Quinta-feira, 29 de Novembro de 2012

CORRENTE DE CONSCIÊNCIA (allegro ma non troppo)

   O génio é isto, caramba. O sujeito teu um enorme sentimento de culpa. Ele é alguém roído pela culpa. Preseguido pela culpa. Obcecado pela culpa. Do passado e do presente. Vagabundos ao Luar. Os bodes expiatórios. O sal da terra. O sol da terra. A soleira da porta. O sal. O sol. O sul. The salt. The sun. The south. Requiescat in pace. Reformatio in pejus. 24 de Outubro de 1929. Quinta-feira Negra. A Grande Depressão. There's no way like the American way. New Deal. Há que saber sair do palco. Na hora exacta. Saber sair é tão importante como saber entrar. Ou mais! O plágio. O plagiário. Prima facie. Todo o Portugal contra o resto de Portugal. Bigger than life. Feios, Porcos e Maus. Beber os sólidos e mastigar os líquidos. Do átomo a Hiroxima. Pandemónio. Parafernália. Paranóia. Syilvia Kristel. O cozido está a trabalhar-me no estômago. Caiu-me mesmo mal. Lei Sálica. Casamentos morganáticos. Palafreneiro. Pim-pam-pum, cada bola mata um. MR Pum-Pum. Um qualquercoisiano. Fim-de-Semana Alucinante. Fim-de-Semana no Ascensor. É assim porque é assim. Não há café porque não há café. Petição de princípio. Meia-bola e força. Politicamente incorrecto. Discriminação positiva. O Homem Tranquilo.  

 

 

Milady, é perigoso contemplá-la,

Quando passa aromática e normal,

Com o seu tipo tão nobre e tão de sala,

Com os seus gestos de neve e de metal.

 

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,

Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,

Eu vejo-a, com real solenidade,

Ir impondo toilettes complicadas!...

 

Em si tudo me atrai como um tesoiro:

O seu ar pensativo e senhoril,

A sua voz que tem um timbre de oiro

E o seu nevado e lúcido perfil!

 

Ah, Como me estonteia e me fascina...

E é na graça distinta do seu porte,

Como a Moda supérflua e feminina,

E tão alta e serena com a Morte!...

 

 

    O génio é isto, caramba. Quem e dá a volta a tirar, ao inferno vai parar. Ninguém pode dar o que não tem. SO4H2. Ex quibus. Da mão à boca se perde a sopa. Facécia. A cada um segundo as suas necessidades e de cada um segundo as suas possibilidades. As pessoas podem suportar que lhes morda um lobo, mas o que propriamente as exaspera é que lhes morda um cordeiro.  Aduzir. Seduzir. Deduzir. Reduzir. Um casca-grossa. Perfume de Mulher. Nem contigo nem sem ti. Stabat Mater Dolorosa. No hard feelings. Sans rancune. Se deste e depois tiras,/ Pergunta Deus onde está,/ Dizes que nada sabes,/Ao inferno te mandará. O Americano Tranquilo.

 

 

   Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados; Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra; Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos; Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia; Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus; Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus; Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa. 

 

 

    O génio é isto, caramba. 22 anos. De uma vida. Aqui entregues. Aqui deixados. Aqui desperdiçados. E agora dão-me um papel para o subsídio de desemprego. Já viu isto? Diz-me lá os teus pecados, menino. Senhor padre, eu. A Mulher Que Deus me Deu. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Três mulheres, com destinos parecidos. No retorno fatídico de Angola, em 1975, o sujeito deixou a mulher e quatro filhos menores, em Lisboa, e foi para o Brasil. Com a promessa de que a família seguiria depois. Até hoje. Nunca mais se soube do safado. A mulher, sem outro recurso, lá teve de regressar à terra, com os filhos atrás. Começou tudo de novo. Ferida no seu orgulho. Dilacerada. Humilhada. Vergada. A segunda mulher, com dois filhos nos braços, volveu à casa materna, porque o marido se tinha suicidado. Por razões políticas. Ela e mãe odiavam-se. Foi um regresso, constrangido e envergonhado, à estaca zero. Originando uma filiação no partido a que o marido pertencera. Uma filiação vingativa. Ortodoxa. Fanática. Fundamentalista. Primária. Própria dos ressabiados. Dos frustrados. Dos falhados. Finalmente, uma outra mulher, que sustentava a mãe, a meias com o irmão, vendeu tudo o que tinha, despediu-se de um bom emprego, e, sem olhar para trás, viajou para Paris com o namorado. As despesas corriam todas por conta dela. Ao fim de seis meses, quando o dinheiro se acabou e nenhum deles conseguia arranjar trabalho, o namorado desapareceu. Para nunca mais. A nossa triste heroína não teve outro remédio senão vir bater à porta da casa que, em má hora e impensadamente, havia abandonado. A Grande Farra. O Último Tango em Paris. o Ano da Morte de Ricardo Reis. Levantados do Chão. Mãe, há só uma.    

 

   HOMENAGEM. No filme, A Desaparecida, Nathan Edwards (John Wayne) e o companheiro, Martin Pawley (Jeffrey Hunter) são conduzidos ao chefe comanche Scar (Henry Brandon), por um mexicano garboso e hospitaleiro (Antonio Moreno), visando negociar o resgate de Debbie (Natalie Wood), a sobrinha sobrevivente do primeiro. Fracassada a missão, e num gesto de extrema elegância e honestidade, o mesmo mexicano devolveu acto contínuo a Nathan a recompensa, que este lhe havia pago. Esse homem apresentara-se inicialmente sob o nome de Emilio Gabriel Fernandez y Figueroa. Uma singela e tocante homenagem de John Ford a duas grandes figuras do Cinema mexicano: Emilio Fernandez e Gabriel Figueroa.   

