Quarta-feira, 26 de Setembro de 2012

O PLANETA DOS MACACOS

     A função principal e quase única dos sifograntes é velar para que ninguém se entregue à ociosidade, e para que toda a gente exerça a sua profissão diligentemente, não querendo com isto dizer que se tenha de trabalhar sem descanso do nascer ao pôr-do-sol, como bestas de carga. Isso seria pior que a miserável e desgraçada condição de escravo, embora seja essa a vida dos trabalhadores e artífices, por toda a parte, fora da Utopia. (...)

     

     O tempo livre entre o trabalho, as refeições e o sono é ocupado livremente por cada indivíduo, como melhor o entender. Não com o fim de que se possam entregar à preguiça e ao esbanjamento, mas para que, libertos das suas ocupações, se ocupem e empreguem a sua actividade variadamente na arte ou na ciência que mais lhes agrade.

    É um costume muito apreciado haver diariamente cursos públicos, de madrugada, a que apenas são obrigados a assistir os indivíduos escolhidos e destinados ao estudo. No entanto, grande número de pessoas, mulheres e homens, frequentam estes cursos, escolhendo a matéria para que sentem mais inclinação. Porém, se alguém preferir empregar o seu tempo livre na sua profissão, como acontece com muitos cujo espírito livre se não deleita nas ciências especulativas, não o censuram por isso, nem o impedem, antes o louvam, pois assim se torna igualmente útil à comunidade. 

    Depois do jantar ocupam uma hora em divertimentos: no Verão, no jardim, no Inverno, nas grandes salas onde tomam as refeições em comum. Praticam a música ou distraem-se conversando. Não conhecem o jogo dos dados ou qualquer dos outros jogos de azar, tão perniciosos e loucos. Jogam, porém, dois jogos que se assemelham ao nosso jogo de xadrez. Um deles é a batalha dos números, em que um número vence o outro. O outro é o combate dos vícios e das virtudes, em jeito de batalha, sobre um tabuleiro. Este jogo mostra com clareza a discórdia e a anarquia que reina entre os vícios e o seu perfeito acordo e unidade quando se opõem às virtudes. Mostra ainda os vícios que se opõem a cada uma das virtudes, como as atacam, astuciosamente e por processos indirectos, e a dureza e violência com que as enfrentam em campo aberto. Evidencia este jogo como a virtude resiste ao vício e o domina, como frustra os seus intentos e finalmente como um dos dois partidos alcança a vitória. 

     Mas aqui, com perigo de vos enganardes, deveis reparar atentamente numa coisa. Pensareis talvez que são insuficientes para produzir o necessário as seis horas que ocupam no trabalho, e que são frequentes as carências de bens úteis. Mas assim não acontece. Este curto período de trabalho é mais do que suficiente para produzir a abundância, e mesmo o excedente de todas as coisas necessárias à subsistência e ao bem-estar. O que facilmente compreendereis se tiverdes em conta a enorme quantidade de ociosos que existem nos outros países. Em primeiro lugar, as mulheres, que são metade da população. E, quando as mulheres trabalham, os homens deixam, por seu turno, de trabalhar. Além disto, a numerosa multidão de padres e religiosos que nada produzem.

    Acrescentai todos os ricos, especialmente os proprietários, que vulgarmente se chamam nobres e fidalgos. Juntai-lhes ainda os criados, esse bando de desordeiros, os mendigos robustos e válidos, que disfarçam a preguiça sob a capa de enfermidades ou aleijões. Descobrireis, em suma, que o número dos que trabalham para prover aos bens necessários à vida do género humano é bem menor do que pensáveis. Considerai, agora, como dos poucos que trabalham menos ainda se ocupam das tarefas necessárias e úteis. Já que o dinheiro é o senhor absoluto, uma imensa quantidade ocupações frívolas e supérfluas se multiplicam, destinando-se apenas a manter o luxo e os prazeres desonestos.

    Se o mesmo número de trabalhadores que hoje executam a produção de tais bens fosse distribuído palas reduzidas profisões úteis, de modo a produzir com abundância o que o consumo exige, desceriam, sem dúvida alguma,  de tal modo os preços que os operários não poderiam viver do seu trabalho. Mas se todos os que se ocupam agora nessas actividades frívolas e improdutivas, acrescidos dos que nada fazem, além de consumirem e desperdiçarem o que daria para sustentar dois operários laboriosos, se todos estes, repito, se ocupassem em profissões necessárias, compreenderíeis então como seria breve o tempo útil para satisfazer as necessidades e produzir as reservas das coisas essenciais à vida, ao conforto e ao prazer, bem entendido, ao prazer natural e verdadeiro.

