Quinta-feira, 12 de Abril de 2012

HERÓIS DO MAR

   Os jardins de Lisboa são os lugares mais tristes e deprimentes de Portugal. Os jardins de Lisboa projectam o espectáculo da desolução, e obrigam a classe média a mudar de passeio. Só gostam dos jardins de Lisboa os velhos e os reformados da cidade. São os homens de boné e blusão. Os velhos e os reformados preenchem o imenso ócio, que os novos tempos lhes proporcionaram, jogando às cartas nos jardins de Lisboa. De sol a sol, apenas com o intervalo para almoçar. É a sua nova rotina. Nos jardins de Lisboa, os velhos e os reformados não procuram os prazeres, nem a grande saúde, dos banhos de sol. Buscam sobretudo as delícias e os encantos tamanhos da bisca lambida. Nos jardins de Washington e Nova Iorque, joga-se o xadrez. Nos jardins de Lisboa, pratica-se a manilha. Na sua adolescência, o grande cineasta, Stanley Kubrick, dedicou-se ao xadrez, nas jardins de Manhattan. Essa é a enorme diferença que nos separa dos Americanos. A diferença que vai do fado boçal de um baralho de cartas à lógica matemática de um lance de xadrez. A diferença entre Lolita e A Costureirinha da Sé. Entre John Ford e Perdigão Queiroga. Entre a Disneylândia e o Portugal dos Pequeninos.

   Os velhos e os reformados, que fazem dos jardins de Lisboa os seus casinos de bairro, ao ar livre, são produtos do progresso da medicina, e de um certo bem-estar social. São produtos demográficos, e igualmente políticos. Por isso, são produtos recentes: emergiram nos anos de 1980. Esses velhos ganharam uma esperança de vida consideravelmente dilatada. Há 40/50 anos atrás, das duas uma: ou morriam pouco depois da reforma, ou nem sequer viviam o suficiente para a ela acederem. Entretanto, passaram a sobreviver, no mínimo, mais 15 anos, após a reforma. Havia que providenciar, por conseguinte, uma ocupação a essa espécie de inactivos, nunca dantes conhecida. E, para isso, nada melhor do que mesas e cadeiras metálicas, espalhadas pelos jardins de Lisboa. Para os velhos e os reformados se entregarem à leitura dos nossos clássicos? Para tomarem conhecimento dos então chegados às letras nacionais, José Saramago e António Lobo Antunes? Para debaterem as alternativas políticas e partidárias que à época se colocavam ao país? Nada disso! Estamos a falar de ex-camponeses, desqualificados, semi-analfabetos, ou até totalmente analfabetos.  Gente que, nos idos de 50 e 60, do século passado, deixou a terriola em demanda de melhor sorte, na capital do já decadente Império lusitano. Gente que é hoje a versão metropolitana do Portugal profundo e  ancestral. Gente completamente a leste de qualquer preocupação cultural e intelectual, palavras de cujo significado aliás ninguém lhes falou. Para eles, tratava-se portanto de coisas tão simples e inocentes como baralhar, cortar e distribuir cartas de jogar. Era o que eles sabiam e podiam fazer, e era o que as Juntas de Freguesia sabiam e lhes podiam dar. Quem dá, e quem recebe, o que pode e sabe, a mais não é obrigado.

   Os velhos e os reformados viram-se, assim, e de repente, transformados em objectos decorativos dos jardins de Lisboa. Passaram assim a povoar, quais manchas grisalhas, os jardins da capital portuguesa. De pé ou sentados, mas sempre em grupos, o fito é o mesmo: jogar à sueca. Soberanamente alheios aos que os observam de soslaio. Olimpicamente indiferentes aos olhares reprovadores que, nós, os outros lisboetas lhes dirigimos. E tão pouco querem saber do que deles podem pensar os turistas europeus que nos visitam. Ou do que os turistas europeus podem pensar de nós, os Portugueses, por causa dessas e doutras cenas nada edificantes. Nem parece que sabem, ou sonham, que esses Europeus são os nossos credores, de ontem e de hoje, e que estamos todos a viver à custa do dinheiro que eles nos têm vindo a dar e a emprestar. E também não parece que sabem ou sonham, que esses Europeus andam de olho em nós, interessados no que fazemos com o seu dinheiro, e atentos ao crescimento económico, que lhes prometemos, em papel passado e assinado, e que poderá tirar-nos da fossa, e livrar-nos da bancarrota. E convenhamos que o quadro bizarro de hordas de velhos, a destrunfar cartas de jogar, em jardins públicos, pode deixa-los incrédulos, ou pelo menos desconfiados!          

publicado por flagrantedeleite às 12:31
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