Quinta-feira, 4 de Abril de 2013

EPÍSTOLA DE UM ALEMÃO AOS MERIDIONAIS DA EUROPA

Caríssimos irmãos do Sul,

 

Para começar, permiti que vos dirija umas palavras de conforto e solidariedade, neste momento difícil por que passais. Como sabeis, pois, senti-lo na pele e na labuta do dia-a-dia, a situação das vossas economias é péssima, e o clima social e político não é melhor. Por isso tudo, convido-vos a fazer comigo uma pequena viagem à narrativa que vos conduziu ao actual estado de coisas. Vamos dar de barato o que foram as loucuras dos vossos anos oitenta e noventa do século passado, centrando-nos apenas nos primeiros dez anos do presente milénio. Vamos fazer incidir a nossa atenção naquilo que alguns chamam de década perdida - para algumas Economias, bem entendido.

   Nesse tal período, o vosso crescimento económico foi quase nulo, por um lado, em razão da conjuntura internacional pouco favorável, e, por outro, devido ao facto de terdes perdido o controlo dos vossos instrumentos cambiais e monetários. Tentando explicar a questão de modo mais simples: perdida a soberania cambial e monetária, deixastes de poder desvalorizar as vossas moedas e de fabricar notas, o que, por sua vez, e conjugado com um Euro muito forte, levou à perda de competitividade dos vossos produtos industriais e agrícolas. A impossibilidade de desvalorizar as vossas moedas, e a vossa consequente perda de competitividade, são assuntos de que voltaremos a falar mais adiante.

    Perante esse acentuado decréscimo económico, o que, na prática, significa que deixastes de produzir riqueza ou de ter pecúlio vosso, a atitude mais sensata teria sido um maior cuidado e prudência nas vossas despesas.  Aconteceu exactamente o contrário. Apesar de algumas luzes vermelhas que, à época, se acenderam, aqui e ali, optastes por dar mais atenção às enganadoras luzes verdes que também vos iluminaram: fostes muito pouco cautelosos nos vossos gastos em geral, e, por causa disso, endividastes muito para além das vossas reais possibilidades. Preferistes enveredar por caminhos pouco recomendáveis do esbanjamento e do desatino. Não vos coibistes dos maiores excessos, tais como: 2 e 3 casas por família, na cidade, no campo e na praia; 2 e 3 automóveis também por família; férias, em destinos exóticos, de Inverno e de Verão; frequência de restaurantes de luxo e com vista para o mar; multiplicação de auto-estradas por esses países fora; edificação, por atacado, de estádios de futebol e outras obras faraónicas; crédito bancário fácil, rápido e barato; reestruturação das carreiras na Função Pública, que na prática se traduziu em aumentos salariais, de forma exponencial e desmesurada, no mesmo sector; subsistemas de luxo; Fundações parasitárias  e dependentes do erário público; piscinas disfarçadas; profissões fechadas; Estados Sociais, dos mais avançados do mundo, que tudo protegeram, subsidiaram e amamentaram; transportes públicos baratos e em abundância e que nunca deixaram de ser deficitários; cantinas públicas acessíveis e abertas a familiares e amigos; legislação laboral permissiva; reivindicações irrealistas, e que, mesmo assim, foram sendo atendidas; direitos adquiridos de tudo e mais alguma coisa; horas extraordinárias que às tantas se tornaram ordinárias; isenções de horário de trabalho fictícias; professores, juizes e maquinistas em regime de piloto automático; subsídios de tudo e de nada; reformas milionárias; salários principescos; Economias de casino; lavandarias de dinheiro.