 

  O génio é isto, caramba. Diz-me lá os teus pecados, menino. Senhor padre, eu. 22 anos. De uma vida. Aqui suados. Aqui enterrados. E agora dão-me um papel para o subsídio de desemprego. Já viu isto? De volta ao assunto. Queres ser bom aluno? Escolhe com cuidado os teus pais. De preferência, pais com algum dinheiro e instruídos. Pais que já tenham livros em casa. Pais, com hábitos de leitura. Pais que discutam ideias. Pais capazes de responder às tuas perguntas e às tuas dúvidas. Pais que te apoiem nos trabalhos de casa. Pais que te ajudem na preparação dos testes. Pais que te paguem o explicador, se for caso disso. Pais que te levem ao teatro e ao cinema. Pais que te levem aos museus. Pais que levem às exposições. Pais que te levem ao estrangeiro. Cuidado com a escolha dos teus pais. Eles são os teus primeiros professores. Eles são a tua retaguarda. O primeiro raio de luz que ilumina as trevas, convertendo num brilho ofuscante a que parecia votada a história remota da carreira pública do imortal Pickwick, deriva da consulta do seguinte assento do Livro da Actas do Clube Pickwick, cuja exposição aos olhos do leitor é do maior agrado do editor destes documentos, enquanto testemunho da cuidada atenção, da infatigável diligência e do criterioso discernimento com que conduziu a sua investigação por entre os variadíssimos papéis que lhe foram confiados. A Troika. O Triunvirato. O Trio. O Terceto. A Tríade. A Trilateral. A Tricontinental. o Triponto. O Ternário. O Tricórnio. O Triângulo. A Trindade. O Tridente. As Três Luzes do Altar. Três é a conta que Deus fez. Foram três de uma só vez. À terceira foi de vez. Não há duas sem três. Cristo resuscitou ao terceiro dia. Mãe, há só uma.   

 

Lisbon revisited

(1923)

 

Não: não quero nada.

Já disse que não quero nada.

 

Não me venham com conclusões!

A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!

Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!

Não me apregoem sistemas completos, não me enfilerem

                                                                                [conquistas

 

Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) -

Das ciências, das artes, da civilização moderna!

 

Que mal fiz eu aos deuses todos? 

 

Se têm a verdade, guardem-na!

 

 

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. 

Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.

Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

 

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?

Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?

Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.

Assim, como sou, tenham paciência!

Vão para o diabo sem mim,

Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!

Para que havemos de ir juntos?

 

Não me peguem no braço!

Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.

Já disse que sou sozinho!

Ah, que maçada, quererem que seja da companhia!

 

Ó céu azul - o mesmo da minha infância -

Eterna verdade vazia e perfeita!

Ó macio Tejo ancestral e mudo,

Pequena verdade onde o céu se reflecte!

 

Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!

Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

 

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...

E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

 

 

 

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Quinta-feira, 22 de Novembro de 2012

CORRENTE DE CONSCIÊNCIA (moderato cantabile)

    O génio é isto, caramba. Enquanto há vida, há lida. Enquanto há lida, há vida. Enquanto há vida, há esperança. Enquanto há esperança, há vida. Enquanto há. Enquanto. Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. Não precisamos dos aperitivos para nada. Nem dos digestivos. Achas que eu sou parvo? O Gaélico. A língua de Gael. Civilização. Sifilização. Liberalização. Iberização. Temos de arranjar um plano B. Onde param as patos-bravos? Vale o que vale. Missa pro defunctis. Eis senão quando. O sujeito saiu do avião, com a boca a salivar, e ainda a tempo de abichar um lugar de Embaixador na Patagónia. D. Branca. A banqueira do povo. Mostravam-se felizes porque o dia era longo. A casa é o que mais custa perder. Perde-se  o marido ou a mulher, e suporta-se. Perde-se o emprego, e aguenta-se. Perde-se o automóvel, e resigna-se. Mas a casa é o que  mais custa perder. A casa é o último reduto. O último refúgio. A nossa identidade. 25 de Novembro de 1975. Há uma grande falta de cultura fiscal entre os Portugueses. O mal é antigo. É salazarista. Eram uns poucos que pagavam pelos outros. A pobreza assim o exigia. E, também, para o que o Estado fazia, não era preciso muito mais. Todo fugia e ainda foge ao Fisco. O resto eram as isenções. As excepções. As deduções. Quem tem medo de Virginia Woolf? Quem tem medo de James Joyce? Quem tem medo de uma pessoa que eu cá sei? Por quem os sinos dobram. Estado de Guerra.

 

 

Non son degno di te

Non te mérito più,

Ma al mondo no, non existe nessuno

Che non ha sbagliato una volta.

 

E va bene cosi,

Me ne vado da te,

Ma quando la sera tu rasterai sola

Ricorda qualcuno che amava te

 

Sui monti di pedra

Puo nascere un fiore,

In me questa sera

È nato l'amore per te.

