Quarta-feira, 30 de Outubro de 2013

EU, O AMANUENSE BENONI (retalhos de uma vida)

2ª. EDIÇÃO, REVISTA, CORRIGIDA E LIGEIRAMENTE AMPLIADA

 

 

    Sou um amanuense dos quatro costados e das sete partidas do mundo. É parte da minha vida, aventureira e aventurosa, que venho agora contar em quatro folhas A4. Faço-o apenas por desfastio e entre dois bocejos e um arroto. Quando falo de mim mesmo, não resisto aos bocejos, aos arrotos e a outros alívios corporais. É o que merecem todos os amanuenses, como eu. Aviso aos navegantes: o título destas memórias e reflexões inspira-se em três romances - Eu, Cláudio (1934) do escritor inglês, Robert Graves, O Amanuense B (1937), do novelista brasileiro, Cyro dos Anjos, e Benoni: Ein Roman (1854) do romancista alemão, Albert E. Brachvogel - e o subtítulo num livro de contos - Retalhos da Vida de Um Médico (1949), do ficcionista português, Fernando Namora.

    Retomando a minha história, começo pelo princípio: sou um pobre herói, nascido nos idos de trinta do século passado, pelo que posso considerar-me no presente um homem avançado na idade, qualquer coisa como um pré-octogenário. Este pormenor não me impede de me julgar um jovem cheio de vigor e energia. Com bastantes dificuldades, fiz os estudos primários e, muito mais tarde, secção aqui, secção acolá, completei o antigo 5º. ano liceal. Consegui estas últimas habilitações, aos trancos e solavancos, pois, em simultâneo, eu dava o corpo ao manifesto, no ganha-pão de cada dia. Comecei muito cedo a andar e a nadar na papelada. Não aprendi outra coisa que não fosse chafurdar na dita cuja. E foi com a citada bagagem literária, e algum traquejo nos papéis, que em tempos já remotos e na flor da idade, parti para o Sul do continente negro, indo engrossar e reforçar a segunda linha do colonialismo português em África.

      Segui o percurso que o Destino traçou a muitos dos  meus conterrâneos, e que estes aceitaram, aliás, de bom grado e com fama e proveito. Da fama nem vale a pena falar. Os proveitos eram imensos e tentadores: vencimentos sensivelmente melhorados; promoções rápidas, nas categorias; subsídios vários; contagem da antiguidade, para efeitos de aposentação, substancialmente bonificada. Tudo isto sem contar uma relativa respeitabilidade perante a população indígena. E não é tudo. Por fim, mas não por último, há que destacar a cereja no topo do bolo: seis meses de licença graciosa, gozada na antiga Metrópole, ao cabo de quatro anos de serviço. Essas licenças eram invariavelmente prorrogadas por dois e três anos de férias, que generosos e solícitos atestados médicos suportavam e o regime convenientemente abençoava. Amanuenses houve que se bacharelaram à conta de licenças graciosas dilatadas. Diga-se que, na maior parte dos casos, tais bacharelatos (e não licenciaturas, como alguns figurões pretendiam e ainda hoje pretendem) mais não eram do que aprofundamentos teóricos da doutrina colonialista, que os interessados, no afã de bem servir o amo colonial-fascista, punham depois em prática nas próprias possessões ultramarinas.  

     Foram estas prebendas e sinecuras que atraíram muitos potenciais colonos, quer os da primeira, quer os da segunda linha. A partir dos inícios da década de 1960, e face a atractivos tão aliciantes, milhares de portugueses não resistiram e operou-se deste modo uma enorme corrida em direcção ao Eldorado africano. É exactamente aqui que, nós, os amanuenses, entramos em cena. Sabe-se que, muito antes de 1961, já demandávamos as costas africanas, onde fomos protagonizando, nem sempre discretamente, a segunda linha da presença lusa em África. A partir de Fevereiro de 1961, muitos conterrâneos meus, também eles, enfeitiçados pelo canto e pelo encanto do maná colonialista, partiram sem hesitações para as Áfricas portuguesas. Note-se que partiram ao arrepio das considerações ideológicas, como o anticolonialismo e o nacionalismo, que muitos deles viriam mais tarde a abraçar e a apregoar por conveniências simplesmente circunstanciais e pessoais.

     Instalado naquelas bandas, eu, como bom amanuense, que sempre fui, aperfeiçoei aquilo para o qual os fados me haviam talhado: a burocracia. Ao mesmo tempo, fui gozando as delícias de uma paz que as autoridades coloniais me iam propiciando. A paz e a segurança eram tais que eu e os meus colegas, da primeira e segunda linha, nem dávamos pela guerra que paredes-meias se travava. Com um sorriso nos lábios, chegávamos mesmo a comentar que se tratava de uma guerra inglória e inútil. Inglória e inútil, para os insurgentes, bem entendido. É evidente que pensar assim era o que nos convinha e nos embalava. O problema é que isso não era verdade. O problema é que esse remanso foi súbita e inesperadamente abalado pela Revolução portuguesa do 25 de Abril de 1974. O problema é que, com a dita Revolução, veio também a ameaça, concreta e real, da independência de todas as colónias lusas. O problema é que se instalou de imediato o pânico entre os colonos. O problema é que o Eldorado chegara ao fim. O problema é que o meu bem-estar e a minha tranquilidade estavam irremediavelmente condenados.

