Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2017

19ª. EPÍSTOLA DE UM ALEMÃO AOS MERIDIONAIS DA EUROPA

    Citando e homenageando o grande Fiódor Dostoiévski (1821-1861), a propósito dos 150 anos da publicação de um dos seus mais famosos romances, O Jogador (1867).

 

     AS PROFECIAS DE DOSTOIÉVSKI

 

- Pavlíchev tinha uma mente clara e era cristão, um verdadeiro cristão - disse de repente o príncipe. - Como é que podia entregar-se a uma crença...não cristã? Porque o catolicismo é a mesma coisa que uma crença não cristã! - acrescentou repentinamente, com brilho nos olhos, passando os olhos por todos, mas sem olhar para ninguém.

  - É um exagero - murmurou o velhinho e olhou, surpreendido, para Ivan Fiódorovitch.

  - Como é que o catolicismo é uma crença não cristã? - virou-se na cadeira Ivan Petrovitch. - Então que crença é?

  - É, em primeiro lugar, uma crença não cristã! - voltou a falar, numa extrema emoção e com demasiada aspereza, o príncipe.

  - Isto, em primeiro lugar. Em segundo lugar, o catolicismo romano é pior do que ateísmo, é essa a minha opinião! Sim! A minha opinião! O ateísmo apenas propaga o zero, mas o catolicismo vai mais longe: apregoa um Cristo deturpado, caluniado e profanado por ele próprio, um Cristo ao contrário! Prega o anticristo, juro-lhes, juro-lhes! É a minha convicção pessoal, desde há muito, e tem-me atormentado...o catolicismo romano defende que sem um poder estatal universal a Igreja não sobreviverá na terra e grita: non possumus! A meu ver, o catolicismo romano nem sequer é uma crença, mas uma mera continuação do Império Romano do Ocidente, e tudo no catolicismo está submetido à ideia do Império, a começar pela fé. O papa apoderou-se da terra, do trono terrestre, e pegou na espada; então, a partir do momento em que o fez, tudo vai nesse sentido, só que o catolicismo acrescentou à espada a mentira, a manha, o embuste, o fanatismo, a superstição, a malfeitoria, tem brincado com os sentimentos mais profundos do povo, mais autênticos, mais ingénuos, mais ardorosos, tem trocado tudo por dinheiro, tudo, pelo ignóbil poder terreno. Não será isso uma doutrina do anticristo? O ateísmo provém dele, do próprio catolicismo romano! O ateísmo começou, antes de mais, neles próprios: seria possível ter fé naquilo deles? O ateísmo reforçou-se com a repugnância causada por eles, é fruto da falsidade e da impotência espiritual deles! Ateísmo! Entre nós só não têm fé aqueles estratos exclusivos que perderam a sua raiz, como magnificamente se exprimiu em tempos Evguéni Pávlovitch; mas na Europa já começaram a perder a fé enormes massas do próprio povo: primeiro, por obscurantismo e falsidade, mas agora já por fanatismo, por ódio à igreja e ao cristianismo ! (...)

   - Está a exa-ge-rar bas-tan-te - disse Ivan Petrovitch arrastando as palavras, aborrecido e, até, como se estivesse com vergonha de alguma coisa - na Igreja deles também há representantes dignos de todo o respeito e vir-tuo-sos... 

     - Não falo dos representantes individuais de uma Igreja. Falo do catolicismo romano na sua essência, falo de Roma. Como poderia a Igreja desaparecer por completo? Nunca o disse!

    - De acordo, mas tudo isso são coisas já sabidas e nem há necessidade...enfim, é antes uma prerrogativa da teologia...

   - Oh, não, não! Não só da teologia, pode crer que não! Tem mais a ver connosco, muito mais, do que o senhor supõe. Aí é que está o nosso erro essencial: é que nós somos incapazes de perceber que o assunto não é exclusivamente teológico!  Porque o socialismo também é fruto do catolicismo, da essência do catolicismo! O socialismo também é, juntamente com o seu irmão ateísmo, fruto do desespero, da oposição ao catolicismo no sentido moral, é um substituto do poder moral perdido pela religião, um substituto para saciar a sede espiritual da humanidade e a salvar, não com Cristo, mas com a violência! Também é libertação pela violência, também é unificação pela espada e pelo sangue! "Não te atrevas a ter fé em Deus, não te atrevas a ter propriedade, não te atrevas a ter individualidade; la fraternité ou la mort, dois milhôes de cabeças!"