 

 

    Ah, Medina de Marraquexe! Setembro Negro. Queres ser bom aluno? Escolhe conveniente e cuidadosamente os teus pais. De outro modo, dificilmente chegarás lá. Uma certa esquerda rejeita esta verdade incontornável. Inquestionável. Por razões meramente ideológicas. E outros, por pura inveja. Para esses, a solução é nivelar por baixo. Que se lixe a ideologia. Que se lixe a inveja. Que se lixe o preconceito. Escolhe os teus pais, de preferência, financeiramente abonados, e instruídos. Pais que já tenham livros em casa. Decisão em causa própria. Juízes. Os subsídios de Natal e de férias. Obrigaram o governo a baralhar e a voltar a dar. Mal! Estamos nisto. Quem é que vai pagar a factura? O mexilhão. Como de costume. O bom senso é a coisa do mundo melhor partilhada, pois cada qual pensa andar tão bem provido dele que até os mais dificeis de em qualquer outra coisa contentar não costumam desejar mais bom senso do que aquele que já possuem. A rapariga ficou ali toda esparramada. Já foste. És a rainha da noite. A superioridade moral dos progressistas. A superioridade moral dos cultos. A superioridade moral dos que têm e leram Crime e Castigo. A superioridade moral dos que sabem quem é Leon Tolstoi. José Oliveira Costa: peço a Deus que me ajude a perdoar quem me ataca. No azulejo de uma taberna: desejo longa vida aos meus inimigos, para que possam assistir à minha vitória final. Mala de senhora. Mala de cartão. A Bela e o Monstro. Alice no País das Maravilhas. Fulgores prateados do luar. Kim Novak para Frank Sinatra, em Querido Joey. O que é que me fizeste enquanto eu dormia?! Antes de Frank Sinatra responder, um tipo, na plateia, que tinha uma paixão louca pela Kim Novak, gritou: Nada! Vi tudo! 

 

 

    ELI WALLACH. Pode um homem só desafiar uma multidão furiosa de sete magníficos? Claro que pode, se o homem for Eli Wallach. Pode um só enfrentar três gigantes inadaptados? Pode, sim, se o homem for Eli Wallach. Pode um homem só provocar a ira e a pontaria de um caçador de recompensas? Pode sempre, se o homem for Eli Wallach. Eli pôde tudo, e suspeita-se que o segredo estava no sorriso, ao mesmo tempo, cáustico e desesperado.

 

 

     O génio é isto, caramba. Um dia vieram buscar o meu vizinho, que era sindicalista. Como não sou sindicalista, não me incomodei. 5 de Outubro de 1910. As bombas-relógio da nossa crise. A Constituição. O Tribunal Constitucional. Que podem explodir em qualquer altura. Que podem explodir nas mãos de qualquer governo. Que já explodiram nas mãos deste governo. Armadilhas que a Grécia não tem. Nem a Espanha. Nem a Itália. Nem a Irlanda. Uma originalidade portuguesa. Mais uma. Uma coisa em forma de assim. Menino, o que é que tu queres ser quando fores grande? Quando eu for grande, quero ser reformado. Gato fora, rato à solta. Gato escondido com rabo de fora. Por favor, não pise a relva. É proibido fumar. É expressamente proibida a entrada a pessoas estranhas ao serviço. Reservado o direito de admissão. O Planeta Proibido. É proibido proibir. O Borda d'Água. O Almanaque. Mundo de Aventuras. Agência Portuguesa de Revistas. Plateia. Cavaleiro Andante. O Príncipe Valente. Mandrake. Kit Karson. Labor omnia vincit improbus.

 

 

Quis saber quem sou

O que faço aqui

Quem me abandonou

De quem me esqueci

Perguntei por mim

Quis saber de nós

Mas o mar

Não me traz

Tua voz

E depois do amor

E depois de nós

O adeus e ficarmos só

 

 

      O ajuste de contas longamente esperado. A via da circunvalação. A 2ª. Circular. Voltaram cabisbaixos e de crista caída. Aquele que está lá no alto. O Esposo Universal. O Grande Foco. Par deam Partulam et Pertundam nunc est bibendum! Parangonas. O livro póstumo. A obra póstuma. Ele sabe-as todas. O cerco ao Parlamento. Preparou-lhe o farnel. Just in case. Atrás irá a respectiva caixa. O Código Vermelho. Nunca se sabe. O indivíduo matou-se com um tiro nos cornos. E deixou um enorme vernáculo, ampliado, nos écrans de todos os computadores da sala. Foi a sua despedida. Com justa causa ideológica. Alea jacta est. Prosperity is just around the corner. Around the world in eighty days.     

 

   

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou,

- sei que não vou por aí!

 

 

     O génio é isto, caramba. O sonho ao virar da esquina. A fotografia do telemóvel. Os dois negociadores. O sucesso estrondoso dos velhinhos. O sucesso dos cabelos brancos. Tudo por 500 milhões de euros. Para as empresas e para as famílias. PEC 4. O PEC dos nossos remorsos! Os relapsos. O génio de Beja. O génio de Vancouver. O génio dos pintelhos. Oh, Diabo! O governo foi ao ar! O multiculturalismo. Quem ventos semeia, colhe tempestades. Mais cedo ou mais tarde. Servidão Humana. Condição Humana. Tragédia Humana. Um pequeno país para berço e o mundo todo para morrer. O eremita. Os cavalos também se abatem. O sonho americano. Apotegma. Apoteose. Apótema. Apótese. Apoucamento. Traga-me uma cerveja Sagres e um cachorro quente sem maionese. Não temos maionese; pode ser um cachorro quente sem mostarda? Aqui para nós, que ninguém nos ouve. Só nós dois é que sabemos. Nem às paredes confesso. Fui bailar no meu batel/ Além do mar cruel/ E o mar bramindo/ Diz que eu fui roubar/ A luz sem par/ Do teu olhar tão lindo. O sonho ao virar da esquina. Benedicat vos omnipotens, Deus, Pater et Filius. Uma ignorante. Só sabe dizer banalidades! Conversas de chacha. Ele é de arromba. Um homem que foi educado, segundo os princípios da religião católica. Crise de identidade. Crise da meia-idade.  Incomunicabilidade. Preso incomunicável. O sujeito teve um desfalque. Deixou a mulher e os filhos pelas ruas da amargura. Falta de juízo. Mais vale absolver um culpado do que condenar um inocente. O tipo era um citador de frases. Ele soltava as sentenças, com o indicador direito apontado à testa. Meu tipo inesquecível. Mãe só há uma. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    

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Sexta-feira, 16 de Novembro de 2012

CORRENTE DE CONSCIÊNCIA (interregno) Ressalvas

2º. parágrafo, intitulado STANLEY KUBRICK E AS BANHEIRAS, 7ª. linha: (...) do misterioso quarto 237 (...)