   A história é conhecida: foi a debandada para a antiga Metrópole, particularmente em 1975, de toda a comunidade colonial. Ala, que se fazia tarde. Entre os que fugiram, ao lado dos restantes colonos, estavam também os amanuenses. Eu, o Amanuense Benoni, não fui excepção. Era mais um entre muitos retornados. Daí em diante, o labéu de retornado haveria de se tornar uma chaga incurável na minha pele. A maldita condição de retornado haveria de me perseguir para o resto da minha vida.

    Na antiga Metrópole, permaneci o estritamente necessário para sacar a reforma, paga pelo Estado português. Depois disso, zarpei sem demoras para a procedência. Ia tratar da segunda reforma. Costumo dizer que fui convidado para exercer novas funções, mas isso não é verdade. Esse convite não passou de uma colossal mentira que eu inventei para disfarçar a derrota do meu regresso à estaca zero, aos quarenta anos de idade. E mais: com ou sem convite, eu estava condenado a regressar ao ponto de partida. Nada me atraia, no resto do mundo, nem eu tinha futuro fora do meu berço natal. O meu futuro só podia estar no lugar que eu havia deixado 15 anos antes. De resto, nesse lugar de retorno, ninguém me perguntou por que razão eu tinha abandonado uma colónia, que acabara de se tornar independente. Ninguém viu nessa atitude da minha parte qualquer contradição. Ou, se alguns viram, nada disseram. Aparentemente, todos compreenderam e respeitaram esse passo árduo e penoso da minha vida. Outrossim, novos voos esperavam por mim. Era a minha segunda oportunidade. Era o meu agora ou nunca. Ia finalmente mostrar e provar aos meus conterrâneos que eu não era apenas e tão-só um simples manga-de-alpaca. Ia mostrar e provar aos meus patrícios que havia muito a esperar de mim também como político, como jornalista e como homem de letras. E, bem assim, como um moralista, um homem incorrupto e incorruptível. Ia mostrar e provar-lhes, em suma, que eu, o Amanuense Benoni, era um bandolinista que também podia ser um pianista.  

    Além de um cargo, de grande importância, desempenhado na administração pública, fui escolhido para as mais diversas funções políticas. Dirigi uma folha semanal, onde cumpri cabalmente o meu lema de dar sempre o melhor de mim mesmo e da minha pena. Fui um perseguidor, incansável e impiedoso, dos traidores e dos renegados da pátria; dos dissidentes e dos dissonantes; dos corruptos e dos esbanjadores de dinheiros públicos. Mesmo que isso me custasse o meu posto de trabalho, como de facto custou, dar-lhes-ia combate sem tréguas. Eu tinha pela frente uma missão. Uma cruzada. Um desígnio. Um chamamento. E tudo isso aconteceu ao serviço dos meus compatriotas, aos quais jurei uma inquebrantável e sólida fidelidade.

     No meio de tudo isto, dei início a uma brilhante e bem-sucedida carreira litrerária, tendo já publicado 17 livros, da ficção ao ensaio mais variado. Acerca dos meus livros, é opinião generalizada e consensual que se trata de análises profundas e penetrantes de um vasto leque de temas e questões. Com efeito, da política à religião, passando pelos costumes, pela cultura e pela crítica social e administrativa, nada escapa à lâmina afiada do meu bisturi, nem à lente implacável da minha lupa.  São provas disto tudo, os títulos certeiros e sibilinos das minhas obras. Atente-se, como meros exemplos, nos seguintes achados verdadeiramente originais: As Dez Contas do Meu Rosário; Clarice no País da Trafulhice; Estes Pedregulhos Que Deus Nos Deus; Um Calhau no Meu Sapato; Um Aventureiro Nas Terras de Kali-Bambo; Perdidos e Agoniados; Os Engulhos dos Invejosos; Os Acossados do Vento Sul; Recordações da Terra dos Finados; Fatias de Uma Vida; A Deusa Vai Descalça; Os Derrotados da Terra; e, enfim, A Tertúlia dos Atrofiados.

     Todos estes títulos são da minha lavra e saíram da minha imaginação fértil e prodigiosa. Nem outra coisa seria de esperar de um homem que honra, com a sua presença, a associação de escritores do seu país. Ser membro dessa ínclita e prestigiada agremiação foi um sonho longamente acalentado e um convite obviamente irrecusável. Foi o corolário lógico e inevitável de uma vida inteiramente votada à cultura, ao pensamento, e ao labor literário.