     Tudo isto é claro e manifesto na Utopia. Ali, em todas as cidades e no total do seu território, há quando muito quinhentos indivíduos, entre homens e mulheres, que, embora sem serem demasiado idosos ou fracos, foram dispensados do trabalho corporal. Entre eles, encontram-se os sifograntes, que, embora isentos pela lei do trabalho, não permitem a si próprio esse privilégio, na intenção de estimular os outros com esse exemplo.

    Essa isenção de trabalho abrange também aqueles a quem o povo, aconselhado pela recomendação dos sacerdotes e por eleição secreta dos sifograntes, libertou para sempre do trabalho manual para se dedicarem ao estudo.  Porém, se um deles não confirmar a expectativa e esperanças públicas, é relegado para a classe dos artífices. Se, pelo contrário, o que acontece com frequência, um operário emprega o seu tempo livre no estudo e dele aproveita, com diligência e seriedade, isentam-no do trabalho manual e elevam-no à classe dos letrados. 

 

   O que acabámos  de ler é um excerto da Utopia, (Livros de Bolso Europa-América, 1973, com tradução de Maria Isabel Gonçalves Tomás) da autoria de Thomas More, político e humanista inglês (1477/1535). Quem fala é Rafael Hitlodeu, um sábio português que, levado pelo desejo de ver e conhecer as mais longínquas regiões do mundo, juntou-se a Américo Vespúcio e acompanhou-o em três das quatro últimas viagens, cujo relato corre mundo. Thomas More inspirou-se na narrativa de Américo Vespúcio para descrever a Utopia.

    Citemos José Eduardo Reis, a propósito do mesmo livro: O título latino da obra em questão - De Optimu Reipublicae Statu deque Nova Insula Utopia Vere Aureas - que originariamente serve de suporte e ilustra o alcance temático do termo em análise, significa literalmente que ela trata da melhor forma de républica, deste modo indicando que o suporte diegético incide sobre a descrição de um projecto de sociedade regido por princípios ideais de convivência humana.  

 

    É a melhor forma da républica a que temos hoje, em Portugal e no mundo? Vivemos, nos dias que correm,  em sociedades regidas por princípios ideais de convivência humana? Temos ainda alguma coisa a aprender com a Utopia de Thomas More? Vejamos, para começar, o que se passa e se passou recentemente, no plano internacional.

 

   Um banco domina o mundo. É o banco. É o Goldman Sachs. É o império do dinheiro. É o banco que esteve na orígem directa da Crise que se instalou nas Economias ocidentais, desde 2008. É o banco americano, dito de negócios, e que é dirigido por um americano (por quem havia de ser?), o senhor Loyd Blankfein. O homem que faz o trabalho de Deus, nas suas próprias e acertadas palavras. Palavras que resumem e dizem tudo. Do homem e do banco que ele governa.

 

   Trabalharam no Goldman Sachs, em altos cargos directivos, Mario Draghi, actual Presidente do Banco Central Europeu; Mario Monti, actual Primeiro-Ministro italiano; Lucas Papademus, antigo e recente Primeiro-Ministro grego; António Borges, actual conselheiro técnico, para as privatizações, do Governo Português. A propósito de António Borges, atente-se nesta passagem do livro O BANCO COMO O GOLDMAN SACHS DIRIGE O MUNDO, (publicado pela Esfera dos Livros, 3ª. Edição, Junho de 2012, traduzido por Maria do Rosário Quintela) da autoria de Marc Roche: Oficiosamente, António Borges, que, no seio do Banco de Portugal, na década de 1990, foi um dos arquitectos da criação da moeda única, acabou por ser dispensado do FMI. De factyo, esta partida poderia estar ligada ao facto de ele ter sido também durante oito anos (2000-2008) um dos dirigentes do Goldman Sachs Internacional, filial europeia do banco americano. Com efeito, o papel do banco americano na maquilhagem das contas gregas em 2002-2003 poderia não ser estranho àquilo que aparece como uma destituição.