 

 

Último parágrafo, cujo título deve ser lido da seguinte forma: FRED & GINGER.

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Quinta-feira, 15 de Novembro de 2012

CORRENTE DE CONSCIÊNCIA (interregno)

   Era uma vez um fabricante de urnas. Uma média de três por semana. O homem alimentava a família a caixões. Tábuas ligadas por pregos, e forradas a pano preto. Rápidos e baratos. Eram pancadas a meio da noite. Sinais da morte. Um outro sujeito alimentava a família a meias-solas. Um outro, a ponteiros de relógio. Um outro ainda, a agulhas de coser. Um outro ainda, a chumbos de imprensa. Um outro ainda, a copos de vinho. Um outro ainda, a funis. Eram só misérias.

 

      STANLEY KUBRICK E AS BANHEIRAS. Em Lolita, é mergulhado numa banheira que o Professor Humbert (James Mason) sofre pesarosamente a perda da mulher, e é dentro da mesma banheira que ele recebe, sem quaisquer rebuços, o casal de amigos que lhe vem trazer algum consolo; em Barry Lindon, é eroticamente sentada numa confortável banheira, do século XVIII, que a Lady Lindon (Marisa Berenson) aceita do marido (Ryan O'Neal) um beijo sensual de reconciliação; em Shining, é da banheira do misteriosos quarto 237, que sai uma bela mulher, nua e molhada, (Lia Beldan), para beijar sofregamente Jack Torrance (Jack Nicholson), transformando-se, de seguida, e ainda nos braços deste, numa velha decrépita, desdentada e pustulenta. 

 

   O génio é isto, caramba. Divorciada, e com um filho menor para criar. Velha demais para trabalhar e nova demais para me reformar. Já viu isto? Quando a esmola é grande, o pobre desconfia. Da boca do cano saíam para o mar imundícies líquidas. E, no ar, pairava invariavelmente aquela mistura fétida de esgoto e maresia. Nas tardes quentes de Verão, o fedor era ainda mais intenso. Mas os banhistas nem ligavam. Nem notavam. Estavam habituados. E conformados. E adaptados. E resignados. Os tipos falharam vergonhosamente o curso de sargentos-milicianos. Nem para isso serviram. Nem chegaram à Metrópole. Foram rejeitados pelo Exército colonial-fascista.  Regressaram curvados e de braços estendidos. Derrotados. Vencidos. Fazem lembrar os outros que emigraram. Estes voltaram como foram. Ou pior. Com uma mão à frente e outra atrás. Um cambada de falhados. De frustrados. De ressabiados. E depois vêm arrotar postas de pescada. Ou outra coisa qualquer. Escondem muito bem as mazelas. Já sei o que a casa gasta. Conheço as couves da minha horta. Proletários de todo o mundo, uni-vos!

 

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?),

Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.

(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)

Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.

Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo

Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria

                                                                                                       [sorriu.

 

    O génio é isto, caramba. Faço votos ardentes para que estas linhas te vão encontrar de perfeita e óptima saúde. Eu e o teu pai estamos bem, na graça do Altíssimo. Querida, não dei por nada. A síndroma da Greta Garbo. Desapareceu da circulação, aos 35 anos de idade e no auge da fama. Um outro sujeito fez o mesmo. Aos 65 anos. Salvaguardadas as devidas distâncias e circunstâncias. Cada um faz o que pode, como pode, e quando pode. A cavalo dado não se olha o dente. 22 anos de uma vida. De trabalho. No duro. Sem faltar um único dia. E agora recebo um papel para o subsídio de desemprego. Já viu isto? O indivíduo não risca nada. É goela e mais nada. Não faças perguntas e não ouvirás mentiras. Ele assinou de cruz. Quem tem unhas toca guitarra.

 

She gets too hungry for dinner at eight

She likes the theater and never comes late

She never bothers with people she'd hate

 

That's why the lady is tramp

 

Doesn't crap games with barons and earls

Won't go to Harlem in ermine and pearls

Won't dish the dirt with the rest of the girls

 

That's why the lady is a tramp

 

She likes the free fresh in her hair

Life without care

She's broke and it's "oke"

Hates California it's cold and it's damp

 

That's why the lady is a tramp.

 

 

  O génio é isto, caramba. Deus fez a comida, o Diabo os cozinhados. Pato com laranja. No Regresso Vinham Todos. Com verdades me enganas. Engana-me que eu gosto. Bate-me que eu gosto. Homo sum, humani nihil a me alienum puto. No outro dia, vieram buscar o meu vizinho que era sindicalista. Como não sou sindicalista, não me importei. Quem diz o que quer, ouve o que não quer. Cozido, grelhado e estragado. A bebida mais parecida com o vinho. Os dois dias mais felizes na vida do dono de um barco. O fulano diz o que pensa e não pensa no que o diz. A falar, ele é um descuidado. A escrever, é um medricas completo. Sempre o foi. Não me peçam para dizer mal nem do céu nem do inferno. É que tenho amigos em ambos os lados. Os ricos que paguem a crise.

 

"Não venhas tarde", diz-me tu com carinho,

Sem nunca fazer alarde do que me pedes baixinho.