     Ainda sobre os meus livros, convém também salientar que anual e pontualmente dou à estampa uma obra com o patrocínio e financiamento de empresas amigas - públicas, principalmente - que é como quem diz: a expensas do erário público. Ou ainda, e para ser mais preciso: à custa dos contribuintes portugueses e europeus, que nem imaginam as maravilhosas utilizações que fazemos das suas ajudas financeiras.

     Anual e pontualmente, apresento as minhas criações literárias aos meus 69 amigos e conhecidos, residentes algures numa das nossas conhecidas cidades do Sul da Europa, o que costuma acontecer logo a seguir ao Verão. Neste particular, a única excepção ocorreu num ano qualquer do Senhor, de que já não me lembro ao certo qual teria sido. Nesse tal ano, alguém influente e das minhas relações de amizade, confidenciou-me que a Láurea-Mor da Literatura iria contemplar um conterrâneo, e que eu era o favorito. Convinha, por isso, e apenas para reforçar a minha posição, apresentar o meu livro anual, o mais cedo possível, de preferência, dois ou três meses antes da decisão do júri.  Foi o que fiz. Nos princípios do referido ano, de que já não me lembro ao certo qual teria sido, estava eu a apresentar a minha mais recente produção, com a pompa e circunstância habitual, e a contar que a distinção em causa me seria facilmente, e com toda a justiça, reconhecida. A boa notícia é que o referido prémio foi de facto atribuído a um patrício. A má notícia é que o prémio foi para outro, que não eu. Perante uma tão clamorosa injustiça, é evidente que fiquei profundamente revoltado e consternado. Quem não se sente não é filho de boa gente, lá diz o ditado e com razão. Mas já passou. Já estou recuperado. Já estou recomposto. Com mil e uma perguntas sem respostas, é certo, mas totalmente recuperado e recomposto. Melhores dias hão-de vir, e ninguém me tira o estatuto de escritor internacionalmente conhecido e reconhecido. Os prémios passam e os génios ficam, além de que os pássaros repousam no ocaso. Com escândalo e bênção ou sem eles. O que eu não quero é ser tambor de ninguém. Serei sempre o Amanuense Benoni, o escritor que andou pelas terras do fim do mundo.

     Entretanto, parti já para outra, ou seja, para o meu 18º. livro, que, no final do próximo Verão, apresentarei na tal conhecida cidade do Sul da Europa. Esperem por mim, meus 69 amigos e conhecidos! As trombetas da perseguição e corrupção não vencerão. Termino, parafraseando o Imperador Cláudio, o qual, como se sabe, era gago e coxo: Sou um homem que gagueja da perna e coxeia da língua.

 

 

 

 

P. S. AINDA SOBRE O RECADO URGENTE, ENVIADO AO GOVERNO DO DR. PEDRO PASSOS COELHO, NO TEXTO ANTERIOR. 

 

    Mantém-se a necessidade imperiosa de o governo português rever com a máxima urgência a questão das pensões de aposentação, pagas pela Caixa Geral de Aposentações, isto é, pelos contribuintes portugueses, aos ex-funcionários administrativos das antigas colónias lusas. Como já foi dito, esses aposentados, por Portugal, são simultaneamente beneficiários de pensões de reforma, suportadas pelos seus próprios países de origem, e, de entre eles, muitos são os que exercem actividades remuneradas, por conta própria ou alheia. Cabo Verde é o país que bate o recorde de tais situações de privilégio, pois são aos milhares os seus cidadãos titulares de duplo ou triplo rendimento, incluindo a pensão portuguesa. Trata-se de regalias que não se compadecem nem com a situação de emergência económica e financeira em que Portugal se encontra, nem com o seu estado praticamente impecunioso, e que, de há dois anos e meio a esta parte, colocaram o país num severo e amplo regime de austeridade. Com estas pensões de aposentação, os contribuintes portugueses estão a esportular anualmente milhões e milhões de euros, sem perder de vista que Portugal, além de contribuir nas ajudas que a União Europeia concede a Cabo Verde, já o faz directamente, e de forma bastante significativa, no âmbito de acordos bilaterais existentes entre os dois países. Nada justifica, portanto, a persistência das mencionadas situações de privilégio. Nem a equidade na distribuição dos sacrifícios impostos aos cidadãos portugueses, nem a depauperada capacidade financeira do Estado português, que, em relação a esses pensionistas estrangeiros, já fez mais do que podia e devia. Pelo contrário: tudo aconselha e exige a extinção pura e simples dessas prerrogativas, e no mais curto lapso de tempo. 

    Voltaremos a este assunto, se for caso disso.                    

 

 

 

 

 

 

 

     

 

 

 

 

 

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

     

 

 

 

 

 

 

 

 

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

         

 

 

 

 

 

 

 

 

 

       

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

       

publicado por flagrantedeleite às 12:48
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