Quinta-feira, 30 de Julho de 2015

13 ª. EPÍSTOLA DE UM ALEMÃO AOS MERIDIONAIS DA EUROPA

2.ª PUBLICAÇÃO, REVISTA, CORRIGIDA E ACTUALIZADA

 

A PROPÓSITO DA GANGRENA 

 

(PRÓLOGO)

 

 

GANGRENA - Morte e decomposição de parte do organismo. A sua causa é a perda da irrigação sanguina, devida a traumatismo ou doença da artéria que serve a região. (...) As defesas naturais e o tratamento medicamentoso são (...) impotentes contra elas (as bactérias), e o tecido gangrenoso constitui um foco, a partir do qual a infecção pode propagar-se aos tecidos sãos e matá-los. O foco tem de ser removido cirurgicamente.

    In Dicionário de Medicina, de Peter Wingate, tradução de Ludgero Pinto Basto, Publicações Dom Quixote, 1978.

 

Caríssimos irmãos do Sul, 

 

A GANGRÉCIA  (PARTE 1) 

    

     A Grécia é um caso perdido. A Grécia é um caso perdido para si própria e para a zona euro. A Grécia é um problema dentro e fora da zona euro ou mesmo da União Europeia. O problema da Grécia não são os outros países da zona euro, é a própria Grécia. A Grécia é que constitui um problema para os outros países da zona euro. A Grécia é inimiga da própria Grécia.

    Para começar, a Grécia não cresce há um ror de anos. Porquê? Entre outras razões, porque o seu tecido produtivo está esboroado dese 2001, ano em que o país entrou na zona euro. Antes de 2001, a economia da Grécia já era frágil. A Grécia vivia de expedientes e de engenharias financeiras, tais como a desvalorização sistemática da sua então moeda própria, o dracma; a manipulação dos juros e dos défices orçamentais. A Grécia vivia de esquemas. A fraude e a evasão fiscal eram os desportos favoritos dos gregos. A Grécia era o país dos privilégios fiscais. Era país dos privilégios fiscais? Não. Era e continua a ser o país dos privilégios fiscais. Ele é o privilégio da Igreja Ortodoxa; ele é o privilégio dos militares; ele é o privilégio dos armadores; ele é o privilégio das ilhas. Numa palavra: os interesses corporativos e o clientelismo ditam as suas regras naquele país.

    A Grécia não estava em condições de aderir à moeda única. Nem económica, nem financeira, nem culturalmente. Daí as batotas nas suas contas para poder entrar na zona euro. A Grécia vivia à margem de tudo, mas vivia sobretudo à margem das regras de uma economia sã e que se deseja responsável. Na Grécia imperavam a anarquia, o incumprimento e a irresponsabilidade. Foram as crises financeiras internacionais (de 2008 e 2010) e a imposição das rigorosas regras orçamentais e fiscais da zona euro que puseram a nu as batotas da Grécia e espoletaram a derrocada que se seguiu. Cinco anos, três eleições e dois resgates depois, a Grécia está em coma profundo. Tudo piorou. Se há cinco anos tudo era mau na Grécia, agora tudo é péssimo.

   E senão vejamos:

   A dívida grega é gigantesca. Qualquer coisa como 315 mil milhões de euros. Uma dívida quase duas vezes superior ao seu Produto Interno Bruto. Uma dívida que tão cedo a Grécia não poderá pagar. E convém não esquecer que uma parcela significativa da dívida grega já foi perdoada pelos credores internacionais. O PIB grego teve já uma contracção de 25%. (A Grécia não só não cresceu como gastou mais do que possuía e, por causa disso, passou a viver de dinheiro emprestado. Esse é aliás o triste fado dos povos que se portam como os gregos. Os portugueses sabem bem do que estamos aqui a falar, pois o filme é muito conhecido no seu país). De Dezembro de 2014 ao presente, voaram dos bancos gregos para o estrangeiro mais de 40 mil milhões de euros, e a tendência é para o agravamento. O investimento está ao nível mais baixo dos últimos cinco anos. O desemprego é galopante. Os serviços públicos estão paralisados. Há longas filas nas bombas de gasolina e nas caixas de multibanco. Os levantamentos bancários estão racionados. As prateleiras dos supermercados começam a ficar vazias. As farmácias (as que ainda não faliram) resistem penosamente. A Grécia está a (sobre)viver graças aos financiamentos de emergência que diariamente lhe chegam do Banco Central Europeu, e sem os quais seria (ou será) obrigada a baixar os taipais. A instabilidade e a incerteza reinam na Grécia.

