatídico percurso fluvial, o primeiro aviso de civilização que encontram, e os deixa obviamente felizes, é a carcaça de um automóvel. Isto é: a felicidade perante o símbolo do consumismo ocidental, mesmo que reduzido a ferrugem. Ou convertido em trampa, que, para os efeitos, vem a dar tudo ao mesmo!       

   

publicado por flagrantedeleite às 12:24
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