  

   Vamos abreviar os considerandos, seguindo sempre de perto a citada obra de Marc Roche. Como atrás ficou dito, o Goldman Sachs colaborou activamente na falsificou das contas da Grécia, com vista à adesão desta ao Euro. Tudo se passou a partir da criação da moeda única, em 1999, e a grécia estava então longe dos exigentes e rigorosos critérios definidos pelo Tratado de Maastricht: dívida pública inferior a 60% do PIB e défice orçamental abaixo dos 3%. O Goldman Sachs tratou de fazer a cosmética desses números. Com um toque de mágica, uma banqueira de 38 anos de orígem grega, baseada na capital britânica, Addy Loudiadis, altera a distribuição das cartas. A transacção que ela conduz em Junho de 2001 com o governo grego vai render cerca de 300 milhões de dólares ao seu patrão - o Goldman Sachs, entenda-se. Com os outros resultados que se sabem.

  

   O Goldman Sachs esteve na razão directa da Crise económica e finaceira que abla o mundo ocidental desde 2008. Tudo começou pela criação, em 2005, de um produto financeiro assente numa carteira de empréstimos compreendendo essencialmente subprimes ou créditos hipotecários de risco. Os CDO (colleteralized debt obligations) são enfarpelados com um nome de código em latim: Abacus. Em português, ábaco, o aparelho de bolinhas para contar...

  

   Estes produtos altamente tóxicos foram espalhados pelos sistemas financeiros do mundo ocidental, com proventos milionários para o Goldman Sachs e resultados desastrosos para os mesmos sistemas financeiros.

   

    Em 28 de Dezembro de 2006, a Ownit Mortgage, uma pequena caixa hipotecária americana abre falência. A informação merece apenas uma notícia breve da Wall Street Journal, mas é levada muito a sério pelo Goldman Sachs, que se apressa a desfazer-se dos seus subprimes tóxicos. Enquanto outros estabelecimentos - Brear Stearns, Lehman, Merril Lynch, Citigroup e AIG, nomeadamente - continuam a acumular carteiras tóxicas que vão atingir várias centenas de milhares de milhões de dólares, formando assim a base do que vai rebentar: a crise financeira mundial de Setembro de 2008.

    Consequências: dos cinco bancos de negócios que operavam em Wall Street, só restam dois: O Goldman Sachs e o Morgan Stanley. O Merryl Lynch e o Bear Stearns foram resgatados, e o Lehman está em liquidação. Milhares de milhões de dólares depois, embolsados pelo Goldman Sachs, numa crise que ela própria provocou, com a complacência e cumplicidade dos reguladores americanos e europeus, o mesmo Goldman Sachs reina incólume ao lado da JP Morgan e da Barclays.

     Três máquinas  colossais, que saíram reforçadas da crise, dominam a finança mundial. Apesar do marasmo económico, apresentam hoje uma saúde insolente. Presentes em todos os campos, estes grupos dominam. Os senhores que os dirigem, Loyd Blankfein, Jamie Dimon e Bob Diamond, apaixonam agora a imprensa.  

 

     Passando para o nosso quintal, e sem sair da matéria finaceira e bancária, vejamos o que se aconteceu, nos últimos quatro anos, transcrevendo passagens significativas do livro O ESCÂNDALO DO BPN, um trabalho colectivo de vários jornalistas do Diario de Notícias, e editado pela Gradiva e pelo mesmo periódico, 1ª. Edição, Junho de 2012.

 

    Acerca de José Oliveira Costa, o homem que esteve na origem do estoiro do Banco Português de Negócios (BPN), o referido livro diz o seguinte: Eu, na vida, sempre preferi ser invejado a lastimado. Dez anos depois, a frase cola-se, com ironia, ao perfil de José Oliveira Costa - o autor da frase. O rapaz que ia para o trabalho de bicicleta mas depressa se tornou o ministro do carro desportivo "berrante" e o banqueiro "de sucesso" mais badalado do país era invejadao, sim. Mas dele pouco resta. Hoje, caído em desgraça, o homem "centralizador e autoritário" é lastimado pelos poucos que aceitam falar sobre ele. E deixa uma grande história para contar.

    Podia ser, como outras, uma história de queda e ascensão. É, antes, o contrário: a história do self made man que ergeu um império bancário e, no fim de contas, o viu cair com a fragilidade de um castelo de cartas. O fulgurante trajecto profissional de Oliveira Costa começa aos 15 anos, quando o rapaz - nascido em 1935, em mataduços, Esgueira - se torna empregado de escritório da Bóia & Irmão. Todos os dias, faz de bicicleta os seis  quilómetros que separam a sua casa e o seu emprego, na sede de concelho, Aveiro. É também a pedalar que segue todas as noites para a Escola Industrial e Comercial de Aveiro, onde continua os estudos. 

