Quinta-feira, 13 de Junho de 2013

CONFISSÕES DO PAI DE UM MINISTRO

 

 

Dario, para não deixar no esquecimento as ofensas que tinha recebido dos atenienses, fazia com que um pajem lhe repetisse três vezes, sempre que se sentava à mesa: Senhor, lembre-se dos atenienses.

 

In ENSAIOS, de Michel de Montaigne (1533/1592)

 

 

 

   Meu filho é ministro por direito próprio. Meu filho nasceu para ser ministro. Tudo se conjugava para que meu filho viesse a ser ministro. Estava  escrito nos astros que meu filho seria ministro. Era inevitável. Mais do que inevitável: era irrecusável. Mais do que irrecusável: era indeclinável. Mais do que indeclinável: era fatal como o destino. Era apenas uma questão de tempo. O tempo próprio. O tempo oportuno. O tempo devido. E salvo um ou outro acidente de percurso, que mais adiante procurarei justificar, meu filho cumpriu, leal e cabalmente, todos os cadernos de encargos que lhe foram apresentados e confiados. Antes e depois de ele nascer.

    Antes de ele nascer, já havia pergaminhos políticos na família. Já havia gente de causas. Já havia nacionalistas e anticolonialistas. Já havia gente de esquerda e com alguma prisão no curriculum. Neste último ponto, não foi o caso de meu filho porque ele chegou um pouco tarde. Infelizmente não se pode atrasar o comboio da História, apenas por causa de um ou outro passageiro. Mesmo quando se trata de um passageiro predestinado como meu filho. E também não se podia ser preso político aos 14 anos de idade ou menos. O que não passava de uma injustiça, como tantas outras injustiças desse malfadado regime em que meu filho viu pela primeira vez a luz do dia. É que, se assim não fosse, meu filho passaria também algum tempo na prisão por razões políticas. Ele teria também a sua conta. É que, não fosse esse handicap da idade, ele traria na sua história de vida essa coroa de glória que é ter sido preso político. Essa coroa de glória que é ter um passado por detrás das grades políticas. Sempre é uma mais-valia. Sempre é uma vantagem. Sempre é um benefício. Sempre é um argumento que dispensa qualquer outro. Um argumento que arruma a um canto qualquer adversário. Quer seja político ou não. Um argumento de autoridade. Além de ser um argumento que propicia prendas e prebendas. E também sinecuras. Além de dar títulos e pensões. Além de conferir estatuto.

    Mas, já que, pessoalmente, meu filho não pode esgrimir a arma de um passado político, aponta os exemplos de seu pai, que sou eu. Brada aos céus que o pai foi um preso político. Proclama aos quatro ventos que o pai foi um perseguido político. Ou então invoca os amigos de seu pai que o acompanharam nesse glorioso percurso político-prisional. Cita os respectivos nomes. Dedica-lhes livros. Presta-lhes as devidas homenagens. Até esquece que se trata de gente, incluindo o pai, de passado burocrático e também com embaraços pelo meio. Mas que diabo! Ninguém é perfeito. Todos temos direito às nossas pequenas fraquezas. Sobretudo os que foram presos políticos. É por isso que, apesar das perseguições políticas, nós não ficámos sem o emprego público, no tempo das mesmas perseguições políticas. Colaborámos, porque tinha de ser. E o que tem de ser tem muita força. É preciso entender esta verdade incontornável. Há que ser compreensivo. Há que ser tolerante. Com a nossa História e com os nossos mais velhos. Temos de viver em paz com a História. Temos de dormir em paz com a História. Temos de deixar a História seguir tranquilamente o seu curso. Para quê contrariar a História? Para que incomodar a História? Para quê revolver a História? Para quê desassossegar a História? De uma vez por todas: deixemos a História em paz! Esqueçamo-nos das manchas e das nódoas da História! Fixemo-nos no presente e apenas no presente.

   E, continuando a falar de mim, ou seja, do pai do ministro, terei de recordar que também fui músico. Fui clarinetista na banda municipal da nossa cidade. Isto faz parte da minha juventude já distante. Agora é apenas um pormenor esquecido. Uma menos-valia. Um pormenor ausente. Um pequeno vestígio. Um eco. Um traço. Depois, fiz carreira na administração pública. Singrei em lugares de confiança política. Com muita subserviência. Até me chamavam a dobradiça. Mas não me importava. Ou fazia que não ouvia. Chamavam-me também o invertebrado. Ou a borracha. Para mim era tudo igual. Tornei-me entretanto intelectual. Com óculos de lentes sem aros e tudo. Como mandavam as regras. Pelo meio gozei férias prolongadas. Aquém e além-mar. Entrementes, olvidei o activismo. Já não era nem carne nem peixe. Era o que viesse parar à rede. Eu estava por tudo. Imitei o outro: fiz de morto.    

