Segunda-feira, 29 de Junho de 2015

12ª. EPÍSTOLA DE UM ALEMÃO AOS MERIDIONAIS DA EUROPA

A PRÓSITO DA GANGRENA

 

GANGRENA - Morte e decomposição de parte do organismo. A sua causa habitual é a perda da irrigação sanguínea, devida a traumatismo ou doença da artéria que serve a região. (...) As defesas naturais e o tratamento medicamentoso são (...) impotentes contra elas (as bactérias), e o tecido gangrenoso constitui um foco, a partir do qual  a infecção pode propagar-se aos tecidos vizinhos sãos e matá-los. O foco tem de ser removido cirurrgicamente.

   In Dicionário de Medicina, de Peter Wingate, tradução de Ludgero Pinto Basto, Publicações Dom Quixote, 1978.  

 

Caríssimos irmãos do Sul,

 

A GANGRÉCIA

 

    A Grécia é um caso perdido. A Grécia é um caso perdido para si própria e para a zona euro. A Grécia é um problema dentro e fora da zona euro, ou mesmo da União Europeia. O problema da Grécia não são os outros países da zona euro, é a própria Grécia. A Grécia é que representa um problema para os outros países. A Grécia é inimiga da própria Grécia. Para começar, a Grécia não cresce há um ror de anos. Porquê? Entre outras razões, porque o seu tecido produtivo está esboroado desde 2002, ano em que o país entrou na zona euro. Antes de 2002, a economia helénica já era frágil. A Grécia vivia de expedientes e de engenharias financeiras, tais como a desvalorização sistemática da sua então moeda própria, o dracma, da manipulação dos juros e dos défices orçamentais. A Grécia vivia de esquemas. A evasão fiscal era o desporto favorito dos gregos. Os interesses corporativos de toda a ordem e espécie impunham as suas regras naquele país, etc., etc.

   A Grécia não estava em condições de aderir à moeda única. Nem económica, nem financeira, nem culturalmente. Daí as batotas nas suas contas para poder entrar na zona euro. A Grécia vivia à margem de tudo, mas sobretuto à margem das regras que devem nortear uma economia sã e que se deseja responsável. Na Grécia imperavam a anarquia, o incumprimento e a irresponsabilidade. Foram as crises internacionais (de 2008 e 2010) e a imposição das rigorosas regras orçamentais e fiscais da zona euro que puseram a nu as batotas da Grécia e espoletaram a derrocada que se seguiu. Cinco anos, três eleições e dois resgates depois, a Grécia está em coma profundo. Tudo piorou. Se há cinco anos tudo era mau na Grécia, agora tudo é péssimo.

  Se não, vejamos :

  A dívida grega é gigantesca. Qualquer coisa como 250 mil milhões de euros. Uma dívida quase duas vezes superior ao seu Produto Interno Bruto. Uma dívida que tão cedo a Grécia não poderá pagar. E convém não esquecer que uma parcela significativa da dívida grega já foi perdoada pelos credores internacionais. O PIB grego teve já uma uma contracção de 25%. (Foi por não ter crescido e por ter gastado mais do que possuia, que a Grécia passou a viver de dinheiro emprestado. Esse é aliás o triste fado dos povos que se portam como os gregos. Os portugueses sabem bem de que estamos aqui a falar, pois o filme é muito conhecido no seu país). De Dezembro de 2014 ao presente, voaram para o estrangeiro mais de 40 mil milhões de euros dos bancos gregos, e a tendência é para o agravamento. O investimento desceu ao nível mais baixo dos últimos cinco anos. O desemprego é galopante. Os serviços públicos estão praticamente paralisados. Há longas filas nas bombas de gasolina e nas caixas de multibanco. As prateleiras dos supermercados começam a ficar vazias. As farmácias (as que não faliram) resistem penosamente. A instabilidade e a incerteza reinam na Grècia. A Grécia está a sobreviver graças aos financiamentos milionários de emergência que diariamente lhe chegam do Banco Central Europeu, e sem os quais seria (ou será) obrigada a fechar as portas. 

   A Grécia, dentro da zona euro, é um problema bicudo para a zona euro, porque, além do mais, volta e meia se descobre que afinal precisa de mais um resgate financeiro. Ou seja, descobre-se que a Grécia precisa de mais dinheiro emprestado dos suspeitos do costume. Tem sido assim desde há cinco anos e tudo nos diz que voltará a acontecer o mesmo dentro de períodos cíclicos de dois ou três anos. Por este andar, a Grécia está velozmente a caminho do terceiro resgate. Ora é completamente impossível suportar um país como a Grécia dentro do que quer que seja, muito menos, no seio de uma união económica e monetária. Onde há regras e normas orçamentais e fiscais para serem cumpridas, não há lugar para países incumpridores, como a Grécia. A Grécia, se sai da zona euro, pode eventualmente ser um problema para a zona euro. Mas antes fora do que dentro. 

    A vitória eleitoral do Syriza só veio piorar a situação. Os gregos, desesperados primeiro com o PASOK (Partido Socialista, hoje reduzido a 4% do eleitorado) e em seguida com a Nova Democracia (centro-direita), viraram-se em Janeiro para o Syriza (extrema-esquerda), pedindo e esperando duas coisas manifestamente contraditórias: fim da austeridade e permanência na zona euro. Os gregos queriam a quadratura do círculo. Queriam sol na eira e chuva no nabal. E tal paradoxo só podia dar no que deu. Por sua vez, os dirigentes do Syriza, nomeadamente, a dupla Alexis Tsipras e Yany Varoufakis, vieram para desafiar os restantes países da zona euro com a sua filosofia e política de extrema-esquerda marxista. Aliás, disseram-no expressamente durante a campanha  eleitoral. Já se sabia ao que vinham. E, por causa disso, além de não quererem pagar a dívida, ou de a quererem reestruturar à sua maneira, era mais do que evidente que vieram com a intenção de pôr termo num ápice à austeridade, contrariando compromissos assumidos por governos gregos anteriores e cujo cumprimento é uma exigência legitimamente inabalável dos credores. Tsipras e Varoufakis levaram cinco meses a engonhar, a partir pedra; de reunião em reunião; de propostas em propostas; de evasivas em evasivas; sistematicamente a darem o dito por não dito; a perorarem ora na Grécia, ora em Bruxelas.

   Claro que tudo isto tinha de chegar ao fim e a corda tinha-se de partir. Partiu-se no último fim-de-semana. Partiu-se quando se tornou óbvio que as conversações estavam esgotadas. E os dirigentes gregos mostraram o seu jogo quando anunciaram agora o referendo às propostas dos países da zona euro. Que jogo é esse? O jogo esteve sempre nas entrelinhas, mas era evidente mesmo para os menos atentos. O jogo é claramente a saída da Grécia da zona euro. Que o Syriza quer precipitar, não por decisão directa sua, mas por vontade expressa dos gregos e atirando as culpas sub-repticiamente para cima dos credores. É uma forma capciosa de o Syriza lavar daí as suas mãos. Ah! Sim? É isso? Querem sair? Que saiam! E quanto mais depressa, melhor! A União Europeia, sobretudo a zona euro, não precisa de um parceiro como a Grécia e já perdeu tempo (e dinheiro) de mais a negociar com Tsipras e Varoufakis. A Grécia tornou-se uma ferida gangrenada dentro da zona euro. E, perante uma ferida gangrenada, só uma há solução: a remoção cirúrgica do membro afectado, antes que a gangrena se propague aos tecidos vizinhos sãos e os mate. Adeus, Grécia!    

              

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por flagrantedeleite às 12:24
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