    Conhecê-los-eis pelos seus actos, foi dito! E não pensem que tudo isso seja assim tão inocente para nós. Oh, temos de oferecer resistência, o  mais depressa possível! É preciso que resplandeça, em resposta ao Ocidente, o nosso Cristo, o Cristo que nós guardamos e que eles nem sequer conheceram! Em vez de cairmos servilmente nas armadilhas dos jesuitas, temos de lhes fazer frente, opor-lhes a nossa civilização russa, não permitir entre nós o sermão deles, um sermão de toda a elegância, como alguém acabou de dizer aqui...

   Quem assim fala é o príncipe Míchkin, o alter ego de Dostoiévski e protagonista do romance O Idiota (1869), pgs. 562/564, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Editorial Presença, 1ª. Edição, Julho de 2001. 

 

  

 

     (...) No fundo, estar ao serviço de Portugal e dos portugueses e não de qualquer grupo, ser Presidente da República e não presidente da direita ou da esquerda, ser reserva de último recurso em caso de crise grave. (...)

   Aníbal Cavaco Silva, in Quinta-feira e Outros Dias (Porto Editora)  

 

    Caríssimos irmãos do Sul

   

     PROFESSOR, PROFESSOR, veja lá no que se está a meter...e a nós também.  

 

    Senhor Presidente da República, pare um pouco para descansar, para pensar, para reflectir, para meditar. Não se envolva tanto. Não opine tanto. Não comente tanto. Não se exponha tanto. Não apareça tanto. Não intervenha tanto. E sobretudo não jogue tanto. Modere-se. Resguarde-se. Recate-se. Defenda-se. Acautele-se. Poupe-se. Não se esqueça que Vossa Excelência é arbitro, é moderador, é apaziguador. Não, não é jogador. Por isso não deve entrar no campo. Por isso não deve envergar nenhuma camisola. Por isso não deve torcer por nenhuma equipa. Por isso não deve tomar partido. Por isso não deve encostar-se nem ao governo nem à oposição. Ninguém espera isso de Vossa Excelência. Muito menos o governo e a oposição. Muito menos os portugueses. Muito menos os que votaram em Vossa Excelência. Por isso Vossa Excelência não deve terçar armas pelo governo, nem explicar as medidas que o governo toma, como fez na sua entrevista à SIC, no primeiro aniversário do mandato de Vossa Excelência. Sim, foi patética essa sua atitude. Sim, foi mesmo ridículo esse seu gesto. No dia seguinte, Vossa Excelência ainda tentou corrigir o tiro mas foi tarde de mais.

   O Presidente da República é um general e os generais, por razões óbvias, não entram directamente nos combates. Os generais têm o dever de apenas assumir o alto comando e a direcção das tropas. Mas Vossa Excelência não tem feito outra coisa que não seja contariar tal dever dos generais. Vossa Excelência não tem feito outra coisa que não seja estar ora de granada na mão, ora de baioneta calada, ora de dedo no gatilho. O que, aliás, Vossa Excelência parece fazer com um deleite quase voluptuoso.

    Vossa Excelência diz que é dever do Presidente da República criar condições para que o governo governe. Certíssimo. Correctíssimo. Justíssimo. Ninguém põe isso em causa. Mas, senhor Presidente, criar condições ao governo é uma coisa e tomar partido pelo governo é outra totalmente diferente. Criar condições ao governo é uma coisa e responder pelo governo é outra totalmente diferente. Criar condições ao governo é uma coisa e ser fantoche de António Costa é outra totalmente diferente.

    Senhor Presidente da República, Vossa Excelência está a pôr a ridículo o papel institucional que cabe ao mais alto magistrado da nação. Vossa Excelência está a provocar o seu próprio desgaste. No entanto, e como sabe mais do que ninguém, Vossa Excelência tem de se preservar e de preservar a solenidade e o distanciamento institucionais necessários aos momentos em que Vossa Excelência terá de arbitrar, de moderar e de apaziguar. Lá está: aos momentos em que Vossa Excelência terá de ser reserva de último recurso em caso de crise grave. E Vossa Excelência nunca será tal coisa se continuar a vir a terreiro em defesa de um governo como o de Antócio Costa. E porquê? Para além de tudo o mais, porque o governo de António Costa é um governo de comédias e de enganos. Um governo de meras aparências e de ziguezagues. Um governo de mentiras e de embustes. Em suma: um governo que pode comprometer irremediavelmente quem o defende e quem a ele se cola. 

