Quinta-feira, 3 de Maio de 2012

DE VOLTA À CLASSE MÉDIA - 2ª. e última parte: A CLASSE MÉDIA NO SEU LABIRINTO

   A Revolução dos Cravos, que em boa hora abriu caminho à liberdade e à democracia, trouxe no seu programa três bandeiras então muito caras à classe média, os chamados três D's: Descolonizar, Democratizar e Desenvolver. A classe média, entretanto no poder, fez como pôde e soube, as três coisas. Para começar, e ultrapassando o primeiro D, o de Descolonizar, deu rapidamente a independência a quase todas as possessões ultramarinas portuguesas. A independência de Timor Leste, que, contra a vontade da classe média, ficou para mais tarde, foi uma das causas em que esta se empenhou de alma e coração, e foi, também, uma das suas maiores vitórias políticas.

   Nos primeiros 2 anos, que se seguiram à Revolução do 25 de Abril, a vertente militar e esquerdista da classe média imperou na cena política portuguesa. Contudo a ala civil, ou civilista, mais democrática e mais pacífica, reclamou para si todo o poder, o que conseguiu, mandando depois os militares para o seu habitat natural: os quartéis. Esta mesma tendência da classe média, significativamente maioritária, e tendo sempre presentes os mencionados três D's do Programa do Movimento dos Capitães, deu especial atenção ao segundo D, ou seja, o de Democratizar. O voto, secreto e universal, expresso nas urnas, passou a ser a arma preferida da classe média. E por isso ela criou e divulgou o slogan: O VOTO É A ARMA DO POVO. O ciclo imparável do sufrágio popular foi iniciado com a eleição da Assembleia Constituinte, que debateu e aprovou democraticamente a nova Lei Fundamental do país. A classe média ficou deste modo constitucionalmente vingada. Isto é, ela fez o ajuste de contas, longamente esperado, com a Constituição de 1933, imposta por Salazar, e nas condições já referidas.

   Consolidada a democracia, e sem esquecer que lha faltava ainda cumprir o terceiro e o último D, o de Desenvolver, a classe média virou-se finalmente para o sonho, que há muito acalentava: a ex-CEE, ou traduzindo, Comunidade Económica Europeia, hoje, União Europeia. Fazer parte da Europa era uma aspiração profunda e antiga da classe média portuguesa. Mais: a Europa integra o ideário político, social, económico e cultural do Partido Socialista e do Partido Social Democrata, formações partidárias em cuja essência reside a classe média portuguesa, e que esta vem elegendo, cíclica e alternadamente, para a governação do país. É pois, neste quadro, que a classe média delegou todas as suas ambições europeístas num dos seus mais esforçados representantes, o Dr. Mário Soares, o qual, enquanto Primeiro-Ministro e líder do Partido Socialista, correu todas as importantes capitais da Europa, em busca da nossa entrada nesse clube, que, à época, e com excepção da Grécia, era um exclusivo de países ricos.

   A admissão de Portugal, na Comunidade Europeia, foi assim outra das coroas de glória da classe média portuguesa, e o gigantesco afluxo dos fundos comunitários ao país, daí resultante, ao longo dos anos imediatos, permitiu-lhe concretizar os seguintes objectivos fundamentais: em primeiro lugar, fez uma significativa promoção económica, social e profissional de si mesma; em segundo lugar, ergueu o Estado Social, inspirado no Modelo Social Europeu, e que ela própria inscrevera na Constituição da República; por fim, e sem falarmos das milhentas rotundas, piscinas e Palácios da Justiça, que brotaram como cogumelos, a classe média abraçou um número considerável de empreendimentos, onde deixou a sua marca inconfundível, a saber: a dotação ao país de uma das redes de auto-estradas mais modernas e completas do mundo; a construção, por atacado, de 10 estádios de futebol, visando o Euro 2004; a organização da Expo 98, que implicou, por um lado, a edificação de um complexo urbano, de proporções ciclópicas e que alterou radicalmente toda a fisionomia da zona oriental de Lisboa, e, por outro, a construção de uma segunda travessia sobre o Tejo, a ponte Vasco da Gama; o Centro Cultural de Belém, um símbolo Cavaquista cujo custo final excedeu as previsões mais pessimistas; o Metropolitano do Porto, além de tudo o mais, um sorvedouro crónico e insaciável de dinheiros públicos; e, enfim, o alargamento do Metropolitano de Lisboa para quatro ou cinco vezes mais.

   A crise, que nesse meio-tempo se abateu sobre as Economias Ocidentais, e em particular sobre a nossa, obrigou a classe média a pôr de lado três ambiciosos projectos, que já estavam na calha: o novo Aeroporto Internacional de Lisboa; o TGV, ou o Comboio de Alta Velocidade; e a terceira via sobre o Tejo. A mesma crise, que na Europa se manifestou, de forma drástica, pelas chamadas crises das dívidas soberanas, provocou já o resgate, económico e financeiro, de Portugal, com a imposição de medidas de austeridade, impiedosas e draconianas. Tais medidas, que estão a empobrecer seriamente a classe média, e ameaçar de forma irreversível as suas grandes conquistas, económicas e sociais, alcançadas nos últimos 20 anos, poderão condicionar e determinar, a curto e a médio prazo, o futuro político do próprio país. Os próximos meses, e não os próximos anos, serão decisivos. A todos os títulos!

  

   Ressalva: na primeira parte deste blogue, 4º. parágrafo, onde se escreveu, por lapso, "(...) pela vida académica", é favor ler "(...) pela via académica"             

  

  

publicado por flagrantedeleite às 14:07
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