    Tudo isto ocorreu num clima de euforia total. Num clima de festa e de fartura. Num clima de orgias greco-latinas. E, tal como já foi acima dito, tudo aconteceu sem que o vosso crescimento económico tivesse acompanhado de facto as vossas exorbitantes e sumptuosas despesas. E tudo isto obrigou, num círculo vicioso infernal, os vossos respectivos Estados e bancos a contrair dívidas sobre dívidas...para pagar as mesmas despesas. Até que os créditos vos foram abruptamente cortados, nuns casos, e gradualmente cerceados noutros. As situações que tendes hoje, nos vossos países meridionais da Europa, são situações de autênticas calamidades que, de alguma forma, já eram previsíveis. Os países que não crescem economicamente, mas que gastam como se nada fosse, pedindo dinheiro emprestado, só o podem fazer até um certo ponto. Só o podem fazer até ao ponto em que os credores dizem: basta!  E foi nesse ponto do basta!, ou seja, à beira do abismo, que os povos do Centro e do Norte da Europa vos encontraram, dando-vos a mão, no último minuto, e salvando-vos de morte certa, com resgates económicos e financeiros. Convirá não esquecer que, em alguns casos, os resgates chegaram quando já nem dinheiro havia para pagar salários e pensões. E convirá sublinhar também que os resgates têm vindo a ser resgates declarados, no que respeita à Grécia, a Portugal e a Chipre, e resgates disfarçados, no que toca à Espanha e à Itália, mas que nem por isso deixam de ser resgates.

    Como sabeis muito bem, resgate, económico e financeiro, significa, por um lado, emprestar dinheiro a países insolventes, mas, por outro e simultaneamente, significa impor condições a esses mesmos países. E que condições? De vária ordem: política, económica, financeira e social. Sim, como deveis compreender, não se empresta dinheiro a ninguém, sem se impor condições. Ou pensáveis que era só emprestar o dinheiro de que precisáveis e tudo como dantes? Não, caríssimos irmãos do Sul, isso seria um despautério. Isso não existe. Não há volta a dar. E as condições podem ser resumidas numa palavra de que não gostais muito, mas que é a que melhor traduz a realidade e a que melhor reflecte as nossas verdadeiras intenções: ajustamento. Ajustamento, económico e financeiro, contido em memorandos de entendimento, assinados com três instituições internacionais, que designais de troika, e que muito bem conheceis: FMI, CE e BCE. Ajustamento que se cifra nos cortes das despesas dos vossos Estados e na desvalorização dos custos de trabalho. Ajustamento que se exprime, ou deve exprimir-se, na contracção geral de 30% do vosso PIB. E aqui, tal como acima vos prometi, voltamos à questão da impossibilidade de desvalorização da moeda única e a consequente perda de competividade dos vossos produtos industriais e agrícolas. Uma vez que não podeis desvalorizar o euro, para poderdes ser competitivos, das duas, uma: ou regressais às vossas antigas moedas, saindo da Zona Euro, com as consequências que vós podeis imaginar, mas que nem por isso deixa de ser uma alternativa, a considerar e a debater entre vós. Ou mantendo-vos na Zona Euro, procedendo à desvalorização fiscal e dos custos de trabalho. Dito de outra maneira: só podeis crescer economicamente, no âmbito da moeda única, baixando os custos de produção, designadamente, os salários dos vossos trabalhadores. Para tal efeito, e segundo as nossas contas, será inevitável uma redução de 30% nos rendimentos dos vossos cidadãos em geral e dos trabalhadores, em particular. É nesta perspectiva que devem ser consideradas as medidas de  austeridade. Isto é: cortes, no âmbito das despesas públicas, e aumento de impostos, no âmbito das  receitas do Estado. É nesta perspectiva que, por exemplo, no caso de Portugal, para além do aumento da carga fiscal, as despesas públicas devem baixar permanentemente de 78 para 70 mil milhões de euros. É nesta perspectiva que, no mesmo país, os cortes de 4 mil milhões de euros, tidos por necessários, só correspondem a 50% do valor real e definitivo. Os cortes dos restantes 50% chegarão a seu devido tempo. Esperai pela pancada. 