    A Grécia, dentro da zona euro, é um problema bicudo para a zona euro, porque volta e meia se descobre que afinal a Grécia precisa de mais um resgate financeiro. Ou seja, descobre-se que a Grécia precisa de mais dinheiro dos países emprestadores do costume. Tem sido assim de há cinco anos a esta parte e tudo indiica que voltará acontecer o mesmo dentro de períodos cíclicos de dois ou três anos. (Como se sabe, a Grécia está em pleno processo de negociação do terceiro resgate). Ora é completamente impossível suportar um país como a Grécia dentro do que quer que seja, muito menos, no seio de uma união económica e monetária. Onde há regras e normas orçamentais e fiscais para serem cumpridas, não há lugar para países prevaricadores como a Grécia. A Grécia, se sai da zona euro, pode eventualmente ser um problema para a zona euro. Mas antes fora do que dentro.

    A vitória eleitoral do Syriza só veio piorar a situação. Os gregos, desesperados primeiro com o PASOK (Partido Socialista, hoje reduzido a 4% do eleitorado) e em seguida com a Nova Democracia (centro-direita), viraram-se em Janeiro para o Syriza (extrema-esquerda), pedindo e esperando duas coisas manifestamente contraditórias entre si: o fim da austeridade e simultaneamente a permanência do país na zona euro. Os gregos queriam a quadratura do círculo. Queriam sol na eira e chuva no nabal. E tal paradoxo só podia dar no que deu.

    Por sua vez, os dirigentes do Syriza, nomeadamente a dupla Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis, vieram para desafiar os restantes países da zona euro, com a sua filosofia e política de extrema-esquerda marxista e trotskista. De resto, disseram-no expressamente durante a campanha eleitoral. Já se sabia ao que vinham. E, em razão disso, além de não quererem pagar a dívida grega, ou de a quererem reestruturar à sua maneira, era mais do que evidente a sua intenção de porem termo num ápice à austeridade, violando compromissos assumidos por governos gregos anteriores e cujo cumprimento é uma exigência legitimamente inabalável dos credores internacionais. Tsipras e Varoufakis levaram longos cinco meses em negociações com os credores. Foram cinco meses de pura perda de tempo. De reunião em reunião. De propostas em propostas. De evasivas em evasivas. Sistematicamente a darem o dito por não dito. A perorarem ora em Atenas, ora em Bruxelas.

    Claro que tudo isto tinha de chegar ao fim. Depois de Tsipras e Varoufakis tanto terem esticado a corda, ela tinha de se partir. Partiu-se no último e fatídico fim-de-semana do mês de Junho. Partiu-se quando se tornou óbvio que as conversações estavam esgotadas. E os dirigentes gregos mostraram o seu jogo quando anunciaram o referendo às propostas dos países da zona euro. E que jogo é esse? O jogo esteve sempre nas entrelinhas e era evidente mesmo para os menos atentos. O jogo é claramente a saída da Grécia da zona euro. Saída que o Syriza quer precipitar, não por decisão directa sua mas por vontade expressa dos gregos e atirando as culpas sub-repticiamente para cima dos credores. Trata-se de uma forma capciosa de os dirigentes do Syriza lavarem daí as suas mãos. Ah! Sim? É isso? Querem sair? Que saiam! E quanto mais depressa, melhor! Os países da zona euro não precisam de um parceiro como a Grécia e já perderam tempo (e dinheiro) demais a negociar com Tsipras e Varoufakis. A Grécia tornou-se uma ferida gangrenada dentro da zona euro. E, perante uma ferida gangrenada, só há uma solução: a remoção cirúrgica do membro afectado, antes que a gangrena de propague aos tecidos vizinhos sãos e os mate. Adeus, Grécia!

 

A GANGRÉCIA  (PARTE 2)

 

OS DEZ PECADOS CAPITAIS DE ALEXIS TSIPRAS

(A ordem é cronológica)

 

PECADO 1

   Alexis Tsipras fez a campanha eleitoral prometendo aos gregos algo que ele sabia que não era possível: O fim da austeridade e a renegociação da dívida helénica. Tudo em simultâneo com a permanência da Grécia na zona euro.

 

PECADO 2 

   Nas palavras de Alexis Tsipras, estava incluída, implícita e/ou explicitamente, a saída da Grécia da zona euro, ou mesmo da União Europeia, se as ditas promessas não vingassem.