   E foi exactamente aqui que aconteceu o ponto de viragem. E foi aqui que ocorreram as mudanças todas. E, a partir daqui, havia que encarar a nova onda.  Com firmeza e realismo. Havia que mudar a agulha. Com pragmatismo. Com sensatez. Com inteligência. Com tacto. Havia que abraçar a nova causa. Sem hesitações. Havia que ler pela nova cartilha. Sem olhar para trás. Havia que seguir os novos ventos. Sem delongas. Os tempos exigiam. Os tempos urgiam. Os tempos rugiam. É que, além de tudo o mais, a prole era grande e os cuidados tinham de ser redobrados. Só filhos, eram quatro. E as alternativas eram poucas ou nenhumas. Havia portanto que continuar no barco. Aprofundar o rumo.

    A técnica de servir regimes era, de resto, o que eu mais sabia. A arte de sobreviver era comigo. Eu vinha da escola antiga. E quem conseguiu sobreviver na escola antiga, consegue sobreviver em todas as escolas. E assim eu pude seguir incólume. E assim ninguém me molestou. Pelo contrário: fui reciclado. Fui reaproveitado. Fui reintegrado. Em missões: no país e no estrangeiro. Em simpósios. Em seminários. Em assembleias.

    Outrossim, e com a minha sombra, eu protegia todos os meus filhos. Tinha-os debaixo das minhas asas. Em particular, aquele que viria a ser ministro. Aquele em que eu mais me projectava. Aquele que viria a ser o que eu não fui nem podia ter sido. Esse filho era a minha Némesis. Esse filho era o meu instrumento de vingança. Esse filho era, em suma, o meu ajuste de contas, longamente esperado, com o destino. Esse seria o filho de cujo percurso eu falaria, em todos os pormenores, aos meus amigos e conhecidos. Dar-lhes-ia notícias frequentes acerca desse filho. Estariam sempre ao corrente da sua gloriosa carreira académica, profissional e política.

    Entretanto, esse filho dilecto crescia. Ele estudava. Ele convivia. Ele observava. Ele assimilava. Rapidamente viajou para a Universidade. Para a Europa. Com bolsa e tudo o mais. Licenciou-se. Documentou-se. Criou curriculum. O futuro esperava por ele. O seu país aguardava-o. A História do seu país reclamava os seus serviços. A Glória tinha os olhos postos nele. O ensino do seu país reinvindicava os seus contributos. A política do seu país exigia os seus esforços. Os poetas do seu país contavam com a sua solidariedade. A tudo isso, esse filho respondeu pronta e assertivamente: fundou, ensinou, narrou, solidarizou-se, doutorou-se, deputou-se e governou.

   Meu filho mandou estudar a sua árvore genealógica. Publicou a sua árvore genealógica na Internet. Com a minha total aprovação, aliás. Era dever de meu filho demonstrar e provar, sem margem para dúvidas, a pureza da sua raça e da sua ascendência. Como, aliás, outros fizeram e não foram poucos. Querem mais um exemplo de árvore genealógica, publicada na Internet? Uma contista que já não conta nem canta nada. Foi contar e cantar para outra freguesia. Para outro mundo. Querem outro exemplo? Um escritor-amanuense ou amanuense-escritor. Este, com pretensões de ainda querer contar e cantar, apesar da provecta idade, e da total desafinação literária e musical.