    Quer exemplos? O ministro Mário Centeno, só por si, e o dossiê Caixa Geral de Depósitos (CGD) são exemplos magníficos. Tal como disse a líder do CDS, Drª. Assunção Cristas, é mais do que evidente que o ministro Mário Centeno não diz a verdade quando afirma que não prometeu a António Domingues a desobrigação deste e dos outros administradores da CGD de apresentarem ao Tribunal Constitucional a declaração de rendimentos e de património, como condição sine qua non para que aceitassem liderar esse banco público.

    Não diz a verdade, primeiro, porque tais condições constam, com toda a  clareza, dos emails que António Domingues dirigiu ao ministro Mário Centeno.

   Não diz a verdade, segundo, porque, de acordo com as suas próprias palavras, António Domingues demitiu-se do lugar de presidente da CGD exactamente por ter sido obrigado pelo Tribunal Constitucional a apresentar a mesma declaração de rendimentos e de património.

    Não diz a verdade, terceiro, porque as explicações que Mário Centeno produziu na sua conferência de imprensa trapalhona e titubeante só vieram reforçar as suspeitas que já havia a tal respeito. Sim, na sua conferência de imprensa, Mário Centeno, em vez de clarificar, adensou as dúvidas que já havia acerca deste assunto. Com a peregrina expressão erro de percepção mútuo, Mário Centeno pensou que convenceria os portugueses e o Presidente da República da bondade da sua posição e dos seus argumentos. Aconteceu precisamente o contrário. O que, aliás, ficou de certo modo demonstrado no comunicado do Presidente da República, tornado público poucas horas depois da citada conferência de imprensa, e no qual tal expressão é reproduzida de forma no mínimo irónica.

     E não diz a verdade, quarto, porque o acordo de Mário Centeno às mesmas condições consta preto no branco nas mensagens de telemóvel (SMS) que o ministro das Finanças enviou a António Domingues, mensagens essas que circulam por aí em quase todos os jornais e televisões (e, ao que parece, não na Assembleia da República) e das quais o Presidente da República tomou conhecimento directo.

    Senhor Presidente da República, falando agora só de Mário Centeno, é claríssimo que esse ministro é uma bomba-relógio em potência. Sim, Mário Centeno, além de mau ministro, é um homem imprevisível. Nunca se sabe o que dele pode vir a qualquer hora. Tem sido assim desde que este governo tomou posse. Mário Centeno falhou em todas as suas previsões económicas. Falhou nas previsões constantes do seu tristemente célebre estudo económico que lhe serviu de passaporte para fazer parte deste governo e falhou nas previsões dos dois orçamentos do Estado da sua responsabilidade. Falhou junto do BCE nos primeiros administradores da Caixa Geral de Depósitos por si propostos àquela autoridade europeia (e que foram inapelavelmente chumbados). Mas há mais. Os bons resultados do défice e do crescimento não são nenhum milagre económico. Têm, sim, a ver menos com a actuação directa do governo e do seu ministro das Finanças, e mais com factores meramente conjunturais, como são o boom do turismo, nomeadamente em Lisboa e no Porto, a implementação do perdão fiscal e a quase total ausência do investimento público. (Ou seja, com a implementação, embora disfarçada, do famigerado plano B). E apesar desse défice e crescimento tão celebrados, a verdade é que a dívida pública não parou de crescer em 2016, tendo atingido, só nesse mesmo ano, a cifra estratosférica de 9.500 milhões de euros. Pedir dinheiro emprestado é a sina dos países em que ninguém aposta, em termos de investimento privado, e onde as exportações praticamente não existem. Tudo por falta de confiança num governo socialista e, ainda por cima, suportado pela extrema-esquerda parlamentar.

    Senhor Presidente da República, vamos terminar esta epístola como a começámos, isto é, pelo seu título: PROFESSOR, PROFESSOR, veja lá no que se está a meter...e a nós também.                                              

 

 

publicado por flagrantedeleite às 11:16
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