 

"Não venhas tarde", e eu peço a Deus que no fim

Teu coração ainda guarde um pouco de amor por mim

 

      O génio é isto, caramba. 22 anos. Uma vida! Desbaratada nesta empresa. E, no fim, dão-me um papel para o subsídio de desemprego. Já viu isto? Viver A Sua Vida. Quero Viver. Fúria de Viver. A Mulher Que Viveu Duas Vezes. Viver Em Paz. Maior do Que a Vida. Vida de Cão. Há mais vida para além do défice. Há mais défice para além da vida. No domínio do Estado Social, os governantes portugueses, mais recentes, ousaram o que Vasco Gonçalves nem sonhou.  Praticaram o que Álvaro Cunhal nem teorizou. Parturejaram o que Isabel do Carmo nem concebeu. Legaram o que Otelo nem previu. Diz-me lá os teus pecados, menino. Senhor padre, eu. E Deus Criou a Mulher.

 

Temos todos duas vidas:

A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,

E que continuamos sonhando, adultos num substrato de névoa;

A falsa, que é a prática, a útil,

Aquela em que acabam por nos meter num caixão.

 

   O génio é isto, caramba. Toque de silêncio. Os sábios da Nação. Ela quer estar em todas. Num triângulo rectângulo, o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos. 25 de Abril de 1974. Para ela, nunca haverá punição para os infractores, quando estes são pessoas com algum poder e influência. Para ela, essas pessoas safam-se sempre. Pomposo, roliço, Buck Mulligan, veio do alto da escada, trazendo uma tigela com espuma de barbear, na qual se cruzavam, em cima, um espelho e uma navalha. O roupão amarelo, solto, sustinha-o por detrás, gentilmente, a brisa suave da manhã. Ergueu a tigela e entoou:

- Introibo ad altare Dei.

A banqueira alimentar contra o apetite fez-se ouvir. Finalmente. Para asneirar. Mais valia estar calada. A sede de protagonismo é uma coisa que mete dó. Fernando Nobre, e outros da sua igualha, que o digam. Começam pela filantropia e acabam na ribalta. Às vezes, tristemente.

 

    FRED & GINGER. Fred Astaire começou a carreira de bailarino, muito cedo e ao lado da irmã Adele. Esta entretanto cansou-se e resolveu juntar os trapinhos com um nobre inglês, deixando o mano desconsolado e a dançar sozinho. O acaso de uma audição qualquer pôs Ginger Rogers nos braços de Fred Astaire, e colocou a dupla na rota do sucesso. Em 9 filmes. Mas, lá no fundo, a Ginger também não gostava muito da coisa. Ela nem sequer se dava ao trabalho de disfarçar o enfado. Via-se-lhe claramente na cara o aborrecimento. Além disso, A Ginger achava que as fitas eram desmioladas, e também não suportava que a estrela fosse sempre o Fred, e não ela. De resto, sentia-se talhada para voos mais ambiciosos: dramas e alta comédia. Aos quais se atirou, à primeira oportunidade, e de alma e coração. Com direito a Óscar e tudo. Só que, e apesar da estatueta marela, ninguém se lembra dela, em tragédias e comédias. Ginger é e será sempre recordada como Ginger, a eterna companheira de Fred, nos tais 9 filmes. Fellini que o diga.       

 

 

 

 

 

 

 

 

 

      

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

   

 

 

 

 

 

 

    

 

 

    

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

        

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Sexta-feira, 9 de Novembro de 2012

CORRENTE DE CONSCIÊNCIA (canto livre) Rectificações

Primeiro parágrafo, última linha: Diz-me lá os teus pecados, menino.

 

 

Segundo parágrafo, intitulado AFINIDADES ELECTIVAS: (...) nunca lhe perdoou o facto de ela o ter trocado (...).

 

 

Terceiro parágrafo, penúltima linha: Um dos gajos ficou com a mão espetada no balcão por um punhal em. 

publicado por flagrantedeleite às 07:42
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Quinta-feira, 8 de Novembro de 2012

CORRENTE DE CONSCIÊNCIA (canto livre)

    O génio é isto, caramba. Os tipos julgam-se uns iluminados. 42 anos de idade. Despedida. Divorciada. Um filho menor para criar. Já viu isto? Fazer o bem sem olhar a quem. Exército de Salvação. Os meninos de Deus. Mórmons. Poligamia. IURD. Igreja Universal do Reino de Deus. Coliseu do Porto. Os gajos eram muito exuberantes. Espectaculares. Show-off. Nada consentâneo com a realidade portuguesa. Calaram-se de vez. E a Igreja Católica a rir-se. Pudera. Estão cá há muitos anos. Antes de Portugal nascer, já cá andavam. Camarada, os católicos são muito bem organizados. Eles são como nós. Perdão, camarada, nós é que somos como eles. Sempre são dois mil anos de História. Nós ainda estamos na Pré-história.  Lei da Gravitação Universal. Dois corpos quaisquer atraem-se com uma força proporcional ao produto das suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância que os separa. Diz-me lá os teus pecados, meninos. Senhor Padre, eu.