  

   Abreviando de novo os considerandos e tendo sempre como guia o mesmo livro O ESCÂNDALO BPN:

   (...) Como foi possível  um banco de tão pequena dimensão ter chegado ao escândalo de tantos milhões?  E como foi possível passar de um buraco financeiro de 1,8 mil milhões (o montante atribuído à gestão de Oliveira Costa e contabilizado pela auditoria da Delloite em 2008) à possível cratera de 8,3 mil milhões?

   Não fosse um caso tão sério, que além de muito dinheiro dos contribuintes até mete polícias, a história começaria com um "era uma vez um homem ambicioso que em pouco tempo se tornou o banqueiro mais badalado do País, mas que acabou por ser detido". Agora responde a uma acusação de crimes de abuso de confiança, burla qualificada, falsificação de documentos, branqueamento de capitais, fraude fiscal qualificada, em actos cometidos durante os 10 anos (1998-2008) na presidência do banco e da Sociedade Lusa de Negócios (SLN) e investigados no âmbito da Operação Furacão. Com ele estão em julgamento mais 15 arguidos. Acrescente-se que, entre os 15 arguidos, figuram ex-políticos ligados ao PSD, e que, de uma forma ou de outra, colaboraram com o actual Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. Ei-los: Domingos Duarte Lima - foi líder parlamentar e presidente da junta distrital de Lisboa do PSD; Manuel Dias Loureiro - foi ministro da Administração Interna e conselheiro de Estado, funções exercidas sob a alçada de Cavaco Silva; Arlindo de Carvalho - foi ministro da Saúde nos dois governos de Cavaco Silva.

   O BPN, o banco pensado por José Oliveira Costa e dirigido sobretudo à elite financeira e política (ligação muito próxima ao PSD), começou a ser investigado quando foram detectadas operações a débito sem contrapartida real de créditos em contas do Banco Insular (sediado em Cabo Verde), contas essas que foram abertas pelo BPN e pela SLN em nomes de paraísos fiscais. O BPN era pertença da Sociedade Lusa de Negócios (SLN), que compreendia um universo de empresas que respeitavam todos os requisitos legais e mais 96 sociedades em offshore.

   o Banco Insular, que fazia parte da SLN, tinha a sede em Cabo Verde e escapava ao controlo do Banco de Portugal, sendo responsável por quase 10% do buraco financeiro do BPN. Foi comprado à Fincor, mas numa manobra que permitiu ludibriar o Banco de Portugal. Para tal, o núcleo duro de Oliveira Costa contou com a colaboração de cinco accionistas de confiança, a quem o BPN emprestou dinheiro para criar a Insular Holding, a empresa que acabou por adquirir formalmente o Banco Insular, mas que, na verdade, foi financiada pela própria SLN, através da offshore Morazion, refere a acusação.

   (...) O principal receio que levou à intervenção do Estado era a possibilidade de criar um efeito de peças de dominó - pânico da corrida aos bancos - que poria em risco o sistema financeiro nacional - decisão que acabou por ser aprovada pelo Governo, em Novembro de 2008. A partir daí, o BPN nacionalizado acumulou prejuízos, obrigando o Estado, através da CGD, a injectar largos milhões de euros para o poder manter e depois vender. E nos três anos que demorou até o conseguir vender, já o "monstro" tinha escavado um buraco que pode chegar aos 8,3 mil milhões de euros. Acrescente-se que o BPN acabou por ser vendido a capitais angolanos por 40 milhões de euros! 

    A concluir este capítulo, vamos dar a palavra a Miguel Cadilhe: (...) Internamente, no BPN; houve uma confluência de práticas e pessoas ao mais alto nível, e formou-se uma bola de neve negra que rolou e engrossou monte abaixo, ano após ano. Externamente, foi o Banco de Portugal que falhou, ano após ano. Suponho que estão sem consequências as responsabilidades desse falhanço. A quem interessava manter o silêncio sobre as eventuais irregularidades cometidas? A quem delas beneficiou. A quem as vigiou e supervisionou.

