Sexta-feira, 29 de Agosto de 2014

OITAVA EPÍSTOLA DE UM ALEMÃO AOS MERIDIONAIS DA EUROPA

Caríssimos irmãos do Sul

 

 

Glosando e homenageando a grande Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), no décimo aniversário da sua morte:

 

 

D E R I V A  (VIII)

 

 

Vi prodígios

Espantos maravilhas

Vi um país pobre

Tornado rico

No relampejar

De duas décadas

Vi as rotundas as praças as piscinas

Os centros de convívios sociais

E estádios à dezena e sem iguais

Vi um país

Subitamente deslumbrado

Com fundos

Comunitários colossais

Vi uma cidade nova

E opulenta nascer

Pelas bandas orientais

Vi gente

Vivendo endemoniadamente

Acima das suas possibilidades reais

Vi férias mil

Em terras de coqueirais

Vi dois e três automóveis

Por família

Vi casas na cidade

No campo e na praia

Vi restaurantes de luxo

Com vista para os litorais

Vi plasmas telemóveis e frigoríficos

Vi crédito fácil rápido e barato

Vi agências imobiliárias e de viagens

Brotarem como cogumelos

Vi auto-estradas pontes

E centros culturais

Vi um país endividado

Dos pés à cabeça

E de corda na garganta

Entregar o seu destino

A entidades estrangeiras

Vi conquistas civilizacionais

Direitos adquiridos

E princípios da igualdade

E da confiança

E da proporcionalidade

Plasmados loucamente

Em molduras constitucionais

Vi um Tribunal Constitucional

No papel de partidos da oposição

E defendendo

Interesses corporativos

Vi um país

Ser governado

Por simples

Decisões judiciais

Vi reformas

E prebendas milionárias

Vi horários suaves

Em empregos para a vida

Vi promoções

Por simples antiguidade

E complementos de ordenados

Por tudo

E alguma coisa mais

Vi reivindicações salariais

E outras que tais

Ilimitadamente satisfeitas

Vi dívida défice e desemprego

Para além da vida

Vi um político

Que nunca tem dúvidas

E raramente se engana

Vi a escadaria do Parlamento

Ser invadida

Por forças policiais

Num flagrante remake

Da escadaria de Odessa

Vi uma luta fratricida

Num partido que se rege

Ou devia reger-se

Por princípios fraternais

Vi famílias unidas

Dividirem-se por causa

Desse mesmo partido

Vi um banqueiro

Tornar-se dono disto tudo

Em coisa de vinte anos

Vi o mesmo banqueiro

Tornar-se pária disto tudo

Em coisa de duas semanas

Vi um respeitável ex-político

Que na meia-idade

Pôs o socialismo na gaveta

E que agora

No ocaso da vida

Alinha afanasomente

Com os que ainda brandem

A foice e o martelo

Vi um ex-militar

Que enquanto jovem e capitão

Ofereceu cravos às pessoas

E agora que já não é jovem 

E é tenente-coronel

Oferece pauladas

A quem foi eleito

Para governar

Vi salas magnas

Transformadas em retiros

De nostálgicos do passado

E brigadas do reumático

De sinal contrário

Num fim-de-semana alucinante

Vi um impostor

Falsamente vindo

De areópagos mundiais

Dar baile

A jornalistas profissionais

Alguns com trinta anos

De tarimba ou mais

Vi um retornado angolano

Cheio de remorsos coloniais

E entregue

A exercícios semanais

De onanismo cinéfilo

Em artigos de jornais

Vi um arquipélago minúsculo

E insignificante

Situado em paragens tropicais

Armado em país importante

Sem se lembrar que anda

De mão estendida

Às migalhas internacionais

Vi tudo (ou quase tudo)

E o seu contrário

Só do crescimento e riqueza própria

Não vi sinais

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

  

publicado por flagrantedeleite às 12:10
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