 

       AFINIDADES ELECTIVAS. Há pelo menos dois sinais conjugados que indiciam, e explicam, claramente o culto que Alfrted Hitchcock dispensava a certos actores e actizes. O primeiro era realizar, no mínimo, três filmes com eles; e o segundo era nunca falar mal deles, fosse qual fosse o pretexto. São conhecidos os ajustes de contas que, por razões mais ou menos diferentes, o Mestre foi fazendo aqui e ali, com, por exemplo, Charles Laughton, Farley Granger e Kim Novak. À Ingrid Bergman, com a qual trabalhou as tais três vezes, mas só isso, nunca lhe perdoou o facto de o ela ter trocado por um latino, um homem casado e, ainda por cima, um perigoso marxista. E também de ela ter passado a contracenar com maltrapilhos, em fitas cujo pano de fundo era a roupa dos pobres a secar nos quintais. Quem foram então os indefectíveis de Alfred Hitchcock? Ei-los: Cary Grant, James Stewart e Grace Kelly

 

   O génio é isto, caramba. Ela era de língua afiada. Faz o que eu digo e não o que eu faço. Ele teve sempre uma relação pouco saudável com o dinheiro. É uma herança genética. Lá bem no fundo, foi sempre um venal. Na adolescência e também depois. Até hoje. Está-lhe na massa do sangue. Corre-lhe nas veias. Mandava pedir dinheiro aos cunhados. E a certos amigos. Em bilhetinhos. O diabo a sete. Trinta por uma linha. O verdadeiro subversivo não é o que agita a Ditadura. O verdadeiro subversivo é o que alarma a Democracia. São uns tudólogos. Juntos, têm competência e capacidade, mais do que suficientes, para reunir um Conselho de ministros. Para formar um Governo de Salvação Nacional. Os Fabulosos Irmãos Baker. The Jackson 6. Tarzan e a Fonte Mágica. Ela tinha um bom par deles. Deus a abençoe. Leopold Von Sacher-Masoch. Tosses catarrosas. Faz pela vida. Faz de conta. Donatien Alphonse Françoise de Sade. Quando o ateísmo quiser mártires, que o diga, o meu sangue está pronto. O gajo entrou e saiu pela porta dos fundos. O outro saiu de chaimite. Cada um entra, e sai, como pode e sabe. É a vida. Sangue, suor e lágrimas. Os PIGS. Um dos gajos ficou a mão espetada no balcão por um punhal. A coisa está preta. Depois de mim, o dilúvio. Teorema de Pitágoras.

 

De pé, ó vítimas da fome

De pé, famélicos da terra

Da ideia a chama já consome

A crosta bruta que a soterra

 

Cortai o mal bem pelo fundo

De pé, de pé, não mais senhores

Se nada somos neste mundo

Sejamos tudo ó produtores

 

Bem unidos façamos

Nesta luta final

Uma terra sem amos

A Internacional

 

Senhores, patrões, chefes supremos

Nada esperamos de nenhum

Sejamos nós quem conquistemos

A terra mãe livre e comum

 

Para não ter protestos vãos

Para sair deste antro estreito

Façamos nós por nossas mãos

Tudo a que nós diz-nos respeito

 

Bem unidos façamos

Nesta luta final

Uma terra sem amos

A Internacional

 

   Mataram-no às punhaladas. Eram muitos contra um. O tipo fez mal em não dar ouvidos ao vidente. Idos de Março. Em qualquer triângulo rectângulo, o quadrado do comprimento da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos comprimentos dos catetos. Um dia vieram e levaram o meu vizinho, que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. Há razões que a Razão não entende. Mesmo doentes, escanzelados, e nas últimas, eles aparecem em público. Regularmente. Falta de pudor. Show-off, outra vez. A doença terminal pertence à nossa intimidade. À nossa privacidade. Há animais que se retiram. Com grande dignidade. Os elefantes procuram os seus cemitérios. No dia seguinte, vieram e levaram o meu vizinho, que era comunista. como não sou comunista, não me preocupei. (...) E convenhamos que o quadro surreal de hordas de velhos, destrunfando cartas de jogar, em jardins públicos, pode deixá-los incrédulos. Ou, pelo menos, desconfiados! 22 anos da minha vida. 22 anos desbaratados nesta empresa. O meu primeiro e único emprego. Eu era uma jovem quando aqui cheguei. E agora o que me resta é um papel para o subsídio de desemprego. Já viu isto?

 

TRÊS IRMÃS  (NUMA PASTELARIA LONDRINA)

 

- Good afternoon, young ladies, what shall we have?

- Good afternoon. We'd like to have tea for three, and English cake for eating.

- Tea for three and English cake...English cake? Did you say English cake?

- Yes, English cake.

- You see, young lady, all our cakes are English ones.

- ...?!

- Will you, please, show me the cake you really want?

- Sure. Let me show you: this one.

- This one?

- Yes.

- Oh, I see. Do you mean fruit cake?

- Yes. You see, in Portugal, we call it English cake.

- I see...  

 

     Dizem que o gajo anda a arrasar isto tudo na Internet. De toda a forma e feitio. Estamos feitos! E dizem que o gajo até nem escreve mal. Não desfazendo. Meteram-se com ele e deu no que deu. Abriram a Caixa de Pandora. Agora vão conhecer o lume da Rússia. E dizem que o gajo sabe-as todas. O tipo está bem informado. E tem memória de elefante. Ele conhece os podres todos da malta. Uma cambada de ignorantes! De boateiros! De caluniadores! De invejosos! De frustrados! De falhados! De falidos! De vendidos! De uma coisa que eu cá sei. Mandámos rezar uma missa pela alma do padre Lino.  Quotizámos todos. Não sei onde é que o gajo foi buscar o catolicismo. Que se saiba, nem o pai nem a mãe. O pai, muito menos. Um descrente dos antigos. Deve ser alguma coisa a pesar-lhe na consciência. Coitadinho! Ou então do género: Maria-vai-com-as-outras. Já os conheço. Católico, uma ova! Católico, às segundas, quartas e sextas.