 

PECADO 3

   Para poder formar governo, e num gesto de total incoerência e talvez de desespero, Alexis Tsipras fez o seu partido, o Syriza, da extrema-esquerda, aliar-se ao ANEL (Gregos Independentes), um partido da extrema-direita, ultranacionalista e antiausteridade.

 

PECADO 4 

   Depois da sua vitória eleitoral de Janeiro, e preparando o terreno para as negociações com os credores, Alexis Tsipras começou logo a suscitar a questão de uma suposta dívida da Alemanha à Grécia, a título de reparações de guerra e no fantasioso valor de 126 mil milhões de euros.

 

PECADO 5  

   Alexis Tsipras fez chantagem com os credores agitando o papão russo. (Visitou Putin com as mãos vazias e regressou com elas cheias de nada). Com tal atitude, irritou os credores internacionais e tornou-os mais duros nas negociações, com os resultados (para o seu governo e para a Grécia) que se conhecem.

 

PECADO 6 

   Alexis Tsipras convocou um referendo  não só inútil como extremamente desastroso para a Grécia e para os gregos. Com o referendo, Alexis Tsipras desestabilizou politica e socialmente o país, paralisou a economia e causou à banca grega um prejuízo que agora se calcula em valor superior a 3 mil milhões de euros.

 

PECADO 7 

   Alexis Tsipras tentou convencer ilusoriamente os seus compatriotas e a opinião pública internacional de que era possível impor os seus pontos de vista e os do seu partido aos restantes países da zona euro,  estribado nos votos de 11 milhões de gregos contra os de 315 milhões de cidadãos da zona euro.

 

PECADO 8

   A seguir ao referendo, Alexis Tsipras foi para a última e decisiva reunião do Conselho Europeu, sem qualquer alternativa para apresentar aos seus parceiros (além da cabeça de Yanis Varoufakis que ele levou numa bandeja). Ou seja: compareceu em tal cimeira sem um plano B e o resultado traduziu-se na aceitação humilhante e sem pestanejar de todas as medidas draconianas, impostas pelos credores internacionais, e que se revelaram diametralmente contrárias ao sentido do voto vencedor do referendo - o NÂO (às medidas de austeridade e à zona euro).

 

PECADO 9

   No regresso da mesma cimeira, Alexis Tsipras declarou que não acredita no acordo por ele subscrito, o que significa, entre outras coisas graves, que ele vai aplicar medidas de austeridade ao arrepio da sua própria vontade.

 

PECADO 10   

  Uma vez que perdeu o apoio de um número significativo de deputados do seu próprio partido, o Syriza, Alexis Tsipras fez aprovar no Parlamento grego as mesmas duríssimas medidas de austeridade com os votos dos partidos da oposição (Nova Democracia, PASOK e Po Tami) e contra os quais venceu as eleições de Janeiro e o referendo.

 

GANGRÉCIA (EPÍLOGO)  

   Pairam enormes incertezas sobre a Grécia. Como já se viu, Alexis Tsipras, para governar, vai ter de implementar um programa económico e financeiro com o qual disse não concordar. Este facto só por si faz temer o pior no que concerne à execução de tal programa. Além de que a máquina fiscal grega não está preparada para pôr em prática as exigentes medidas constantes do mesmo programa. Por outro lado, muito dificilmente o povo grego aceitará medidas de austeridade bem mais duras do que aquelas a que já estava sujeito. Nem tão-pouco os militares, a Igreja Ortodoxa e os armadores aceitarão pacificamente abrir mão dos seus privilégios.

   A economia grega está de rastos e os bancos estão falidos (ou a subsistirem à custa dos financiamentos de emergência provenientes do Banco Central Europeu). Do ponto de vista político e partidário, a situação não é melhor. O Syriza está profundamente marcado pelas dissensões que o acordo de princípio imposto pelos credores provocou. Com o Syriza dividido e o governo dependente dos votos da oposição, é fácil adivinhar que haverá eleições antecipadas para breve.

  Num tal clima de incertezas e de  imprevisibilidade ninguém quererá investir da Grécia. Até porque não está afastada a hipótese de a Grécia sair da zona euro, a curto ou a médio prazo. No meio de tudo isto, e enquanto a Aurora Dourada espreita, aguardando a sua vez, os coronéis poderão (e quererão) ter uma palavra a dizer. Já se começa a ouvir o tilintar das espadas. 

                     

 

 

 

         

publicado por flagrantedeleite às 14:04
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