Quinta-feira, 10 de Maio de 2012

A COISA

   Os Brasileiros adoram o exercício da transgressão da língua portuguesa. Praticam-no pelas mais diversas razões. Por ignorância, por snobismo e por arrogância. E, durante longas e largas décadas, permitiram-se os mais inconcebíveis desaforos, no domínio da língua portuguesa. Sem qualquer respeito pelos demais usuários do idioma luso, e completamente indiferentes ao que, pelo menos os Portugueses, poderiam pensar, e dizer, sobre essa matéria. Entre outras insanidades, acharam que as consoantes mudas não passavam de ninharias; encararam alguns acentos como pormenores insignificantes; viram no hífen um mero apêndice, e tomaram certas maiúsculas como autênticas redundâncias. Tudo isto foi acontecendo gradual, sistemática e paulatinamente à língua portuguesa. À morfologia e à sintaxe da língua portuguesa. Mas especialmente à ortografia da língua portuguesa, que, para determinados linguistas, é uma outra realidade, que nada tem a ver com a realidade de uma língua. (Qual será a realidade linguística do Latim e do Grego antigo, línguas oralmente mortas?) Adiante: de tal forma que, a páginas tantas, já não se sabia bem que língua se falava e se escrevia no Brasil: português, brasileiro ou brasilês.

   Os Brasileiros dizem-se grandes apreciadores de Luís de Camões, Eça de Queiroz e Fernando Pessoa, e acredita-se que sim. No entanto traduzem, e transfiguram graficamente, as criações desses nossos clássicos para que possam ser ainda mais apreciados no Brasil.

   Os Brasileiros só admitem publicar escritores portugueses que se queiram adaptar à grafia e aos maneirismos do português, escrito e falado no Brasil. O que os escritores portugueses aceitam, com poucas, conhecidas e honrosas excepções.

    Os Brasileiros riem-se de termos portugueses, como troço, padaria e rapariga, e, relativamente a esses e outros termos, não conseguem conter nem disfarçar a vontade de escarnecer. 

     Encurtando razões: depois desses e doutros escárnios a que fomos sendo sujeitos, os Brasileiros levaram ainda mais longe as suas veleidades linguísticas e culturais, em relação a nós, os Portugueses. Tão simples como isto: os Brasileiros vieram pedir-nos, ou impor-nos, um Acordo Ortográfico que, de uma penada, acabasse com as consoantes mudas, o pê, o bê e o cê, e pusesse fim, em muitos casos, ao hífen, às maiscúlas e aos acentos. Ou seja, um Acordo que, segundo os seus doutos defensores, viesse unificar a grafia da língua portuguesa, grafia essa que os próprios Brasileiros se tinham previamente encarregado de desunir. Quer dizer: fizeram o mal e a caramunha. Primeiro, estragaram, e em seguida, vieram exigir que aceitássemos o que haviam estragado.

     Foi esse Acordo Ortográfico que gente, com nenhum apreço, ou amor, pela língua portuguesa, negociou, e aprovou, com os Brasileiros, em conciliábulos de que nada ou quase nada se sabia. Um Acordo que resultou de um ultimato, sob pena de, no Brasil, a língua portuguesa passar a chamar-se língua brasileira (E depois?). Um Acordo em que, no português do Brasil, nada, ou quase nada, muda, e em que, no português lusitano, tudo ou quase tudo muda. Um Acordo que não tem minimamente em conta as origens matriciais da língua portuguesa, e que transforma esta como se transforma um qualquer produto mercantil. Um Acordo que exprime a mais completa submissão da língua portuguesa aos interesses e aos ditames dos Brasileiros. Em suma: um Acordo que chocou os Portugueses, quando o viram, escarrapachado, nos telejornais, e quando o descobriram, pespegado, em alguns periódicos nacionais. Mais concretamente: quando os Portugueses foram confrontados, entre atónitos e horrorizados, no meio de muitas outras pérolas, com espetador em vez de espectador, com setor em lugar de sector, e com direto em substituição de directo

     Claro que há Portugueses que aceitam o Acordo Ortográfico. Mas há também muitos Portugueses que o abominam e o rejeitam. Portugueses que vêem objectivamente no Acordo Ortográfico uma atrocidade cometida contra a língua portuguesa, e contra si mesmos. Portugueses que tão-somente não querem que se lhes mexa na língua. Temos, por outro lado, um Acordo Ortográfico que na grande maioria da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa) nenhum país aplica ou mostra intenção de aplicar.

     Por isso tudo, estamos perante um Acordo Ortográfico que, na prática e em teoria, não é acordo nenhum, e que longe de unir, só vem dividir. Divide os Portugueses, entre si, e divide os falantes da língua lusa, entre si. Por isso tudo, o Acordo Ortográfico não tem pernas, nem patas para andar, e, muito menos, asas para voar. Por isso tudo, é um Acordo que nasceu torto e nunca se há-de endireitar. Por isso tudo, o Acordo Ortográfico deve ser pura e simplesmente revogado por Portugal que é, em última análise, o criador da criatura.

     Há momentos, na vida de um país e de um povo, em que é preciso dizer não aos ultimatos, e Portugal e os Portugueses vivem um desses momentos. Afinal de contas, entre a nossa língua e os nossos feriados, a distância pode ser do tamanho de um pequeno fósforo. Basta o que já basta!         

publicado por flagrantedeleite às 13:15
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3 comentários:
De Annie a 11 de Maio de 2012 às 12:46
O objetivo do Acordo é instituir uma ortografia oficial única da Língua Portuguesa, ou seja, revogar a existência de duas normas ortográficas oficiais distintas – uma do Brasil e outra dos demais países de língua portuguesa –, aumentando, assim, seu prestígio internacional. Afinal, o português já é a terceira língua mais falada na Europa e a quinta mais falada no mundo.
O brasileiro sabe português sim. O que acontece é que o nosso português é diferente do português falado em Portugal. A língua falada no Brasil, do ponto de vista linguístico já tem regras de funcionamento, que cada vez mais se diferencia da gramática da língua falada em Portugal. Conclui-se que nenhum dos dois é mais certo ou mais errado, mais bonito ou mais feio: são apenas diferentes um do outro e atendem às necessidades linguísticas das comunidades que os usam, necessidades linguísticas que também são diferentes.



De Annie a 11 de Maio de 2012 às 13:00
Os Brasileiros riem-se de termos portugueses, como troço, padaria e rapariga.
Por que iriamos rir se não a graça nisso.
O que seguinifica para gente?
Troço: Usado quando a pessoa quer apontar algo mas não sabe oque é. Coisa indefinida.
Ex:
Oque é esse troço ai na sua mão?
Padaria: Lugar, onde se vende ou fabrica pão.
Rapariga para vocês seguinifica Mulher entre a infância e a adolescência.
Para nós Meretriz.


De Annie a 11 de Maio de 2012 às 13:05
Por que? Vocês portugueses insistem que nós,brasileros,falamos o "BRASILEIRO".Como a maioria dos intelectuais brasileros (lusitanistas doutrinados) nos ensina que não existe língua brasileira,a tendência natural é que nós rechassemos a idéia de uma língua brasilera.
Brasilês - um idioma de muitos sotaques
é uma lingua falada no Brasil Embora derivada do português, tem sintaxe, morfologia, fonética, semântica e vocabulário autóctones, especialmente pela absorção de elementos lingüísticos de origem indígena e africana,



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