Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

O PECADO MORA AO LADO

   Alfred Hitchcock não era homem para falar da política, nos seus filmes.  O Mestre achava que o público não aderia às questões políticas, quando tratadas no cinema. São do cineasta estas palavras, respigadas do famoso livro, HITCHCOCK diálogo com TRUFFAUT, (Publicações D. Quixote, 1987, pgs. 251, numa excelente tradução de Regina Louro): (...) O cinema americano aborda os assuntos sociais e políticos desde há muito tempo. Aliás, sem atrair multidões de espectadores.

   No entanto, aqui e ali, o autor de Janela Indiscreta foi fazendo pequenas excepções a essa quase regra de ouro de não se referir especificamente à política, nas suas películas. A mais célebre das excepções terá acontecido em O Homem Que Sabia Demais - 1ª. versão, de 1934, é bom ter presente. Num diálogo entre Mr. Gibson (Secretário do Min. dos Negócios Estrangeiros, inglês) e Mr. Lawrence (o protagonista) são do primeiro a seguinte pergunta e as consequentes reflexões: Diga-me, em Junho de 1914, ouvira falar de um sítio chamado Sarajevo? Claro que não. Aposto que nem ouvira falar do Arquiduque Ferdinando. Mas, num mês, porque um homem, que desconhecia, matou outro homem, que desconhecia, num sítio de que nunca ouvira falar, este país entrou em guerra. Claro que Mr. Gibson estava a fazer alusão concreta à Primeira Grande Guerra. Mas havia, também, no que ele disse, uma referência subliminar, mas certeira e premonitória, à Segunda Guerra Mundial, que, como se sabe, eclodiu 5 anos depois, ou seja, em 1939.

   A História é o espelho em que nos devemos rever, de vez em quando, e retirar daí as necessárias e sempre úteis lições ou ilações. Até porque, e ao contrário do que alguns pensam, a História repete-se. As mesmas causas produzem os mesmos efeitos. Não se pretende fazer aqui extrapolações precipitadas, mas a situação da Grécia pode e deve merecer do mundo uma particular atenção. A mesma atenção que Sarajevo devia ter merecido, há 98 anos atrás, e não mereceu, ou a mesma atenção que a ascensão nazi, na Alemanha, em 1933, devia ter merecido e não mereceu. Em ambos os casos, com os resultados que se conhecem.

   Voltando à Grécia, e antes de tudo o mais, convirá não esquecer que este pequeno país, onde reside a matriz cultural do Ocidente, tem uma história recente, recheada de conflitos e de turbulências, e está situado próximo de uma zona geopolítica bastante sensível: os Balcãs. Quase ao lado, estão o Chipre e a Turquia, e um pouco mais para o norte fica a Rússia. Portanto, uma vizinhança que, em conjunturas políticas intrincadas, justificam os piores receios. E, insistindo ainda na Grécia, é óbvio que o país atravessa momentos difíceis e complicados, quer do ponto de vista económico, quer do ponto de vista social: há cinco anos que a economia grega tem vindo a decrescer; nos últimos dois anos, a Grécia foi objecto de dois resgates económicos e financeiros, acompanhados de severas medidas de austeridade; os Gregos estão a sentir na pele, e de forma trágica, os efeitos devastadores dessas medidas de austeridade, nomeadamente, pelo desemprego e pelo rápido e acentuado empobrecimento. Entre os Gregos espalha-se uma revolta larvar contra os que, em sua opinião, os conduziram ao actual estado de coisas, e são muitos os que, para além de outros sonhos desesperados, advogam a saída da Grécia da zona Euro. O que seria ainda mais catastrófico, não só para a economia helénica, mas sobretudo para os restantes países da mesma zona, em particular, os países do Sul da Europa, cujas economias, também elas, passam por fases pouco recomendáveis, e seria, por conseguinte, inevitável o contágio, ou efeito dominó. Por isso a saída da Grécia da zona Euro e o regresso à dracma redundariam num grave problema, para a sobrevivência da moeda europeia e da própria zona Euro, com consequências económicas, sociais e políticas totalmente imprevisíveis.

   Mas a continuação da Grécia, na zona Euro, também não é menos problemática. Ainda que ressurja uma enorme vontade, da parte dos países mais ricos da zona Euro, de conservar a Grécia na sua companhia, e isso não é para já de uma evidência muito clara, subjacente a tal vontade estaria sempre uma condição: a de a Grécia crescer economicamente, libertando esses mesmos países ricos, isto é, os seus contribuintes, da pesada factura que representa para eles um país em permanente e perigosa recessão. Ora não é líquido que tal retoma económica venha a ter lugar nos anos mais próximos. Por outras palavras: nada garante que a Grécia voltará, tão cedo, ao crescimento, mesmo que renegociados os termos das actuais intervenções económicas e financeiras, ou mesmo que decididos outros e novos resgates. E, persistindo ou agravando-se a situação da Grécia, com austeridades atrás de austeridades, seguidas de mais recessões, estarão lançadas as achas para a fogueira que constituirá a manutenção da Grécia na zona Euro. E com os mesmos efeitos de contágio para os países do Sul da Europa: Portugal, Espanha e Itália. Deste modo, e faça-se o que se fizer, a Grécia será nos tempos que vão correndo uma questão bem complexa e de solução bem mais complexa. Enquanto isso não sucede, a Grécia é uma vizinha que nos deverá alarmar muito seriamente. Ou, pelo menos, preocupar!            

publicado por flagrantedeleite às 12:43
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