Quinta-feira, 19 de Abril de 2012

DE VOLTA À CLASSE MÉDIA ( primeira parte )

   Parece ser de uma evidência quase cristalina que a classe média dominou a vida política portuguesa, nos últimos cem anos. Ela esteve na base, e no topo, da Revolução Republicana, de 5 de Outubro de 1910, ponto por onde começou de resto a sua influência directa nos destinos políticos do país. Afonso Costa, João Chagas, António José de Almeida, Machado Santos, Teófilo Braga e José Relvas, entre muitos outros, são os homens que conceberam, conduziram e concretizaram a dita Revolução, e eram todos da classe média, média alta. 

   Antes de prosseguirmos, convirá salientar a natureza oscilatória da classe média, ou, política e ideológicamente falando, a natureza errática da classe média. Ela pende, e por vezes perde-se, entre extremos contraditórios, e ao sabor das suas conveniências económicas, sociais e culturais. Tudo o que a seguir se dirá vai ter como pano de fundo este traço genético que, para o bem e para o mal, define indelevelmente a classe média.

   Os primeiros anos subsequentes ao 5 de Outubro estão, em grande medida, marcados pelas reformas próprias de um Revolução Republicana. Tratava-se de alterações inevitáveis. Pelas profundas implicações que produziu, nos mais variados sectores da sociedade portuguesa, a separação da Igreja do Estado foi a obra de longe mais relevante levada a cabo pelos Republicanos. E isso terá agradado à classe média. Mas já não terão agradado tanto à classe média as desordens, a instabilidade política e social, e mesmo alguns excessos do anti-clericalismo republicano, que foram acompanhando paralelamente as citadas reformas. Por tais motivos, uma facção significativa da classe média não gostou dessa parte da Revolução e alinhou com Sidónio Pais, quando este quis fazer um intervalo na Democracia republicana. A outra facção da classe média não esteve pelos ajustes e concordou, tácita ou explicitamente, com o assassinato deste major e matemático, pondo fim à sua aventura populista, autoritária e pré-fascista.

   Há um claro fio condutor a ligar o Sidonismo ao golpe militar de 28 de Maio de 1926. Nos pretextos, nos propósitos e nos protagonistas. À frente, ou por detrás, desta sublevação, que abriu as portas ao Estado Novo, de Oliveira Salazar, estava a classe média, que viu aliás com bons olhos a posterior, gradual e firme ascenção política do ditador de Santa Comba Dão. Este ex-seminarista, de origens humildes, subiu na vida e na política, pela vida académica. Um homem da classe média, por conseguinte. Também eram da classe média os dois Generais e o Almirante, que o mesmo ditador colocou em Belém, como Presidentes da República: Óscar Carmona, Craveiro Lopes e Américo Tomás. O regime durou 48 anos, em grande parte, suportado ou tolerado, pela classe média. Todavia, a Constituição de 1933, plebiscitada por Salazar, e em que abstenção contou como voto favorável, deixou em definitivo uma pedra no sapato da classe média.

   Entrementes, e fustigada pelas Guerras Coloniais, que estavam a durar mais tempo do que o desejado; já não satisfeita com a existência, e as prisões arbitrárias, da polícia política fascista, a PIDE/DGS; cada vez mais descontente com o prolongamento da censura aos jornais, aos livros e aos filmes; ou com os casamentos católicos, sem divórcio, ou ainda com os divórcios dos casamentos civis, legal e judicialmente, muito dificeis, a classe média deu luz verde à Revolução do 25 de Abril de 1974. Ao comando deste novo golpe de Estado estavam 200 Capitães do Exército. Tudo gente da classe média, portanto. ( Conclui na próxima semana )           

        

      

publicado por flagrantedeleite às 14:13
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