                               

   Continuando no âmbito do nosso admirável quintal, atentemos ao que se passa no no domíio das fundações. As tão faladas fundações. Para o efeito, vamos socorrer-nos de mais um livro: MÁ DESPESA PÚBLICA, de Bárbara Rosa e Rui Oliveira Marques, e dado à estampa pela ALÊTHEIA EDITORES, Julho de 2012. No capítulo das fundações, dizem os autores, entre outras coisas, o seguinte: No relatório divulgado em 2011, o Tribunal de Contas assumiu incapacidade para intensificar o universo das fundações portuguesas, classificando-o de "situação confusa (...), fruto quer da legislação incompleta, quer da inércia de algumas entidades com responsabilidade no sector".  Só para se ter uma ideia, em Maio de 2010, eistiam 817 fundações registadas no Ficheiro Central das Pessoas Colectivas (FCPC) e 40 mil registos na Administração Tributária. O Tribunal salientou a falta de informação disponível - uma dor que a Má Despesa partilha.     

     Em Maio de 2012 o ambiente nublado mantém-se. "O levantamento e a avaliação da situação das fundações anunciadas em janeiro pelo secretário de Estado da Administração Pública, Helder Rosalino, foram determinadas pelo programa de apoio económico e financeiro a Portugal e reconhecido pelo Governo no seu programa. O executivo falava na urgência de reduzir o Estado paralelo normalmente identificado com fundações entre outras instituições e no objectivo de alcançar ganhos de eficiência e eficácia na prestação de melhores serviços aos cidadãos", escrevia o jornal i em finais de Abril de 2012. À data continuava-se sem perceber o que representavam estas instituições. (...) No Verão de 2008, Vítor Ramalho foi nomeado presidente da Fundação INATEL. Uns meses depois precisou de umas estantes. Até aqui, nada de novo. Só que o fornecimento e colocação de estantes nos gabinetes do conselho de administração da fundação custarm 7522 euros. São possivelmente as estantes mais caras do país. O res-do-chão da sede da Fundação INATEL deve ter qualquer coisa de especial. A aquisição de 39 cadeiras para o rés-do-chão custou 15 793 euros, isto é, 400 mil euros a unidade. Um valor muito acima da média do mercado e que demonstra os hábitos caros da instituição na compra do mobiliário, e não só.

     É isso mesmo. A entrevista do presidente da Fundação Inatel, Vítor Ramalho, à revista País Positivo custou a módica quantia de 5 000 euros. Além de ser uma evidente má despesa pública, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social e a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista deveriam agir em conformidade. A capa da revista não deixa de ser irónica: "INATEL investe 10 milhões e contribui para a recuperação económica nacional".

    Este caso foi denunciado pelo blogue má despesa a 26 de Agosto de 2011, e logo no dia seguinte foi notícia nos jornais i e Diário de Notícias. "Voltava a fazer o mesmo", defendeu Vítor Ramalho, sem justificar, por exemplo, o conflito de interesses que existe entre promover-se numa entrevista e ser presidente da distrital de um partido. A notícia esteve entre as mais lidas dos dois jornais nos respectivos sites durante os dias que se seguiram. Vários leitores mostraram o seu descontentamento e lançaram graves acusações a Vítor Ramalho, por exemplo, sobre a política de nomeações.

 

   Detendo-nos ainda um pouco no nosso quintal, e para terminar este voo sobre vários ninhos de cucos, vejamos o que aconteceu, nos últimos 20 anos, nos domínios do nosso Estado Social, e do consumo dos Portugueses.

 

    Portugal construiu nos tempos modernos o Estado Social mais avançado do mundo. (Sem exagero: do mundo! Nem o Nórdico. Nem o Anglo. Nem o Germânico. ) No referente ao Estado Social, os governantes portugueses, mais recentes, ousaram o que Vasco Gonçalves nem sonhou. Praticaram o que Álvaro Cunhal nem teorizou. Parturejaram o que Isabel do Carmo nem concebeu. Legaram o que Otelo nem previu. As estatísticas são eloquentes, e os números são-nos facultados pela obra Economia Portuguesa AS ÚLTIMAS DÉCADAS, da autoria de Luciano Amaral, e editado pela Fundação Manuel dos Santos, Junho de 2010: O PIB per capita cresceu em média 2,5% ao ano entre 1974 e 2008. Mas a despesa pública cresceu aproximadamente ao dobro desse ritmo. Em 1974, ela representava 23% do PIB; em 2008, representava cerca de 46%, um número já superior à média dos países europeus desenvolvidos. Dado que nesses países, no mesmo período, se verificou um abrandamento do seu crescimento e até, em muitos casos, um decrescimento, a convergência foi quase completa.

