Quinta-feira, 5 de Abril de 2012

O AMIGO ESTRANGEIRO

   Os países pequenos, ou, pior ainda, os países pequenos e pobres necessitam com premência de ter amigos estrangeiros. De preferência, amigos ricos e poderosos, ou, no mínimo, influentes. "Fulano é, ou era, um grande amigo do país", ouve-se suspirar, com um misto de orgulho, resignação e esperança. Os países, pequenos e pobres, não querem amigos que sejam pelintras ou párias. É que pelintras e párias, já os têm portas adentro. Por outro lado, e como é óbvio, os amigos estrangeiros, que sejam pelintras e párias, nada representam, nem constituem mais-valia que se veja.

   Os países, pequenos e pobres, também não querem amigos pobres, que sejam de países tão ou mais pobres do que eles. Uma coisa não joga com a outra, nem isso faz sentido. Os amigos estrangeiros devem ser como antigamente se escolhiam os nossos padrinhos: abastados e cheios de poder, e que  nos pudessem valer, a nós os pobres afilhados, nas horas de aperto e de aflição.

   Mas Deus guarde, também, os países, pequenos e pobres, de inimigos estrangeiros. Para inimigos, já lhes bastam os nacionais, com os quais podem aliás muito bem. Afinal de contas, a arte de bem eliminar a toda a pressa os inimigos domésticos é sobejamente conhecida de todos os países. Até dos países pequenos e pobres.

   Os amigos estrangeiros, sendo importantes, dão alento e ânimo aos países pobres e insignificantes. Dão-lhes o valor que não têm ou nunca tiveram. Afagam-lhes o ego, insuflam-lhes a auto-estima e reforçam-lhes a memória. E os amigos estrangeiros, dos países pequenos e pobres, têm ainda uma particularidade muito especial: ignoram ou perdoam, sistematicamente, os defeitos dos países pequenos e pobres. Para eles, é como se estes nunca tivessem defeitos. É como se estes fossem uns eternos impolutos, ou vivessem sempre na idade da inocência. É claro que uma tal indulgência perene dá grande jeito aos países pequenos e pobres.

   Os países, grandes e fortes, não querem saber de amigos, sejam eles indígenas ou alienígenas. Abrir parêntese: é de toda a evidência que os imigrantes, os refugiados e os clandestinos estão fora desta contabilidade. As razões destes últimos são outras, e não são propriamente razões de coração ou de amizade. Fechar parêntese. Os países, grandes e fortes, terão, na melhor das hipóteses, entre os seus cidadãos, amigos de países pequenos e pobres. Trata-se, de resto, de uma tarefa a que gostam de se entregar. De um desporto que alguns adoram praticar. Os países, pequenos e pobres, servem para exercitar a filantropia. Para desenfastiar e espairecer os ricos dos países ricos e fortes. Para fotografar e mais tarde recordar, junto da família e dos amigos. Não há quadro mais enternecedor do que a roupa dos pobres a secar nos casebres; ou cenário mais tocante do que o bibe, a baba e o ranho das crianças descalças; nem, por fim, retrato mais impressivo do que o desfile dos porcos, cabras e burros pelas ruas secas, poeirentas e mal-cheirosas.

   Se calha, aos países ricos e fortes, descobrirem que têm inimigos internos, os da quinta coluna, ou no bojo de algum Cavalo de Tróia, a reacção não se faz esperar. São suprimidos, num abrir e fechar de olhos. Prendendo-os, desempregando-os ou mesmo executando-os. É para isso, entre outras coisas, que servem as polícias secretas, os comités de actividades anti-isto e aquilo, e, da mesma forma, os Códigos Penais. Inimigos, inimigos, negócios à parte! Os países ricos e poderosos serão, quando muito, amigos dos seus eventuais amigos. Mas dos seus inimigos é que não são amigos, e parvos também não são.

   Portugal, que é um país pequeno, e não é rico, também teve, e tem, os seus amigos estrangeiros, que venera e lembra, com respeito e humildade. Na galeria dos insignes amigos estrangeiros dos portugueses, figuram William Beckford, Calouste Gulbenkian, Christine Garnier e Antonio Tabucchi. Este último morreu, há poucos dias, em Lisboa, e aqui foi sepultado. "Perdemos um grande amigo", é o que se diz por aí.                 

publicado por flagrantedeleite às 13:56
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