    Dirão alguns Meridionais da Europa, talvez os mais lunáticos, que existem alternativas às medidas de austeridade, e que tais alternativas passam pelos Eurobonds, pelo Orçamento único, pela mutualização das dívidas, pelas tranferências comunitárias e por outras medidas similares. Essas alternativas existem, sim, mas em teoria. Só em teoria. É que, na prática, caríssimos irmãos do Sul, essas alternativas fariam de nós, os Alemães, e outros contribuintes do Centro e do Norte da Europa, os pagadores das vossas dívidas e dos vossos desvarios. E isso é o que não queremos nem é lícito esperar de nós. Aliás, não é líquido que, em eventuais novos resgates, venhamos nós a pagar a totalidade das vossas facturas. À imagem e semelhança do que aconteceu em Chipre, talvez venhamos a envolver também, nesses pagamentos, os contribuintes dos países a resgatar futuramente. Está tudo em cima da mesa. De resto, trata-se de opções legítimas da nossa parte e é lamentável que não as compreendais. É lamentável que, em vez disso, tenhais criado um sentimento antigermânico e que estejais sistematicamente em posição de antagonismo em relação a nós. Até votais em palhaços que nos são hostis. Até votais no anti-sistema, preferindo a ingovernabilidade. Até cantais hinos que nos são desfavoravéis. Até procedeis a manifestações de ruas, atacando o nosso país e os nossos dirigentes políticos. Até parece que tendes inveja do nosso sucesso e da boa situação em vivemos. Mas, afinal de contas, de que nos podeis acusar, vós, os Meridionais da Europa? De sermos civilizados, disciplinados, poupados, organizados, laboriosos? De termos um bom nível de vida? De vivermos em Democracia? De vivermos em paz e sossego? De termos um Estado Social avançado e sustentável? De termos fundado, e não afundado, o Estado Social? De gostarmos da nossa chanceler Angela Merkel? De gostarmos do nosso ministro das Finanças, Wolfgang Shäuble? De não gostarmos nem da inflação nem de défices orçamentais? De estarem inscritos na nossa Constituição os limites do défice orçamental e do endividamento público? De sermos respeitadores do nosso Tribunal Constitucional? De sermos a primeira Economia europeia, e a quarta mundial? De sermos o motor económico da Europa? De termos emprestado dinheiro aos países do Sul da Europa? De exigirmos a esses países, rigor orçamental e contenção nos gastos? De termos dado guarida e apoio a partidos de oposição democrática? De termos apoiado regimes democráticos recém-nascidos? De termos sufragado Adolf Hitler, como nosso Führer, há 80 anos? De termos provocado duas guerras mundiais, a última das quais terminou há 68 anos? De, há 73 anos, termos invadido e humilhado toda a Europa Ocidental, incluindo a França, a Itália e a Grécia? De termos vergado a França em três guerras? De sermos compatriotas dos nazis, Joseph Goebbels, Martin Bormann, Heinrich Himmler, Hermann Goering e Albert Speer? De, na 2ª. Guerra Mundial, termos fabricado e utilizado o Zyklon B? De, na 2ª. Guerra Mundial, termos resistido até ao fim? De, na 2ª. Guerra Mundial, termos preferido um horror sem fim a um fim com horror? De sermos compatriotas dos filósofos, Immanuel Kant, Friedrich Hegel, Karl Marx, Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche? De sermos compatriotas dos escritores, Johann Wolfgang von Goethe, Friedrich Schiller, Bertold Brecht, Thomas Mann e Heinrich Böll? De sermos compatriotas dos compositores, Johann Sebastian Bach, Ludwig van Beethoven, Felix Mendelssohn-Bartholdy, Robert Schumann e Richard Wagner? De sermos compatriotas dos pintores, Dürer, Anton von Werner, Kirchner, Joseph Karl Stieler e Eric Peters? De sermos compatriotas dos cientistas, Johannes Kepler, Carl Bosh, Max Planck, Albert Einstein e Wernher von Braun? De sermos compatriotas dos cineastas, Ernst Lubitsch, F.W. Murnau, Max Ophüls, Leni Riefenstahl e Win Wenders? De sermos compatriotas dos actores de cinema, Marlene Dietrich, Werner Krauss, Conradt Weidt, Curt Jurgens e Hanna Schygulla?  

   

   Caríssimos irmãos do Sul, pelos pecados do nosso passado mais ou menos recente, já fomos julgados e condenados. Por tais pecados, pagámos até ao último cêntimo e até à última gota do suor dos nossos rostos. Agora os outros que paguem, como nós o fizemos, pelos seus desvarios e desgovernos. Quanto às nossas verdadeiras e genuínas virtudes, quanto à nossa história, aos nossos valores, ao nosso modo de vida, orgulhamo-nos deles, veneramo-los e continuaremos a venerá-los. Sem pedir desculpas a ninguém. Muito menos àqueles que não têm lições nenhumas a dar a ninguém.   

 

 

 

 

 

 

 

                

 

 

 

 

 

 

 

    

 

 

 

 

 

 

 

    

 

 

 

 

 

          

publicado por flagrantedeleite às 12:25
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