      Voltando às ousadias do nosso Estado Social, convirá ter presente que, no seu âmbito, nada nem ninguém ficou por contemplar ou proteger. O nascituro e o nascido. O vivo e o morto. O novo e o velho. O casado e o solteiro. O casado e o separado. O casado e o viúvo. O saudável e o malsão. O empregado e o desempregado. O letrado e o analfabeto. O activo e o reformado. O rico e o pobre. O nativo e o estrangeiro. O livre e o preso. (Sem exagero: passou a haver rendimento de inserção para os presidiários.) Aquém e Além-mar. (Sem exagero, e dando apenas um exemplo: com ajudas portuguesas, o actual Governo de Cabo Verde pôde construir, nos últimos 10 anos, 600 Km de estradas, 3 aeroportos internacionais, 2 portos marítimos de águas profundas, escolas, liceus, e sem contar um infindável número de infra-estruturas mais diversas).      

       O nosso Estado Social, além de nos ter custado o couro e o cabelo, permitiu que os Portugueses deixassem de se preocupar com as despesas que, em princípio, a saúde, a educação e a Segurança Social implicam ou deveriam implicar. Com tais facilidades, os Portugueses ganharam uma desafogada folga orçamental. E, uma vez que tudo passou a ser de borla, ou quase, nas referidas áreas, e o crédito foi irresponsavelmente facilitado, os Portugueses passaram a ter dinheiro consideravelmente disponível para o consumo sem limites. Para mais e melhores viagens. Para mais e melhores férias em destinos tropicais. Para mais e melhores casas. Para mais e melhores recheios das suas casas. Para mais e melhores electrodomésticos. Para mais e melhores automóveis. Para mais e melhores restaurantes. Em suma: os Portugueses passaram a consumir exponencialmente mais. Consumiram com o dinheiro que era nosso e com o dinheiro que nos foi sendo emprestado. Com o dinheiro desvairadamente pedido e com o dinheiro desvairadamente emprestado. Com o dinheiro que não era nosso. Com o dinheiro que veio de fora. Com o dinheiro que agora temos de pagar. Com o dinheiro que agora estamos a pagar.

   Não haja ilusões: faça-se o que se fizer, temos de pagar a quem devemos. Temos de honrar os nossos compromisos. Com este ou com outro governo. De uma forma ou de outra. A bem ou a mal. Entre outras consequêncais, sob a desgraçada pena de nos fecharem definitivamente a torneira. Sob o tremendo risco de cairmos na bancarrota. E não nos enganemos: Portugal não pode dispensar a torneira estrangeira. Até mais ver.

 

      Já na ponta final deste texto, vamos regressar à utopia. Desta feita, à utopia em  versos. À utopia de Manuel Bandeira, poeta brasileiro, 1866-1968. Vamos terminar com o seu poema

 

                                                                       VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA  

                                                                      

                                                                        Vou-me embora pra Pasárgada

                                                                        Lá sou amigo do rei

                                                                        Lá tenho a mulher que eu quero

                                                                        Na cama que escolherei

                                                                        Vou-me embora pra Pasárgada

 

                                                                        Vou-me embora pra Pasárgada

                                                                        Aqui eu não sou feliz

                                                                        Lá a existência é uma aventura

                                                                        De tal modo inconsequente

                                                                        Que Joana a louca de Espanha

                                                                        Raínha e falsa demente

                                                                        Vem a ser contraparente

                                                                        Da nora que nunca tive

 

                                                                        E como farei ginástica

                                                                        Andarei de bicicleta

                                                                        Montarei em burro brabo

                                                                        Subirei no pau-de-sebo

                                                                        Tomarei banhos de mar!

                                                                        E quando estiver cansado

                                                                        Deito na beira do rio

                                                                        Mando chamar a mãe-d'água

                                                                        Pra me contar as histórias

                                                                        Que no tempo de eu menino

                                                                        Rosa vinha me contar

                                                                        Vou-me embora pra Pasárgada

 

                                                                        Em Pasárgada tem tudo

                                                                        É outra civilização

                                                                        Tem um processo seguro

                                                                        De impedir a concepção

                                                                        Tem telefone automático

                                                                        Tem alcalóide à vontade

                                                                        Tem prostitutas bonitas

                                                                        Pra gente namorar

 

                                                                        E quando eu estiver mais triste

                                                                        Mais triste de não ter jeito

                                                                        Quando de noite me der

                                                                        Vontade de me matar

                                                                        - Lá sou amigo do rei -

                                                                        Terei a mulher que eu quero

                                                                        Na cama que escolherei

                                                                        Vou-me embora pra Pasárgada.

                      

 

  

                                                                       

 

 

publicado por flagrantedeleite às 13:27
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