   Meu filho doutorou-se, nesse ínterim, com uma excelente tese, muito embora com trinta citações não identificadas; muito embora com inúmeras omissões que ele próprio admitiu; muito embora ele próprio tenha considerado que alguns dos contributos serão usados "para novas coisas".  Resumindo: uma tese atochada de lacunas e fragilidades que nem a própria cronista-mor do reino se coibiu de salientar. Mas, enfim: não interessa agora perder tempo com miudezas sem qualquer significado. Meu filho estava doutorado, e ponto final. Com notícia publicada nos jornais e tudo. Em jornais de papel e online. Neste último, com comentários que me desvaneceram e deleitaram. Lembrar-me-ei para sempre daquele poeta-bancário ou bancário-poeta, que, num arroubo lírico-melancólico, lavrou a seguinte sentença: Razões profissionais inadiáveis impediram-me de estar presente. Lamento apenas não ter podido rever e saudar o meu amigo (...) pessoalmente. O resultado só surpreende quem não conhece a qualidade intelectual, e a robustez académica de (...). Parabéns, e um forte abraço, deste humílimo amigo. A brilhante prosa é mesmo para lembrar: A qualidade intelectual e a robustez académica! Ou então: deste humílimo amigo! Ah, se as pessoas ponderassem seriamente as suas afirmações, nomeadamente, as escritas e assinadas! Ah, se as pessoas pensassem pelo menos duas vezes o que vertem para o papel! Do que não nos poupariam, a nós, e a si próprias! Adiante. E, continuando o desfile das simpatias prodigalizadas a meu filho, como não destacar também, ainda que parcialmente, a daquele jurista, despachado a contagosto para a procedência e, por isso, cheio de amargos ressentimentos, pessoais e profissionais: (...) A caravana sempre passa, não obstante o ladrar de imensos cães. Antes de seres, já eras, isso é verdade. Tens obras publicadas e tens uma inteligência ímpar. O resto são banalidades. Uns ainda acham que construir coisas merítórias, depende do local de nascimento do construtor. Isso sim é uma autêntica tese de asnice. Mas que fino pedaço de literatura! Mas que considerações filosóficas tão sábias, tão certeiras, tão avisadas! Recordarei  penhoradamente os amigos que tiveram palavras de sincero apreço e apoio para meu filho, nesse momento solene e sublime. Esquecerei convenientemente os invejosos que só se lembraram do veneno e da verrina, nessa mesma oportunidade.

   Depois do doutoramento, meu filho estava preparado para tudo o que se seguiria: a carreira política. De resto, a sua preparação já vinha de trás. Esse filho foi meticulosamente moldado na forja da preparação política. E a regra nº. 1 de tal preparação era como eu sempre fizera: de morto. Quanto ao mais, nunca levantar ondas. Remeter-se ao silêncio. E à mera observação. E sobretudo não aderir nem pertencer a nenhum partido politico. Manter-se independente. Manter o distanciamento de quem é superior. Estar acima da escumalha partidária. Estar aberto a todos os convites partidários, mas sem se comprometer. Provar de tudo e não de comer de nada. Respeitar o poder e quem lá está. Ter sempre presente esta máxima de Winston Churchill: Um bom político é aquele que depois de ter sido comprado, continua a estar à venda.  

    A recompensa e o reconhecimento chegaram, finalmente, traduzidos num honroso convite para candidato a deputado, como convinha, nas listas do partido no poder. Meu filho nem titubeou: aceitou de imediato o convite. Como independente, claro. E foi uma vitória eleitoral retumbante e confortável. Puseram-se, logo depois, problemas embaraçosos na escolha do cargo que se seguiria, uma vez que, para meu filho, ocupar o lugar de deputado nem era hipótese que se colocasse. O cargo de deputado seria apenas um degrau teórico na meteórica ascensão política de meu filho. Por isso, foram avançadas outras sugestões. Que tal embaixador num país importante? Nem pensar! Num ápice, deixar-se-ia de falar de meu filho e ele não é homem para estar fora da ribalta. E então candidato a Presidente da República? Fora de questão! Meu filho ainda era muito novo para esse empreendimento. Ele que aguardasse mais algum tempo. Havia que dar tempo ao tempo. Pois muito bem, e ministro? Ora aí está uma belíssima ideia! Ministro! Nem mais, para já. Eis como meu filho se tornou governante e deixou o pai babado, vaidoso e orgulhoso. E, pelas minhas contas, a procissão ainda vai no adro. Haverá, pela certa e pela frente, mais vitórias políticas desse filho para eu contar aos meus amigos e conhecidos.

   Este texto já leva duas citações, e como não há duas sem três, aqui vai a terceira, para terminar, pertencente a um anónimo, mas que é digna de Nicolau Maquiavel: Não desprezarei nenhum dos meus inimigos, se for alguém bom e importante; não exaltarei nenhum dos meus amigos, se for alguém mau e insignificante. 

 

 

 

 

 

 

 

       

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

  

 

 

 

 

 

 

 

    

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

    

 

 

 

 

 

 

    

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

    

publicado por flagrantedeleite às 12:29
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