 

 

Há uma voz de sempre

Que chama por mim

Para que eu me lembre

Que a noite tem fim

 

Ainda procuro

Por quem não esqueci

Em nome de um sonho

Em nome de ti

 

Procuro á noite

Um sinal de ti

Espero à noite

Por quem não esqueci

Eu peço à noite

Um sinal de ti

Quem eu não esqueci

 

Por sinais perdidos

Espero em vão

Por tempos antigos

Por uma canção

 

Ainda procuro

Por quem não esqueci

Por quem já não volta

Por quem eu perdi

 

 

 

 

 

 

 

      

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

      

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Quinta-feira, 1 de Novembro de 2012

CORRENTE DE CONSCIÊNCIA (prólogo)

   O génio é isto, caramba. Eu nunca tinha entrado num tribunal. Já viu isto? Nunca ninguém se tinha queixado de mim. Nem eu, de ninguém. Ninguém é de ninguém, na vida tudo passa. Ninguém é de ninguém, até quem nos abraça. E agora metem-me um papel na mão, para o subsídio de desemprego. Já viu isto? 22 anos. Enterrados nas areias de uma empresa. 42 anos de idade. Divorciada. Um filho menor para sustentar. Já viu isto? Não, não vou por aí. Os vasos comunicantes. Os tubos de ensaio. Os mutantes. Veio de outro mundo. Tudo por tudo. Título sugestivo. Morte em Veneza. Contra tudo e contra todos. Morri  Mil vezes. Fui preso 12 vezes pela PIDE. Eu, 6 vezes. Eu, nenhuma. Não sente pena? O meu reino por um cavalo. Realizei todos os meus sonhos. Sonhando-os. Tem aqui um sonho de encomenda. Um sonho à medida.  Sonho por medida.

 

SONHOS

 

Shakespeare inventou os sonhos,

Tchaikovsky musicou-os,

Freud interpretou-os,

Kafka transfigurou-os,

Dali pintou-os,

Olivier encarnou-os,

Hitchcock filmou-os.

Sou testemunha ocular destes sonhos todos.

Sonhei-os. 

 

    O génio é isto, caramba. Se ele não existisse, tinha de ser inventado. 15 minutos antes de ele morrer, ainda estava vivo. La Palisse. Esta é a primeira vez que cá desde a última vez. Tínhamo-nos esquecido deles, mas eles não se esqueceram de nós. O Decepado. Ergueu a bandeira até ao fim. Nas areias do deserto. Heróis de Mucaba. Heróis de Nambuangongo. Chaimite. Rua Serpa Pinto. A prisão de Gungunhana. Rua Tenente Valadim. Morto pela Pátria no Niassa. Ao Dr. António Lorena. Médico. Homenagem de gratidão. Rua Júdice Biker. Rua da República. Rua Sá da Bandeira. Abolicionista. 5 de outubro de 1910. Estou a recibo verde. Há quem não esteja a nada. Nem a recibo verde. Nem a recibo branco. Nem a recibo amarelo. Há quem esteja em branco. Eu sou nutricionista. Estou a recibo verde. Nem a isso devia estar. Há profissões que, em tempos de vacas gordas,  brotaram como cogumelos. Em tempos de vacas magras, essas mesmas profissões deixaram de fazer sentido. Deixaram de ter espaço. Em tempos de vacas magras, há que repensar tudo. Há quem tenha dois empregos. Mal! Há quem tenha duas pensões. Uma de cá e outra de lá. Mal! Há quem tenha duas casas. Uma de lá e outra de cá. Mal! Há quem tenha dois automóveis. Mal!  22 anos de uma vida. Eu era uma jovem. Tinha sonhos. Enterrei-os nesta empresa. E agora, despacham-me com um papel para o subsídio de desemprego. Já viu isto? Divorciada e com um filho menor para criar. Enquanto há vida, há esperança. Enquanto há esperança, há vida. Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. Há mais marés que marinheiros. E a vida continua. Se bem me lembro. E Deus não dorme. Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és. Cão que muito anda, ou osso ou pancada. Pelo andar da carruagem, se vê quem vai lá dentro.

 

Foi por ela que amanhã me vou embora

Sempre o mesmo, hoje e sempre ainda agora

Sempre o mesmo em frente ao mar também me cansa

Diz Madrid, Paris, Bruxelas quem me alcança

Em Lisboa fica o Tejo a ver navios

Dos Rossios de guitarras à janela

Foi por ela que eu já danço a valsa em pontas

Que eu passei das minhas contas foi por ela

 

 

    O génio é isto, caramba. Já viu isto? O gajo ficou muito mal na fotografia. Bem feita! Ele que não se metesse em altas cavalarias. A D. Verónica para a carvoeiraEstou muito desgostosa com o meu filho mais velho. Oh, D. Verónica, tenha paciência. Estes rapazes, quando se metem na vida mundial, é uma grande chatice. Tem de ter muita paciência, D. Verónica. Nec plus ultra. Ne varietur. 22 anos de uma vida. Vida cheia de ilusão. E de inocência. Perdi ambas. Aqui nesta empresa. E agora dão-me um papel para o subídio de desemprego. Já viu isto? Francisco Schettino. 52 anos. Uma vida dourada. São muitos os que pagam milhares para terem, por uns dias, a vida que Francisco Schettino era pago, e bem, para ter por toda a vida. Deus dá nozes a quem não tem dentes. Uma vida destruída em coisa de minutos. Nas águas do Mediterrâneo. Em coisa de minutos, Schettino deixou de ser o capitão do Costa Concordia para passar a ser o Captain Coward. O desgraçado, depois de ser dos primeiros a deixar o barco, abandonando os passageiros à sua sorte, chegou rapidamente a terra e só se lembrou de telefonar para a mãe e dizer: tutto bene, Mamma! Bom filho à casa torna. O filho pródigo. O bom samaritano. Foi a sua Estrada de Damasco.

 

     A CELEBRIDADE HOLANDESA. Tirando um ou outro jogador de futebol, de que, aliás, pouca gente se recorda, a Holanda não produziu nenhuma celebridade, durante o século XX. A única grande excepção terá sido a actriz porno, Sylvia (Maria) Kristel, mais conhecida por Emmanuelle. Este último nome era, como se sabe, o da sua famosa personagem, de origem presumivelmente francesa, que ela interpretou em vários filmes. O nome e a personagem nada tinham de holandês. Bem feita!    

 

    O génio é isto, caramba. Diga trinta e três. Outra vez! Tussa. O seu mal é outro. Eufemismos. Doença prolongada. Neoplasia. Carcinoma. Perífrases. Metáforas. Jardim da Europa à beira-mar plantado. País do sol nascente. Comeu o fruto proibido. Comeu o pão que o diabo amassou. Passou as passas do Algarve. Por trancos e barrancos. Por Franças e Araganças. Por portas e travessas. Por estas e por outras. Por esta é que eu não esperava. Todos querem ser fotogénicos. Todos querem ser telegénicos. Todos querem ficar bem na fotografia. Literalmente. Metaforicamente. Na vida. Na política. Nos debates. Nos programas. Nas charlas. E tudo o mais.

 

    STANLEY KUBRICK E AS CADEIRAS DE RODAS. Em Dr. Strangelove, o personagem epónimo, (Peter Sellers), loiro e de sotaque germânico, desloca-se numa cadeira de rodas, e dela se ergue, inesperadamente, gritando: "Mein Fuhrer!"; em Laranja Mecânica, Alex, (Malcolm MacDowell), e o seu bando, atiram o escritor progressista, Frank Alexander (Patrick Magee) para uma cadeira de rodas, e é sentado nela que este último observa e goza, friamente, a sua própria vingança; em Barry Lindon, é amarrado a uma cadeira de rodas que o cornudo Sir Charles Lindon, (Frank Midlemass), se passeia empurrado pela criadagem; finalmente, é plantado numa cadeira de rodas, e em imagens de TV clandestinas, que o ministro das Finanças alemão (cá está!) Wolfgang Schäuble, em conciliábulo com o seu homólogo português, promete um ajustamento da dívida do bom aluno. Vítor Gaspar escuta-o reconhecido, curvado e reverente.  

 

    O génio é isto, caramba. Já viu isto? 42 anos de idade. O que vai ser da minha vida? Sou velha para trabalhar e nova para me reformar. Divorciada e com um filho menor para criar. Já viu isto? As cheias correm para o mar. Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé. Se os ses fossem feijões, ninguém morria à fome. Todos por onze e onze por todos. Vais conhecer o lume da Russia. Tão certo como eu me chamar fulana de tal. Eles não sabem nem sonham. Aleksei Fiódorovitch Karamazov era o terceiro filho do proprietário rural do nosso distrito Fiódor Pavlovitch Karamazov, tão conhecido no seu tempo (e ainda hoje recordado) por causa da sua morte trágica e obscura, ocorrida exactamente há treze anos e sobre a qual falarei na devida altura. Todos querem ser fotogénicos. Mala de senhora. Mala de cartão. Muitos tiveram a sua mala de cartão. Um país de malas de cartão. Tha paper bag. Linda de Susa. Perdidos e achados. Perdidos e acabados. O crescimento económico. O grande problema das Economias ocidentais. O grande problema das Economias europeias. O grande problema de Portugal. Não vamos lá tão cedo. Muito menos em dois ou três anos. Ah, sim? E depois? So what? Farewell, my friend. A Rapariga do Rio Pó. Nos seus olhos é sempre meia-noite.

 

      (...) Mas já não terão agradado tanto à classe média as desordens, a instabilidade política e social, e mesmo alguns excessos do anticlericalismo republicano, que foram acompanhando paralelamente as citadas reformas. Por tais motivos, uma facção significativa da classe média não gostou dessa parte da Revolução e alinhou com Sidónio Pais, quando este quis fazer um intervalo na Democracia republicana. A outra facção da classe média não esteve pelos ajustes e concordou, tácita ou explicitamente, com o assassinato deste major e matemático, pondo fim à sua aventura populista, autoritária e pré-fascista. (...)    

 

     O Homem Que Sabia Demais. A segunda versão é de longe melhor do que a primeira. Provavelmente. Alfred Hitchcock: digamos que a primeira versão foi realizada por um amador de talento e a segunda por um profissional. Ela levou os netos a conhecer Nova Iorque. Em plena crise. Quando regressou, tinha a factura à sua espera. Ficou pior do que uma barata tonta. A velhice é uma coisa triste. E o rídiculo, também. A sede de protagonismo, também. A consciência moral da Nação. A consciência intelectual da Nação. A consciência cultural da Nação. O BIG BROTHER. A BIG SISTER. Os sábios da Nação. Ela quer estar em todo o lado. Anita está em todas. Ela estava a definhar no outro canal. De repente saltou para a ribalta. Estamos vivos!

 

      (...) Não há quadro mais enternecedor do que a roupa dos pobres a secar nos casebres; ou cenário mais tocante do que o bibe, a baba e o ranho das crianças descalças; nem, por fim, retrato mais impressivo do que o desfile dos porcos, cabras e burros pelas ruas secas, poeirentas e malcheirosas. (...)

 

    Dizem que a mãe era uma mulher muito religiosa. Uma santa. Deve estar no céu. Zelando pelo filho. Seis já foram despachados. Três, de morte ruim. Outros se seguirão. Já estão na calha. Já têm as covas escolhidas. E os epitáfios, também. Contra tudo e contra todos. Nada escapa. Nem escapará. Indivíduos. Povos. Países. Continentes. Mundo. Universo. Apocalypse Now.  

 

Tão jovem! Que jovem era!

(Agora que idade tem?)

Filho único, a mãe lhe dera

Um nome e o mantivera:

"O menino da sua mãe".  

 

 

 

 

 

 

       

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

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